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Tinha lido “Dona Flor e Seus Dois Maridos” há muito tempo, coisa de 30 anos. Me lembrava com carinho do livro que me apresentou a um Jorge Amado divertido. Bem diferente do daquela porcaria de “Capitães de Areia”. Mas nunca tinha visto o filme de 1976, com Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça, e que durante décadas ostentou o posto de “filme mais assistido da história do cinema brasileiro”. Até que vi e fui obrigado a me lembrar daquela frase repetida pelo Olavo de Carvalho.
É, aquela que diz que “nada está na realidade política de um país se não estiver primeiro na sua literatura”. A frase, bem sei, não é do Olavo, e sim de Hugo von Hofmannsthal. Quem quer que seja ele. E foi assim que, entre uma e outra cena mais ousada, me dei conta de que “Dona Flor” é a metáfora perfeita do Brasil atual. Da polarização política que vivemos. Essa rinha entre esquerda e direita da qual as pessoas não se cansam. O que é impressionante, porque me confesso cansado. Exausto.
Harmonia imoral
Dona Flor, no caso, é o Brasil. Um país simples, trabalhador e sensual que, contra os conselhos da mãe, se casou com Vadinho, um malandro viciado em jogo, mulheres e farra, muita farra. Nessa analogia, adivinha quem é o Vadinho? A esquerda, claro! Sedutor com suas promessas vazias, explorador de Dona Flor. Um proxeneta inexorável, que morre mas não morre, que insiste em ficar por aqui neste mundo atazanando todo mundo e se aproveitando da fraqueza de Dona Flor. Ela que de Vadinho suporta até uns sopapos em troca do prazer na alcova.
Depois da morte de Vadinho, Dona Flor se casa com o farmacêutico Teodoro. Que nada mais é do que a personificação da direita. É todo formal. Chato. Careta. Ele ama Dona Flor de uma forma... protocolar. E está destinado a dividi-la para sempre com o espírito zombeteiro de Vadinho, ao qual a viúva volta e meia se entrega para não morrer de tédio. E é assim que, como na cena final do filme, dormem na mesma cama, numa harmonia imoral, o Brasil, a esquerda e a direita.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



