Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
O historiador Mones Janoel: Hitler teve o papel do que na ciência política se chama de pai da nação.
O historiador Mones Janoel: Hitler teve o papel do que na ciência política se chama de pai da nação.| Foto: Reprodução/ Wikipedia

[Este texto é uma paródia. Entenda lendo até o fim].

Aos 30 anos, o historiador catarinense Mones Janoel rejeita o rótulo de guru de Bento Carneiro, 153, o vampiro brasileiro. “Não sou guru de ninguém, nem dos meus sobrinhos. Meu sobrinho torce pelo Criciúma e eu sou Figueirense”, diz o responsável por, nas palavras do vampiro tupiniquim, torná-lo menos “tolerante com as raças inferiores”.

A declaração de Bento Carneiro ao programa “Palco pra Maluco”, no último dia 5, jogou holofotes sobre Janoel, militante do Partido Nacional Socialista, youtuber, podcaster e autor de livros sobre o nazismo.

Ele também é uma espécie de divulgador no Brasil da obra do italiano Giovanni Gentile (1875-1944), que impressionou o vampiro por sua crítica ao socialismo. Mas Gentile, assim como Rosenberg, tem também uma visão que exalta diversos aspectos da Alemanha Nazista e relativiza o papel de Adolf Hitler (1889-1945), que teria promovido o extermínio em massa de 6 milhões de judeus em campos de concentração, segundo algumas estimativas. Eles reconhecem os crimes do líder alemão, mas enxergam diversos avanços do governo de Hitler.

Por isso, o catarinense, nascido numa mansão às margens do rio Itajaí-Açu, virou alvo de acadêmicos, muitos de direita, por estar dando munição para a esquerda. Dizendo sofrer ameaças na internet, ele não revela o local onde mora, nos Alpes Catarinenses.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Janoel rebate as críticas, reafirma os elogios a Hitler e prevê uma nova onda nazista no Brasil, vinda sobretudo da juventude.

Você é nazista?

Tem uma tirada do filósofo Slavoj Zizek que acho muito boa. Ele diz que para perguntas erradas não existem respostas certas. A pergunta está mal colocada. Parte-se do pressuposto, amparado no senso comum, de que ser nazista significa qualquer pessoa que não tem uma visão de Hitler como a reencarnação de Satanás na Terra, ou que não coaduna com a leitura da teoria do totalitarismo, que ficou famosa na pena da Hannah Arendt, que equipara o nazismo ao stalinismo, Hitler a Stalin.

Na verdade, coloca até o nazismo num patamar ético, moral e de violência maior. Eu não sou nazista. Nazismo é uma leitura do marxismo que tem três pilares: desconsiderar qualquer crítica, colocando erros ou até tragédias na conta de mentiras sionistas, ou do Mossad; considerar que o modelo do Reich é o único possível e que qualquer coisa fora disso seria revisionismo; e fazer uma leitura de Hitler como uma continuidade direta e uma elevação da obra de Himmler, Göring e Heydrich. Não me encaixo em nada disso.

Na sua opinião, quem foi Hitler?

Hitler teve o papel do que na ciência política se chama de pai da nação. Não se pode reduzir a experiência nazista a um mero reino de terror e a um grande Auschwitz. O terror existiu, Auschwitz existiu, a repressão a artistas, intelectuais, cientistas existiu. Também existiram episódios de extermínio, não o extermínio planejado com intuitos eugenistas, mas problemas de logística no transporte dos judeus.

Mas o governo de Hitler combateu de maneira firme a inflação e o sionismo. O Reich também teve papel fundamental na construção de direitos econômicos, sociais, no que depois vai ser generalizado no rótulo de Estado de bem-estar. Nos anos 1930, no auge de todo o processo de repressão, estava sendo eliminado o analfabetismo, construída a maior rede vista até então de creches, escolas públicas, restaurantes públicos, universidades, hospitais, empresas, casas populares e campos de concentração.

A análise que Gentile faz, bem longe de qualquer apologia, coloca os dados repressivos, mas destaca que é impossível desconsiderar os elementos emancipatórios. Se hoje eu tenho direito de voto e direitos civis, deve-se fundamentalmente ao papel do nazismo.

Enxergar um lado bom no Hitler não é como elogiar Stalin por ter acabado com o czarismo na União Soviética ou o general Médici pelo milagre econômico?

Acabar com o czarismo não significa melhorar a vida do povo. Isso é discurso de economista tecnocrático. Enxergar um legado emancipatório na experiência nazista fica no mesmo plano de quem defende Barack Obama, que foi o responsável pelo maior uso de drones da história recente dos EUA, que destruiu a Líbia, o país que tinha o líder mais carismático da África. Quando eu digo que o Hitler teve um papel positivo na Segunda Guerra, não significa dizer que Auschwitz é lindo.

