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Polzonoff

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MPB

Peguei comunismo ouvindo Chico Buarque

COMUNISMO CHICO BUARQUE
Chico Buarque abraçando Lula: só pra te provocar. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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Estou aqui ouvindo “Yolanda”. Chico Buarque em dueto com Pablo Milanés. É uma canção de amor, mas, sei lá, me dá vontade de lutar contra o império estadunidense. Ou melhor, de ouvir um daqueles discursos intermináveis do Fidel. Não, não chega a tanto. Mas que dá vontade de lutar contra a sociedade de consumo, isso dá. Dá vontade de lutar também contra a economia da atenção. E sobretudo contra essa polarização ideológica que estupidifica e embrutece.

Me levanto. Preparo uma cuba-libre e acendo um charuto. Minha mulher reclama da fumaça e do cheiro. Avanço na playlist. Gal Costa canta “Força Estranha”, de Caetano Veloso. Me pergunto como alguém pode pensar em lei Rouanet, hipocrisia esquerdista e comunismo ao ouvir versos como “eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino”. Como? Eu que ouço e só penso no tempo. Brincando. Ao redor do caminho. Daquele menino.

O tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

Agora é a vez de Zizi Possi cantar a tristíssima “Pedaço de Mim”. Chico Buarque de novo e de novo aquela vontadezinha de entrar para o MST? De me filiar ao PT? Nada. Na sequência da playlist de todos os sábados pela manhã, Maria Bethânia cantou “Nossa Canção” e a insuportável Elis Regina cantou “Tiro ao Álvaro”. Continuo considerando o marxismo um erro intelectual e espiritual. A próxima é “Beatriz” e, depois, “Anos Dourados”, com aquelas intromissões deliciosamente graves e ébrias do Tom Jobim, que morreu sem ter tempo de ser chamado de misógino ou esquerdista. Sortudo.

Sei que é difícil, mas vale o esforço consciente de tentar ouvir essa MPB da esquerda caviar como o que ela é: expressão melódica dos sentimentos de um povo confuso e por vezes contraditório. Um povo tradicionalmente sentimental, solidário e tolerante, infelizmente transformado num povo cerebral, individualista e intolerante. Mas ainda com banzo do tempo em que esta gente bronzeada tinha de fato valores a mostrar ao mundo. Do tempo em que o tio Sam queria conhecer a nossa batucada. E agora... Gonzaguinha. É, não vai ter jeito. Assim vou acabar pegando comunismo mesmo.

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