
Ouça este conteúdo
Reza a lenda que Alexandre, o Grande, vinha todo-todo pela estrada quando se deparou com um homem maltrapilho deitado à margem do caminho. Era Diógenes, o Cínico. Aquele que andava para cima e para baixo com uma lanterna, à procura de uma pessoa honesta, autêntica e virtuosa. Mas o conquistador petulante não sabia e por isso o confundiu com um mendigo qualquer. “Sou Alexandre, o Grande”, teria dito ele, num ataque de modéstia. “E posso te conceder o que você pedir”, ofereceu, bancando o magnânimo. Ao que Diógenes teria respondido daquele jeitão cínico lá dele: “Então sai da frente do meu sol, γαμώ!”.
Como diria minha finada avó Olívia, “se non è vero, è ben trovato”. E foi bem assim que eu (que não sou cínico e até odeio um pouquinho o cinismo), me senti na terça-feira (15), ao acompanhar de soslaio a sessão do STF que decidiu... Decidiu o que mesmo? Me senti como Diógenes, ainda que mais gordo, bonito e bem-vestido, dizendo aos poderosos ministros daquela espelunca para eles saírem da frente do meu sol. Do delicioso sol que me aquecia e secava depois de umas duas semanas de chuva e friozinho. Sai da frente do meu sol, Alexandre de Moraes! Sai da frente, Gilmar. E, por motivos óbvios, principalmente você, Flávio Dino. Sai daí!
A luta continua
E aqui vou destoar um bocado do tom da coluna para ser explícito em meu intento: não deixe que esses sujeitos fiquem na frente do seu sol. Escrevo isso porque vejo muita gente apelando ao discurso fatalista de que o Brasil não tem jeito, tudo acabou, ó céus, ó vida – como diria a saudosa hiena do desenho animado. Outros dizem que o Brasil é um país desgraçado e amaldiçoado. Não é. O problema é que o bem sussurra, enquanto o mal esbraveja. Deus é uma brisa, não um furacão. Além disso, se deixar afetar pelo que acontece no STF é uma escolha consciente. Você está usando a sua razão, vontade e livre-arbítrio para sofrer. Faz sentido?
E não, leitor. Não estou, com isso, defendendo que ignoremos os problemas sérios e urgentes deste país. A luta continua, como diziam os esquerdistas antes de virarem uns puxa-sacos de juizeco pequeno-burguês. Nesta humilde crônica de constrangedor tom panfletário apenas o exorto (gente, nunca exortei antes; não acredito que tô exortando; mãe, vem cá, olha só como eu exorto!) a agir com a mesma virtude que você espera de seus heróis. Tenha paciência. Seja sábio. Aqui e ali, pare para apreciar a vista. E, quando algum grande homem pequeno chegar se oferecendo para atender seus desejos, recuse o pacto. Do contrário, você pode até dominar impérios, mas jamais será capaz de sentir a paz do sol de inverno a lhe aquecer a alma.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