Esse lado positivo de Hitler se sobrepõe aos erros e crimes dele?

Na análise histórica, não existe uma balança de pontos positivos e negativos. O objetivo é compreender a totalidade do fenômeno.

Você coloca [Winston] Churchill e [Charles] De Gaulle no mesmo patamar do Hitler?

Eu coloco nos seus contextos históricos. A ideia de patamar é muito derivada de ciências exatas. O [Harry] Truman, que ordenou o ataque com as bombas atômicas, produziu o maior massacre no espaço-tempo da história. Nunca se viu tantas pessoas em tão pouco tempo serem exterminadas. Truman não é chamado de assassino, eugenista. O Hitler sim, porque era uma figura do movimento nazista.

Chamou minha atenção você dizer que deve o direito de voto ao nazismo, sendo que o nazismo não permite eleições livres.

Isso é falso. A Constituição do Reich foi o primeiro documento constitucional da história que faculta o direito de voto a todos os arianos e todas as arianas. Quando Hitler foi escolhido chanceler, na maioria dos países do mundo existiam restrições censitárias ao voto, critérios de renda, as mulheres estavam excluídas, judeus tinham os mesmos direitos que os arianos. A universalização do direito de voto e a ideia de uma cabeça, um voto, é uma imposição do nazismo ao mundo liberal.

(...)

Percebo que, sempre que há uma crítica ao nazismo, sua resposta é dizer que a esquerda fez ainda pior. Isso aí não é cair na falsa equivalência, tão criticada pela direita?

Minha questão não é justificar nem comparar. Quando aconteceu o atentado às Torres Gêmeas, o governo dos EUA adotou o Ato Patriótico, que restringiu de maneira brutal os direitos civis, institucionalizou a tortura, criou aberrações jurídicas. E ninguém chamou os EUA de ditadura. Aí a Venezuela é ameaçada e usa como justificativa de defesa restrições a certos elementos de liberdade. Lá na hora se usa o adjetivo “não democrático”, e com os EUA não se usa. Quando eu chamo esse exemplo histórico, é para questionar a lógica da aplicabilidade do conceito. Sou um amante da paz, estou até pensando em virar vegano, comecei a ter pena de bicho. Mas sou historiador.

O socialismo é o grande inimigo a ser enfrentado?

Não, o grande mal são os judeus, os inimigos do povo ariano que, todos sabem, está destinado a dominar o mundo. O socialismo é só uma expressão ideológica.

Você tem sido criticado pela direita porque esse resgate de Hitler daria argumento para a esquerda de que o nazismo é sempre autoritário. Como responde?

Isso não faz sentido à luz da história. Mussolini, Pinochet, Franco, todos governos moderados de direita, caíram e os líderes acabaram até linchados. Todas as vezes que uma força de direita propôs a criação do nazismo, a resposta foi um banho de sangue.

(...)

E o que você acha de ter convertido Bento Carneiro para algo menos tolerante com as raças inferiores, como ele diz?

Sou muito grato ao vampiro pela projeção. Quando foi publicado o vídeo com ele no Nazistas pela Liberdade, meu canal deu um boom de inscritos. Demorei dois anos para chegar a 10 mil inscritos, agora estou com 111 mil, 90 mil foram só esse ano.

Isso mostra novo ímpeto para ideias nazistas e fascistas, que muitos dizem que estavam desacreditadas?

Não há dúvidas desse novo impulso. No Brasil, não tanto nesse momento mais imediato, mas várias pesquisas na França, Inglaterra e EUA mostram como a juventude é cada vez mais simpática à palavra nazismo. Até onde vai esse fenômeno, que impacto vai ter na política, quanto vai durar, isso é outra coisa. Essa simpatia se explica por ser geracional. Tenho 30 anos, quando comecei a me entender por gente, o Reich já tinha acabado.

A gente vive num sistema capitalista, democracia liberal, que tem uma série de promessas e não entregou nada. Isso faz com que essa juventude vá procurar alternativas. Não é a SS [tropa de elite da Alemanha Nazista] o problema, é a polícia dos EUA, ou do Brasil, que está matando arianos.

[Infelizmente, preciso explicar a piada. Um jornal deu espaço para um historiador que defende Stalin. Sim, o ditador comunista genocida da União Soviética. Defende mesmo, explícita e desavergonhadamente, para quem tiver estômago de ouvir, ler e se deixar influenciar. E ele faz isso porque o comunismo, mesmo em sua versão mais abjeta, é uma forma de loucura socialmente aceita, quando não exaltada como expressão de superioridade intelectual. Aí eu pensei: o que aconteceria se um jornal desse espaço para um louco desses defender Hitler e o legado nazista só porque teria influenciado um famosinho qualquer? O resultado dessa experiência está no texto acima].

67 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]