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Polzonoff

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Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Dilema

Você daria caviar a um mendigo?

CAVIAR MENDIGO
Caviar: cerca de 250 calorias por 100g. (Foto: ChatGPT)

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Fico imaginando que um monte de gente leu só o título da crônica e já correu para dizer que não!, de jeito nenhum!, que absurdo!, tá sem assunto?! Mas vamos em frente. Porque esta história, ou melhor, este dilema começa em Londres, onde minha mulher esteve recentemente para dar uma palestra. Resumindo, ela foi abordada por um “mendigo loiro e agressivo” (descrição dela) e deu a ele uma libra de esmola. “Uma libra?!”, perguntei. “Com essa grana dá para comprar um apartamento!”

Foi aí que me lembrei de uma história que quero contar faz tempo. A história começa comigo entre as gôndolas do mercado, comprando um potinho de caviar. “Caviar”, melhor dizendo. Nada de esturjão do Mar Cáspio. Estou falando do produto mais ao alcance da classe média. Cem gramas de ovas de capelim preto. Por quê? Porque minha mulher nunca tinha provado e eu não me lembrava do gosto. Minto, quis impressionar minha mulher que na época era apenas namorada. Acho que consegui.

Quase na hora do almoço

Mas cem gramas de “caviar” é bastante coisa. Ainda mais quando sua mulher não gosta daquele troço salgado. No dia seguinte, por algum motivo mencionei o “caviar” aos meus pais, que disseram que nunca tinham provado a iguaria. Na hora, me prontifiquei a preencher essa importante lacuna na cultura gastronômica deles: pode deixar que levo aí para vocês. E fui. Ou melhor, fomos, eu e minha mulher. A pé. Atravessando a selva de mendigos em que se transformou o centro de Curitiba. Já percebeu aonde isso vai chegar, né?

Passamos incólumes por praças e marquises apinhadas de mendigos. Até que, numa ruazinha arborizada do Alto da XV, fomos abordados por um senhor que se dizia faminto. Vish, esqueci de contar que estava quase na hora do almoço. Sou péssimo contador de histórias. Pois estava quase na hora do almoço e o mendigo nos implorava algo para comer. E eu ali, com o “caviar” e um pacote de torradinhas numa sacola de mercado. Dou ou não dou? Se der, o que ele vai achar daquilo? Vai comer? Vai se ofender? Caviar é comida? Não dei. Desde então a imagem de um mendigo passando “caviar” sobre a torradinha não me sai da cabeça.

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