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Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Clap, clap

Crônica Dominical

CRÔNICA DOMINICAL
Na ilusão do próprio sucesso, ela ouviu alguém gritar: “Perdi meu tempo. Fala de política!”. (Foto: Grok)

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Antes de entrar em cena, Crônica Dominical estava toda nervosa no camarim. Será que vou agradar? Será que não vou? Vou! Ela roía as unhas e a muito custo continha a vontade de perguntar se o teatro estava lotado. (Não estava). “Cinco minutos”, avisou o contrarregra. Ela respirou fundo. Soltou o ar bem devagar. Se olhou no espelho uma última vez. Estava linda. Lá vamos nós, disse ela de si para si e sem se importar em explicar quem seria o “nós”.

Abriram-se as cortinas. No palco, Crônica Dominical foi recebida por aplausos tímidos e um ou outro grito de uhu! que a iludiu. E lá foi ela exercer o seu papel mais famoso: o de distração esclarecida no fim de semana. Sapateou & dançou. Contou piadas. Narrou os acontecimentos dos últimos dias com um quê de melancolia. Fez malabarismos com as palavras. Foi e voltou, voltou e foi. Tudo ao som de tímidos e esparsos clapclaps que ela insistia em ouvir como se fosse ovação retumbante, do tipo que os Bragas, Sabinos e Mendes-Campos da vida recebiam antigamente. Dizem.

Fala de política!

O espetáculo chegou ao fim. Em seu ritual de sempre, Crônica Dominical foi para a coxia. O silêncio da plateia era abafado pelos aplausos e gritos de bravo! bravo! em sua cabeça. Sem reparar nos olhares constrangidos ao seu redor, e embriagada de um sucesso imaginário, ela voltou ao palco. As palmas foram duas. Exatamente duas. Lentas e espaçadas. Alguém tossiu. Outro bocejou ruidosamente. Curvada no palco, Crônica Dominical esperava se afogar numa chuva de rosas. Cri cri cri – criquilou um grilo debaixo da poltrona 29, lááááá na última fileira.

Crônica Dominical já ia se retirando, toda feliz na ilusão do próprio sucesso, quando ouviu alguém gritar: “Perdi meu tempo. Fala de política!”. Ela deu meia-volta e, cega pelas luzes, espremeu os olhinhos na tentativa de localizar o fã contrariado. “Tá sem assunto?!”, gritou uma voz feminina à esquerda. Ou pelo menos parecia feminina. Hoje em dia não dá para ter certeza. A essas e outras críticas negativas, ela pensou em responder. Mas nada lhe ocorreu, porque Crônica Dominical só sabia reproduzir e interpretar o que o Autor escrevia para ela. “E ponto final”, disse.

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