
Ouça este conteúdo
A desembargadora Eva do Amaral Coelho está passando apuro, tadinha. Ela, que recebeu R$91 mil em março, reclamou do fim dos penduricalhos do Judiciário e disse que “daqui a pouco a gente [os magistrados] vai estar no rol daqueles funcionários que trabalham em regime de escravidão”. O lamento da doutora Eva (Evah!) é ridículo? É. O chororô é revelador de uma casta sem contato com a realidade? É. Você está revoltado? Provavelmente.
Mas tem algo aí digno de reflexão. Para isso, contudo, você vai ter que se olhar no espelho. Não, não esse do banheiro. Me refiro ao espelho da alma. Você vai ter que olhar para dentro de si, se perguntar e responder com toda a sinceridade do mundo: será que, para além das necessidades básicas, eu também não virei escravo do dinheiro? Será que eu também não invento um universo de penúria para justificar minha ganância? E mais: será que não virei desses que acham que dinheiro, dinheiro, dinheiro (e mais dinheiro) é a solução para todos os meus problemas?
Mamonismo
O culto ao dinheiro tem nome: mamonismo. Mais do que uma doença do espírito, o mamonismo é uma verdadeira ideologia que contamina tanto almas de direita quanto de esquerda. Almas que acreditam que a posse de bens supérfluos é sinal de realização pessoal e prestígio, quando não de predileção divina. Em seus estágios terminais, o mamonismo pode causar essa ruptura com a realidade que a gente vê no caso da desembargadora “escrava”. Sim, o mamonismo enlouquece.
Antes condenado pelas autoridades morais, o mamonismo hoje está amplamente difundido na sociedade, que aprendeu a admirar as pessoas não por suas virtudes (entre as quais se inclui a modéstia), e sim por seu saldo bancário ou por seu cotidiano de vinhos caros, roupas de marca, gadgets de última geração, etc. Ou seja, por tudo aquilo que o dinheiro pode comprar e ostentar. Essa, na verdade, é a escravidão a que a desembargadora e tantos outros estão presos. E nem se dão conta. Tadinhos. De nós.








