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Acontece com frequência. Entro no Uber, começo a bater papo e o motorista me pergunta: “Trabalha com o quê?” Tenho vontade de responder que trabalho com letras, palavras e voz, mas me contenho. Agora é minha vez de perguntar a ele: “Se eu responder, você não vai me dar nota baixa, vai?” Só então, confiante de que não serei punido, é que respondo que sou jornalista.
Uns riem. Outros tentam contemporizar e dizem para eu não me preocupar, que advogado é mais odiado do que jornalista. (Não é mais). E há os que reforçam a autocrítica presente na minha hesitação em me confessar jornalista. Esses explicam que a imprensa é safada e vendida, que buscam isenção e não acham, que se sentem manipulados, que jornalista é tudo comunista ou petista. “Mas eu não sou!”, me defendo, afetando indignação. Silêncio. Ressabiadíssimo, o motorista me fita pelo retrovisor.
Fizemos por onde
Não tiro totalmente a razão de quem nutre certa ojeriza pela profissão que escolhi um tanto no impulso e outro tanto na ignorância, há mais de 30 anos. E que exerço o mais honestamente possível, apesar de ser ridículo ter de falar isso assim, explicitamente. Compreendo, pois, quem odeie jornalistas. Quem desconfie. Enquanto catiguria, e praticando aqui o delicioso esporte da generalização, ouso dizer que fizemos por onde. Em troca de vantagens e oportunidades de sobrevivência num mercado em crise, menosprezamos a credibilidade e cedemos à pressa, quando não à torcida e à tentação de validar certa visão de mundo. Foi mal, aê.
E agora vai ser uma luta danada para recuperar a confiança de um leitor/ouvinte/espectador acostumado a se informar pelas redes sociais e a refletir por meio de memes, e que vê tudo o que vem da imprensa na defensiva. Um público relutante, e com razão!, em refazer o acordo mais-que-necessário para a manutenção desta nossa relação frágil: o de partir do pressuposto de que o que o jornalista diz é verdade. De que ele age movido pela boa-fé. Ao mesmo tempo, jornalistas têm que parar de ver o público como adversário. Por mais pedradas que receba e inevitavelmente as receberá. Vai ser difícil.








