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As memórias póstumas de Luiz Inácio Lula da Silva

MEMÓRIAS PÓSTUMAS LULA
Imagine se Lula escrevesse suas memórias e, assim, fosse capaz de se confrontar consigo mesmo. (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

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Meu amigo Diogo é um empolgado por memórias. Ele vive dizendo que, se todas as pessoas escrevessem suas memórias, a Humanidade melhoria uns 300%. Ou coisa assim. Tem razão, o Diogo. Porque as memórias, memórias sinceras, obrigam o memorialista a um exame de consciência público e sua consequente humilhação. E obrigam o leitor a suspender o julgamento sobre os atos alheios. É um negócio bem confuso e doido.

Imagine se o Lula, por exemplo, escrevesse as memórias dele. As que restam depois de tantos pileques, digo. E se expusesse quase como que virado do avesso. Vulnerabilidade total mesmo. Ah, que contribuição maravilhosa estaria ele dando tanto a quem o trata como semideus quanto a quem o tem por vilão absoluto. O problema, no caso de Lula e de todos os que conquistaram o mundo, por assim dizer, é que a escrita dessas memórias exigiria uma honestidade brutal consigo mesmo e com o leitor. E a honestidade é hoje o mais escasso de todos os bens escassos. E, por isso mesmo, o mais valioso.

Enojado de mim mesmo

Mas tergiverso e, se tergiverso, é porque comecei a escrever minhas memórias e já no primeiro capítulo esbarrei com essa dificuldade de encarar de frente erros que não podem ser corrigidos, pedidos de perdão que não podem ser atendidos, consequências que não podem ser ignoradas, impressões que não podem ser apagadas, ah, tantas coisas ruins, mesmo as feitas com as melhores intenções e nem todas foram assim. E isso na minha vida de escritor de província. Imagine na de um líder político como Lula! Na de uma celebridade que faz tudo o que faz para ter sucesso. Ou melhor, nem precisa tanto. Imagine na sua vida pequena e anônima aí.

Eu leria as memórias do Lula. Mas as memórias têm que ser póstumas. Como uma última confissão. Até porque memórias com pudor não são memórias. Estão mais é pra exaltação dos próprios feitos. São memórias corrompidas pela noção de autoimportância. Eu leria as memórias do Bolsonaro. Da Janja, com certeza. As do Zé Dirceu devem ser massa. Do meu amigo Diogo. Do porteiro aqui do prédio. Só não leria mesmo as minhas próprias memórias. Enojado que estaria de mim mesmo.

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