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No final das contas (e depois de ouvir a música umas dez vezes), chego à conclusão de que o mundo perfeito descrito por Lennon é uma negação da própria vida
No final das contas (e depois de ouvir a música umas dez vezes), chego à conclusão de que o mundo perfeito descrito por Lennon é uma negação da própria vida| Foto: Bigstock

Incumbido da tarefa de escrever sobre “Imagine”, a música de John Lennon onipresente em Olimpíadas, festas de formatura, elevadores e comícios, não tive alternativa senão apelar para a memória e voltar para o tempo em que acordava cedo para ir à escola. Ligava a velha de TV de tubo e, pontualmente às 6 horas da manhã, ouvia a voz estridente de Yoko Ono declamando: “Imagine. Aaaaaaaaaall the people”. Daí, pelo que (mal) lembro, começava O Telecurso Segundo Grau. Que eu, um estudante do primário, assistia com fascinação. Quer dizer que um dia eu aprenderei isso?

Era assim que a televisão local dava início às suas transmissões. Estou falando na década de 1980 e de um moleque imberbe, cabeludo e orelhudo, vivendo num mundo bem mais simples, que não atinava para o conteúdo pornograficamente socialista da música. O imperativo “imagine!”, naquele tempo, tinha conotações muito mais ingênuas. Diria até que lúdicas, mas não vou dizer porque odeio essa palavra.

Não que a música não tenha sido composta com segundas, terceiras e quartas intenções. John Lennon, proletário que se tornou multimilionário graças à cultura de massa fomentada pelo capitalismo que condenava, confessou que compôs “Imagine” tendo por base poemas de Yoko Ono, nipo-americana de origem aristocrata, mas socialista até a medula - porque era isso o que se esperava de uma riquinha com aspirações artísticas.

Mas, voltando à minha infância na década de 1980, ninguém se importava com as intenções ocultas da composição que, por sinal, poucos no Brasil compreendiam. Até por sua simplicidade quase troglodita, “Imagine” era bastante usada nos cursos de inglês. E é difícil ficar aspirando a utopias quando se está tentando decorar o verbo to be.

Eu mesmo só fui prestar atenção à letra de “Imagine” muitos anos mais tarde, na faculdade. Até então, para mim a canção nem de protesto era. Por algum motivo insondável, sempre associei os acordes iniciais de “Imagine” a um clima de, digamos, “romance esclarecido”. Imagine dois adolescentes se encontrando num dos corredores da Biblioteca Pública, ambos procurando um mesmo livro: “Afinidades Eletivas”, de Goethe. Era a isso que eu associava à música.

Momento do Grande Esclarecimento

Como se deu o Momento do Grande Esclarecimento eu não sei. Não tenho a menor ideia. Só sei que, de uma hora para a outra, o cursinho do Fisk se fez útil e, quando dei por mim, estava ligando lé com cré, pesadelando um mundo sem fronteiras e religiões, e captando a mensagem de uma música que, repito, para mim tinha conotações românticas.

O que vejo, ou melhor, ouço em “Imagine” hoje em dia é aquilo que todos ouvem: a exaltação de um mundo que atingiu o mais alto grau de "perfeição social". Um mundo ateu – porque para comunista Deus é um empecilho e tanto. Um mundo sem Céu ou inferno, ou seja, sem transcendência ou moral. Um mundo sem propriedades, ambição e fome – o que mostra que Lennon, além de ser um ótimo compositor chato, não entendia a vida para além do seu umbigo.

A música termina como uma exaltação à Humanidade (“And the world will live as one”), esse recurso retórico canhestro, usado para eliminar das equações supostamente exatas do comunismo uma variável fundamental: o homem. Em nenhum momento da música, a dupla Lennon & Yoko estabelece uma ligação fundamental entre os indivíduos. Tudo é mencionado em termos coletivos, com a devida distância fria e teórica que caracteriza as relações entre Estado e cidadãos.

No final das contas (e depois de ouvir a música umas dez vezes para escrever este texto), chego à conclusão de que o mundo perfeito descrito por Lennon é uma negação da própria vida. Imagine que mundo chato seria esse sem outra razão para viver que não manter a “perfeição”. Um mundo monótono, onde todas as manhãs são iguais e todos têm certeza da mais absoluta finitude. Imagine que triste um mundo sem desafios ou dificuldades a serem superadas.

Por sorte, o destino de “Imagine” é o mesmo de tantas canções semelhantes. Até mesmo das mais agressivas – outro dia mesmo estava num restaurante e a música ambiente era “Anarchy in the UK”, dos Sex Pistols. “Imagine”, portanto, se transformou numa espécie de “Garota de Ipanema” do DCE, evidentemente sem a melancolia jocosa do homem preocupado apenas em admirar uma bela mulher que o ignora.

Ela virou “ruído branco” nos elevadores e salas de espera da vida. Cinquenta anos depois de nascer pretendendo mudar o mundo, por sorte ela é hoje aquela música cujos acordes você reconhece imediatamente e até cantarola na cabeça, sem jamais permitir que o sonho perverso de um objetivo que só pode ser conquistado à força o seduza.

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