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Essa é uma daquelas peças que a vida nos prega: nunca imaginei que um dia escreveria um texto sobre absorventes.
Essa é uma daquelas peças que a vida nos prega: nunca imaginei que um dia escreveria um texto sobre absorventes.| Foto: Bigstock

O absorvente higiênico feminino está na moda. Tudo porque uma deputada ingenuamente acreditou numa pesquisa que dizia que 25% das meninas faltam às aulas por não terem dinheiro para comprar o produto. A deputada, ela própria uma consequência da política-de-slogans que faz a cabeça dos jovenzinhos, passou a ser uma ativista de uma causa improvavelmente batizada de “pobreza menstrual”.

O assunto tomou conta das redes sociais. E o presidente Jair Bolsonaro, antes vilão por causa de um sem-número de declarações infelizes (outro dia mesmo ele disse “bom dia”. Veja só que absurdo!), agora também é vilão por vetar uma lei proposta pela deputada (que, curiosamente, não é filiada ao PCdOB) que previa a distribuição de absorventes a meninas pobres, para que elas não faltassem às aulas.

(Aliás, me permita abrir um parêntese aqui para contar que outro dia vi uma matéria daquelas bem sentimentais, mas bem sentimentais mesmo, com pianinho deprimente e tudo, e que mostrava a miséria em algum rincão do país. Por insondáveis motivos, o jornalista decidiu incluir o termo “pobreza menstrual” na matéria. De tão absurdo, o termo chamou minha atenção. Ergui os olhos para a TV e encontrei na tela a figura de uma moça muito pobre, numa favela. Com os braços cheios de tatuagem e o indefectível celular na mão, ela reclamava da falta de comida e absorventes).

Nessa balbúrdia toda envolvendo absorventes, o antibolsonarismo psicótico deu as caras, provando ser um vírus social que não poupa nem mesmo os mais liberais. Pois não é que teve libertário defendendo a distribuição de absorventes – e ainda por cima dizendo que essa distribuição é gratuita? Na hora de ir contra o presidente, os liberais de ocasião passam por cima de Mises sem a menor vergonha. Afinal, se julgam livres também para isso.

Absorventes e líquido azul

O resultado é que agora todo mundo tem uma opinião sobre menstruação. Até eu, que nunca tive opinião sobre o assunto e sempre me resignei a passar o pacote de absorventes alheio pelo caixa do supermercado com aquele constrangimento típico dos homens nessa situação. De repente, não menos do que de repente, me vi aqui pensando até no vocábulo que, não sabem os novinhos e novinhas, é bem recente.

“Absorvente”, para mim, sempre foi sinônimo de Modess. Ou melhor, modess – a letra minúscula indicando a transição da marca ao vernáculo popular, como acontece com a gilete. Modess era palavra dita entre sussurros, pelas mulheres, e entre o riso e a ignorância constrangida, pelos homens. Era aquela coisa que eu, criança, sabia que existia, mas não tinha a menor ideia de para que servia. Até uma fatídica aula de ciências na escola, quando tudo então ficou mais ou menos esclarecido.

Aliás, a própria palavra “menstruação” é algo que escrevo constrangido. E não porque me falte lugar de fala. Não estou nem aí para lugar de fala. Não acredito em lugar de fala. Enquanto eu tiver coordenação motora para escrever e o São STF permitir, pretendo poder escrever sobre tudo. Nem que seja para falar bobagem. E, se for bobagem, ao menos que desperte o riso em alguém. Mas eu falava sobre o constrangimento de escrever a palavra “menstruação”. O que mesmo eu pretendia falar sobre isso?

Sei lá. Só sei que outro dia mesmo estava me lembrando de uma das poucas aulas que tive na faculdade de Comunicação. Se não me falha a memória falha, era uma aula de Teoria da Comunicação e o professor falava sobre as propagandas de absorventes, digo, modess, que naquela época usavam sempre um líquido azul para demonstrar o poder de absorção do equipamento. “Eles jamais usariam um líquido vermelho, porque as pessoas teriam nojo disso”, disse o professor. Que pode muito bem ter sido uma professora. Realmente não lembro. Qual não foi minha surpresa, então, ao descobrir que em 2017 uma empresa britânica mandou às favas os escrúpulos menstruais e passou a veicular um comercial que usava sangue?!

Deixando as questões cromáticas de lado, resta-nos rir do comunismo ginecológico de Tabata Amaral. Rir do fato de ele se basear em estatísticas suspeitas. Rir da premissa falsa de que o Estado deve prover tudo, inclusive artigos de higiene pessoal. Rir da ideia de que o Estado é capaz de fazer isso de uma forma minimamente eficiente. Rir até da “generosidade” da indústria, sempre disposta a colaborar com causas sociais, desde que elas envolvam dinheiro público. E, por fim, rir da sinalização da virtude dos oportunistas de sempre – os mesmos que correrão para dizer que não tenho lugar de fala para escrever sobre o assunto.

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