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O ministro Gilmar Mendes usou uma sessão solene autocongratulatória do STF para escarnecer de seu arqui-inimigo, o senador Sergio Moro. Cada vez menor e mais torpe em sua atuação como ministro da Suprema Corte, o decano riu de Moro e disse que o ex-juiz da Lava Jato precisava de ghost-writers (ou “escritores fantasmas”, pra ti que não fala inglês) por não saber se o certo é “tijela” ou “tigela”. É tigela.
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Este é o Brasil no Ano da Graça de 2026. Um ministro do STF tem a pachorra de querer demonstrar superioridade jurídica, intelectual e moral apontando a suposta ignorância ortográfica de um senador. Uau. Se isso não é característica de um biltre, então não sei o que é. E, no entanto, parece que são muitos aqueles que zombam do adversário quando ele escorrega na banana ortográfica, a fim de denunciar-lhe a burrice, quando não a desonestidade. À direita ou à esquerda, quem age assim é sempre um patife. Não menos.
Quem escreve bem pensa bem
Não quero dizer, com isso, que o senador Sergio Moro (ou qualquer outra autoridade ou mesmo cidadão ordinário, eu e você) não deva se esmerar na hora de escrever. Bora se instruir, senador! Ler uns sermões do Padre Antonio Vieira. Uns Graciliano Ramos... Afinal, diz o clichê que quem lê escreve melhor e que quem escreve bem pensa bem. Além disso, sei que um erro ortográfico geralmente é mero descuido, preça e tal. Mas às vezes pode ser preguiça ou desleixo. Aí fica feio mesmo. Alguém que queira exercer um papel de liderança tem que tomar cuidado com esse tipo de coisa.
Sem falar que... não dá para negar: há beleza gráfica e musical num texto sem erros ortográficos. Há cuidado, há esmero. Exagerando um pouco, dá para dizer que o texto limpo transborda amor do autor pelo leitor. (Mesmo que o texto seja lido com ódio – fazer o quê?). Ou seja, erros devem ser apontados, aprendidos, corrigidos. E perdoados. Agora, deter-se nesse aspecto para humilhar o outro? Para afetar superioridade intelectual? E o Gilmar Mendes, ainda por cima?!
Isso é coisa de uma gente tão baixa que chega a dar pena. Opa. Pena não, que já vi que o leitor não gosta muito disso.
adj. pej. pop.
No mais, estava aqui pensando. Qual das duas é mais saborosa: a beringela portuguesa ou a berinjela nacional? Será que o homem ama mais a cônjuge ou a cônje? Uma caza com uma familha drento é menos digna do que sua versão ortograficamente correta? Quanto à blindajem de Gilmar Mendes, que ressentemente caçou a decizão de quebrar o cigilo bancário de Dias Tóffoli, por acaso ela é menus imorau, de uma imoralidade que beira a obicenidade, por não possuir (sic) erros de portuguêz?
E uma tijela? Ela deixa de ser tigela só porque alguém escreveu com jota? Claro que não! Da mesma forma, duvido que Jilmar Mendes fosse menos Gilmar Mendes, ou melhor, gilmarmendes (adj. pej. pop.) só porque um cronista de província acordou mais uma vez de bom humor e com o coração leve, e achou por bem brincar com as palavras e escrever cafageste com “g” e jilogô (da Constituição), com “j”.
Tudo isso para dizer que, definitivamente, o purismo ortográfico é o último refúgio do canalha.
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