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Homilia

O padre não está defendendo nenhum candidato

PADRE CANDIDATO
Os poderes humanos passam e mudam; Deus continua sendo Senhor. (Foto: ChatGPT)

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O texto abaixo é a reprodução da homilia que o Pe. Alex Cordeiro proferiu no dia 18 de outubro de 2026, 29º domingo do Tempo Comum, na Paróquia Santo Agostinho e Santa Mônica, em Curitiba.

A delicadeza de falar em tempo eleitoral

É delicado falar deste Evangelho uma semana antes das eleições. Por isso decidi ler e tornar pública a homilia, para evitar mal-entendidos.

Confesso que me senti tentado até a não fazer homilia. Vivemos um tempo de tanta polarização que, às vezes, parece que qualquer palavra pode ser interpretada como apoio a um lado ou ataque ao outro. Se falamos de determinada questão, podemos agradar a uns e desagradar a outros; se falamos de algo que o Evangelho nos pede, também podemos ser acusados de favorecer este ou aquele campo. E acabamos nos sentindo, como diz o ditado, num mato sem cachorro. Por isso, para evitar dissabores, quero que todos gravem na memória e repitam comigo: “O padre não está defendendo nenhum candidato”.

Talvez, porém, essa dificuldade e risco de confusões nos ajude a perceber a importância do tema da Palavra de Deus hoje: o poder de Deus e os poderes humanos são realidades distintas, e não estão no mesmo nível. Deus é Senhor de todas as coisas. Seu Reino não depende de quem governa, nem de um modelo político ou econômico específico. Deus não precisa que a política esteja nas mãos de um grupo para continuar agindo na história. Essa é a nossa fé.

Deus conduz a história

A primeira leitura nos ajuda a reconhecer isso. Isaías interpreta a vitória de Ciro, rei da Pérsia, sobre a Babilônia como instrumento da ação de Deus. Ciro não era israelita, não adorava o Deus de Israel e, como diz a leitura, não o reconhecia. Mesmo assim, foi por meio dele que os exilados puderam voltar para sua terra e reconstruir o templo de Jerusalém. Um rei pagão colaborou, ainda que sem o saber, para que o plano de Deus continuasse.

Isso nos dá uma segurança importante: Deus permanece Senhor, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis ou quando aqueles que governam não compartilham nossa fé. Ele pode agir por caminhos que não esperamos. Não precisa que os poderes deste mundo se ajoelhem diante dele para continuar conduzindo a história.

A César o que é de César; a Deus o que é de Deus

No Evangelho, tentam colocar Jesus numa armadilha. A pergunta sobre o imposto a César tinha consequências perigosas. Se Jesus dissesse que era lícito pagar o imposto, poderiam acusá-lo de trair o povo judeu, que desejava liberdade diante do Império Romano e não queria sustentar o luxo de Roma. Se dissesse que não era lícito, poderiam entregá-lo aos romanos como rebelde. Jesus não foge da questão, mas muda o foco: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

A moeda trazia a imagem de César. Mas a vida humana traz a imagem de Deus. Jesus não coloca Deus e César em pé de igualdade, como se cada um tivesse uma parte equivalente do mundo. A autoridade humana tem seu lugar e suas responsabilidades, mas não é absoluta. A Deus pertence tudo: nossa vida, nossa consciência, nossa esperança e a responsabilidade de buscar o bem comum.

O Evangelho ultrapassa os modelos políticos

Isso também ajuda a compreender que o Evangelho não cabe por inteiro em nenhum sistema político. Nenhum projeto humano consegue expressar perfeitamente a mensagem de Cristo. São João Paulo II escreveu na encíclica Centesimus Annus:

