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O boato de que Pabllo Vittar estaria grávido de Lula é um exemplo de poder anárquico do boato e da importância de se preservar a livre circulação de ideias.
O boato de que Pabllo Vittar estaria grávido de Lula é um exemplo de poder anárquico do boato e da importância de se preservar a livre circulação de ideias.| Foto: Reprodução/ Twitter

Li uma vez. Não acreditei nem entendi. Li a segunda. Nada. Três, quatro, cinco vezes. Neca de pitibiriba. Não sei se acontece com você, leitor, mas comigo é cada vez mais comum: me deparo com algumas coisas que me fazem questionar minha sanidade. Vai que todo esse mundo que entendo por real é apenas projeção de uma mente delirante num quartinho de hospício?

Estou falando do boato de que Pabllo Vittar estaria grávido de Lula – informação que teria circulado pelas “redes bolsonaristas”. Uma agência de checagem atrelada ao movimento LGBT correu para desmentir tudo. “Inclusive, não seria possível gerar um embrião com a copulação (natural ou assistida) entre dois homens cisgêneros, uma vez que a fecundação humana se dá quando o espermatozoide se une ao óvulo e forma o zigoto. A fertilização in vitro (FIV) também não poderia ser feita em Pabllo, pois ele não possui útero”, esclarece didaticamente o texto escrito para pessoas que ainda não aprenderam como bebês são feitos.

Nota-se, também, um cuidado todo especial do redator ao usar as desinências de gênero. Pabllo Vittar não está grávida – é o que se lê na manchete. E, sabe o que é pior, o erro de concordância parece já ter perdido o seu caráter tragicômico. Foi isso o que aconteceu: enquanto estávamos aqui distraídos discutindo formas neutras de nos referirmos às pessoas, os progressistas normalizaram o uso do feminino para se referir a homens.

Acerto de Bolsonaro

Sem graça e forçado, de bom mesmo o boato, ou melhor, da obviedade do boato envolvendo a gravidez de um homem (e um homem petista) só tem o fato de ele poder ser usado, aqui, para exemplificar a importância de mantermos a circulação de ideias livre de qualquer controle. Por mais que as ideias sejam tão estúpidas quanto essa de supor que um homem pode engravidar de outro homem só porque usa roupas de mulher e canta num falsetto sofrido.

Hoje (2) mesmo, o presidente Jair Bolsonaro vetou uma legislação que previa punição para quem disseminasse notícias enganosas. As tais fake news. Os tais boatos – como o de que Pabllo Vittar estaria grávido de Lula. É um acerto inequívoco que todo mundo que preza pela liberdade deveria estar comemorando. Mas, como foi uma decisão de Bolsonaro, é óbvio que há “democratas” se opondo.

Há quem diga, por exemplo, que Bolsonaro estaria legislando em causa própria. Como se o “outro lado” dessa contenda não lançasse mão desse recurso nessa guerra política travada no lamaçal do maquiavelismo. Esse tipo de artigo também parte do pressuposto equivocadíssimo de que toda comunicação se baseia em notícias cuja veracidade ou não estão sujeitas a uma decisão por um “ente superior”.

Outro pressuposto obtuso a basear o raciocínio de gente como o ministro Luís Fux, que acabou de instituir no Brasil uma espécie de Ministério da Verdade (assim às claras, explicitamente, e com a conivência de todos ao redor), é o de que é possível, em plena era do WhatsApp, Deep Web, redes sociais e não sei mais o quê, controlar o que o povo pensa e transforma anarquicamente em “informação”.

Por fim, há a ideia exagerada de que os boatos, ao atingirem as autoridades, têm força o bastante para abalar as estruturas do Estado. Não têm. Jamais tiveram – nem quando as notícias falsas e seus desmentidos demoravam dias ou meses para chegar aos rincões mais afastados do país. Isso é paranoia de aspirante a tirano que está com o senso de autoimportância descalibrado.

A liberdade é perigosa? É, claro que é! Ela angustia porque nos dá a oportunidade de, num átimo e sem a tutela de nada além da nossa consciência, tomarmos a decisão certa ou (mais provavelmente) errada. É o que todos fazemos cotidianamente – e várias vezes ao dia. Tirar a possibilidade do acerto e do erro, e ainda mais por meio de uma lei (!), vai contra o que há de mais nobre no ser humano: a capacidade de aprender e, com alguma sorte, assim alcançar algum nível de excelência.

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