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Ao menos por um dia vale a pena ignorar o que há de errado com o mundo para se ater ao que há de certo, de bom, de verdadeiro, de divino.
Ao menos por um dia vale a pena ignorar o que há de errado com o mundo para se ater ao que há de certo, de bom, de verdadeiro, de divino.| Foto: Reprodução/ Wikipedia

Eu vinha de ao menos uma década de leituras políticas, econômicas, religiosas, filosóficas e psicológicas que insistiam em me mostrar os problemas do mundo. Em tempos apocalípticos, esse é um filão editorial que prospera. Por algum motivo, cada autor parece hoje assumir para si a responsabilidade de apontar o dedo para algo que está errado.

Para mim, o caldo começou a entornar quando li “Cachorros de Palha”, de John Gray. Não me entenda mal; pelo pouco que lembro, o livro é ótimo. Bem escrito e tal. Mas algo ali me incomodou. E não ajudou nada o fato de, em seguida, eu tentar “dar uma espairecida” lendo “O Que Há de Errado com o Mundo”, de Chesterton.

Só sei que um dia cansei de me ater apenas às discordâncias. Àquilo que incomoda. Ao que se vê como errado e que é produto às vezes do descuido, às vezes da má-intenção. Essas coisas tortas todas estão por aí, em palavras, ações e objetos. Mas por que tendemos a olhar para o que está errado? Por que não dar uma espiadela, nem que seja de vez em quando, em tudo o que há de certo no mundo?

Aí me lembrei de que hoje os norte-americanos celebram o Dia de Ação de Graças. De todas as coisas boas que insistimos em não importar dos Estados Unidos, essa é a que mais me intriga. Afinal, ainda ontem havia bruxinhos e vampirinhos batendo à minha porta em busca de doces. Nada contra o Halloween. Eu mesmo me diverti horrores (com trocadilho) esculpindo uma abóbora. Mas por que não importarmos esse gesto absolutamente admirável de reunir a família uma vez ao ano só para agradecer?

Os ranzinzas dirão que não há nada a agradecer. Que o mundo é horrível. Olha a PEC dos Precatórios, Paulo! Tem gente passando fome! Não viu o professor que estava incentivando crianças a se beijarem? Dá uma voltinha por aí: tem morte, estupro, violência doméstica, racismo. Os uigures estão sendo perseguidos, cara! Isso sem falar no mais recente lançamento lacrador da Netflix.

É, eu sei. Ah, se sei! O mundo tem coisas erradas à beça. Mas, se você parar para pensar (e ver) um pouquinho, não precisa nem ser por um dia inteiro, perceberá que o mundo tem mais coisas certas do que erradas. Estou tão seguro disso que planejo escrever um livro a respeito. E a própria facilidade com que se pode escrever, publicar e distribuir um livro hoje em dia é prova de que vivemos num mundo e numa época que podem não ser perfeitos (não são), mas que são maravilhosos – se você souber contemplar.

Ah, mas e a decadência da Civilização Ocidental? – me perguntará alguém. E o progressismo? E a epidemia de disforia de gênero? E a politização de tudo? E a derrubada de estátuas? E a volta do Lula? E o ataque aos valores judaico-cristãos?

Calma. Como disse, se você olhar em volta vai perceber um monte de coisas ruins. Um monte de problemas e, para cada um deles, um livro e um artigo indignado apontando o que há de errado com o mundo. Mas, se mudar a chavezinha, vai perceber também um monte de coisas boas. Na minha rua, por exemplo, há uma instituição católica que oferece alimentos aos mendigos. Diariamente me pego pensando no sofrimento e nas escolhas de vida daquelas pessoas. Por que não penso na abnegação, generosidade e paciência das freiras que diariamente lidam com homens sujos, drogados e bêbados?

Há, de fato, muito ruído, muita malandragem, muito maquiavelismo por aí. Muita... maldade! Mas para cada história de malfeito há também uma ou mais histórias que vão no sentido contrário. Para cada xingamento que se vê nas redes sociais, por exemplo, mas várias outras pessoas que, mesmo discordando, preferiram o silêncio respeitoso. Para cada decisão estúpida do Judiciário há milhares de decisões moral e juridicamente corretas. Para cada filme/série/livro cheio de proselitismo há um sem-número de filmes/séries/livros disponíveis ao toque de meia dúzia de botões. E por aí vai.

Panglossiano demais, este texto? Talvez. Mas não vejo problema algum em bancar o Pangloss ao menos um dia por ano. Olhe à sua volta. Você provavelmente mora numa casa com água encanada, dorme numa cama macia, tem a geladeira farta (apesar do preço da carne) e tanta tecnologia à sua disposição que até falta tempo para usar todos os aparelhinhos. Você tem amigos e, se calhar, tem milhares de conhecidos com os quais pode trocar ideias instantaneamente.

Sem falar no principal motivo para se agradecer não só hoje, mas todos os dias. Aquele motivo que hesito em mencionar para não cair na pieguice, mas, ops, calma que acabei de tropeçar aqui numa poça de melancolia viscosa e, quando dei por mim, já estava com a cabeça afundada no sentimentalismo. E agora não tem volta.

Estou falando da sua vida. Do simples fato de seu coração estar batendo, de seus pulmões estarem se inflando, de suas mitocondriazinhas estarem em polvorosa, liberando energia que será devidamente transformada nas divinas sinapses que permitem que você decodifique os sinais na tela do computador e, quase por milagre, compreenda essa mensagem.

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