“A Igreja não tem modelos a propor. Os modelos reais e eficazes poderão nascer apenas no quadro das diversas situações históricas, graças ao esforço dos responsáveis que enfrentam os problemas concretos em todos os seus aspectos sociais, económicos, políticos e culturais que se entrelaçam mutuamente. A esse empenhamento, a Igreja oferece, como orientação ideal indispensável, a própria doutrina social que — como se disse — reconhece o valor positivo do mercado e da empresa, mas indica ao mesmo tempo a necessidade de que estes sejam orientados para o bem comum (...). A Igreja também não fecha os olhos diante do perigo do fanatismo, ou fundamentalismo, daqueles que, em nome de uma ideologia que se pretende científica ou religiosa, defendem poder impor aos outros homens a sua concepção da verdade e do bem. Não é deste tipo a verdade cristã. Não sendo ideológica, a fé cristã não presume encarcerar num esquema rígido a variável realidade sócio-política e reconhece que a vida do homem se realiza na história, em condições diversas e não perfeitas.” (São João Paulo II, Centesimus Annus, nn. 43 e 46).

A Igreja não oferece um modelo político pronto, mas oferece princípios para iluminar a vida social e o discernimento de quem tem responsabilidades públicas. Isso quer dizer que nenhum espectro político pode ser apresentado como plenamente identificado com o Evangelho. O Evangelho ilumina todos os projetos, mas também os ultrapassa e os julga: mostra o que cada proposta promove de bom, aponta o que precisa ser corrigido e denuncia aquilo que fere a dignidade humana.

Discernir os valores sem reduzir a fé a um partido

No discernimento eleitoral, há valores que a Igreja defende e que precisam ser levados a sério: a defesa da família, a dignidade da vida humana desde a concepção, a liberdade econômica exercida com responsabilidade, os direitos humanos, a opção preferencial pelos pobres e a justiça social. Não são bandeiras que pertençam exclusivamente a um grupo ou a uma corrente. Todas fazem parte da preocupação da Igreja com a pessoa humana e com o bem comum. Por isso, é difícil — e não cabe à Igreja — declarar que determinado campo político, por inteiro, é o fiel representante do Evangelho.

Isso não significa que todas as propostas sejam iguais ou que não devamos escolher. Significa que precisamos discernir com seriedade, sem reduzir a fé a um rótulo partidário e sem decidir apenas por medo ou por pressão. Podemos examinar as propostas e os compromissos concretos, perguntando o que protege a vida e a dignidade das pessoas, o que promove a justiça, o que cuida dos mais pobres, o que fortalece a família e o que contribui para o bem comum. Cada um deve fazer sua escolha diante da própria consciência, iluminada pelos valores do Evangelho.

Respeitar quem pensa diferente

Também não devemos deixar que a divergência política se transforme em briga ou em motivo para romper relações. Podemos pensar de modo diferente e continuar nos tratando como irmãos. Não vale humilhar, ofender ou desprezar alguém por causa de sua escolha política; muito menos alimentar conflitos dentro da família, entre amigos ou na comunidade. A política diz respeito à vida comum e merece ser debatida, mas nenhuma disputa eleitoral deve nos fazer esquecer a caridade, o respeito e a dignidade de quem pensa diferente. Quando o debate se torna agressão, deixamos de testemunhar a paz de Cristo.

Fé, caridade e esperança

São Paulo, na segunda leitura, recorda a comunidade de Tessalônica pela atuação da fé, pelo esforço da caridade e pela firmeza da esperança em Jesus Cristo. É esse o testemunho que permanece, qualquer que seja o governo ou a situação política: viver a fé, trabalhar pela caridade e conservar a esperança. Os primeiros cristãos atravessaram perseguições e mudanças de poder sem fazer da conquista do trono de César a condição para viver o Evangelho. Com perseverança e martírio, testemunharam Cristo, e sua fé transformou profundamente o mundo em que viviam.

Peçamos, então, que Deus nos conceda serenidade para atravessar este tempo, liberdade para discernir e caridade para respeitar quem faz escolhas diferentes das nossas. Os poderes humanos passam e mudam; Deus continua sendo Senhor. A Ele pertencem a glória, a vida e a nossa esperança. Como cantamos no salmo: “Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!”

* Pe. Alexsander Cordeiro Lopes é pároco na Paróquia Santo Agostinho e Santa Mônica, em Curitiba.

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