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O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
— Fernando Pessoa, Tabacaria.
Sabe aquele papinho de “Não sei como alguém tão inteligente como você...?” Pois então. Ouvi muito isso nas últimas semanas. Não sei como alguém tão inteligente como você pode defender um bandido. Um fujão. E tudo bem. Faz parte do jogo essa retórica passivo-agressiva. Tanto que vou apelar a ela agorinha mesmo para perguntar: não sei como tantas pessoas inteligente, bem-informadas e razoavelmente cultas puderam se sujeitar às ordens de Janones. Do André Janones, bicho! O sujeito para o qual eu olho e, não sei por quê (não faço a menor ideia!), me lembro imediatamente de Lombroso.
Mas aí é que está. Em vez de me contentar em não saber, resolvi parar e pensar no que levou milhões de alguéns a se sujeitarem às ordens de uma das pessoas mais repugnantes da República. Isso numa República abundante em pessoas repugnantes. Pensar. Não é fácil, ainda mais numa época que nos incita a reagir. Mas aproveitei o feriado, pensei e, depois de resistir a várias respostas fáceis como “porque são todos burros” ou “porque o esquerdismo é uma doença mental” ou “porque o petismo é uma seita”, cheguei a duas explicações que têm a ver com os versos de Fernando Pessoa que servem de epígrafe a este texto. O portuga sabia das coisas!
Bovinamente
Nesta eleição, ninguém investiu mais do que André Janones. Ele que investiu nada menos do que a própria vida. E aqui não me refiro apenas àquela coisa do “ganhar o mundo e perder a alma” (Lc 9:25). Janones foi parar no hospital, lembra? Na UTI. Uns dizem que a causa foi uma arritmia, outros dizem que foi... Você sabe. Na direita, não vi nada remotamente parecido. Nem os ataques de fúria de Paulo Kogos chegaram perto. Janones e os seus nasceram para conquistar o mundo. Isso não é um elogio; é quase uma maldição. Eles que estão dispostos a tudo. Ao diabo. Por falar em poesia, me lembrei de outros versos que ajudam a entender o fenômeno: “Os melhores não têm convicção, enquanto os piores/ Estão repletos de uma intensidade apaixonada”.
E outra, a que mais me pega: a direita não é capaz de concorrer com o senso de pertencimento da esquerda. Ainda. Talvez um dia seja e, sinceramente, não sei se isso é bom ou ruim. Poucos votaram em Flávio Bolsonaro com o mesmo orgulho com que a esquerda votou em Lula, fez o L, apertou o 13. E essa força, a do pertencimento, é muito maior do que qualquer sonho sincero de melhorar o país. As pessoas querem ser admiradas e reconhecidas como pessoas “do bem”. E, para isso, elas estão dispostas a tudo. Inclusive ao ridículo de obedecer bovinamente a André Janones. Esse é o poder enlouquecedor de um espírito tomado pela ideologia. Desses que, de acordo com o portuga, nasceram para conquistar o mundo. Nem que isso lhes custe a própria alma.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



