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Ó sofrimento horrível de ver-se!
— Lamento de Corifeu em “Édipo Rei”, de Sófocles.
Acordei pensando nas pessoas que ainda defendem Alexandre de Moraes. Não você. Pessoas que repetem a ladainha de que Moraes é defensor da democracia. De que as acusações contra ele são mentirosas e de que ele “está do nosso lado”. Isso apesar de tudo o que nossos olhos viram nos últimos dias – e não tem como desver. E nisso me lembrei de Édipo Rei, peça escrita há quase 2500 anos pelo dramaturgo grego Sófocles. Édipo que termina arrancando os próprios olhos, incapaz de encarar a verdade de que a profecia havia se realizado: ele dormiu com a própria mãe.
No caso de Alexandre de Moraes, a verdade que muita gente prefere não encarar é a de que se trata apenas de um sujeito comum, um homem até medíocre, que se aproveitou do caos institucional mais ou menos permanente no Brasil para chegar ao STF, onde se embriagou de poder e se vendeu por uns prazeres pequenos. Não tem qualquer ideologia nisso. Não tem defesa da democracia nem petismo nem nada do tipo. É apenas a velha mistura de ambição e vaidade. A mesma poção que há séculos enfeitiça tiranos. É a profecia do Oráculo de Delfos.
Tolinho
Alexandre de Moraes é um caudilho sem bombacha. Um milico sem farda. Um coroné montado num risível pangaré. É um latifundiário do poder jurídico. Um industrial de maldades. Rei sem coroa. Ele é tudo aquilo contra o que a esquerda jura lutar desde a Revolução Francesa. Alexandre de Moraes representa o poder absoluto e absolutamente hipócrita, bem como o desprezo pela ralé e a crueldade para com os inimigos dele. E, no entanto, há quem insista em defendê-lo porque encarar a realidade de que passaram os últimos anos apoiando um monstro lhes é insuportável.
Eles teriam de arrancar os olhos e, simbolicamente, é isso o que vêm fazendo por meio de mentiras, falsas equivalências e aquela balela de que ninguém presta nessa história. É revoltante? Sim, mas é também triste. Mais do que isso, é uma amostra de como algumas pessoas, ou melhor, muitas pessoas se deixam escravizar pelo espírito do tempo. Porque é mais fácil arrancar os olhos do que se confrontar com suas incoerências. Com o fato de que, apesar do discurso, no fundo o que você mais quer é ver a sua vontade prevalecer. Você aí, que quer ser como Deus e moldar o próximo à imagem enganosamente perfeita que faz de si mesmo. Tolinho.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



