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Admiro sobretudo a inteligência discreta e serena daqueles que têm certeza, mas não muita, da própria inteligência.
Admiro sobretudo a inteligência discreta e serena daqueles que têm certeza, mas não muita, da própria inteligência.| Foto:

Não sei direito como acontece. Só sei que, em algum momento da vida, decidimos admirar certo tipo de inteligência em detrimento de outros. E, sem que percebamos, toda a nossa vida passa a ser consequência dessa escolha sobre a qual não temos controle. Vocês, por favor, me desculpem, mas vou abusar do direito à primeira pessoa do singular aqui e me usar como exemplo.

Há muito, muito tempo, e sob influências absolutamente inexplicáveis, comecei a admirar a inteligência que se expressa por meio da linguagem. Gostava de estar entre adultos e de ouvir conversas que não entendia. E de ver as pessoas fazendo comentários aparentemente certeiros, do tipo que desperta o riso ou a raiva no interlocutor. Assim que ganhei um pouco de coragem e vocabulário, instintivamente comecei a repetir esse padrão. Se recebia um elogio por minha suposta (e improvável) perspicácia, ah, era a glória.

Essa admiração por um tipo específico de inteligência foi se sofisticando. E, sempre dentro de um limite que não tenho inteligência para explicar, também foi mudando. Houve épocas em que admirei quem sabia rimar. Noutras, admirei o uso de palavras difíceis. Se bem me lembro, houve um tempo em que admirei narrativas de desespero. E passei alguns bons anos admirando o veneno que escorria das presas dos que dominavam a diabólica arte do sarcasmo.

Por outro lado, nunca desejei ostentar outros tipos de inteligência. Inteligências que ainda hoje me são estranhas, quando não incômodas. Pessoas analíticas demais, por exemplo, não me atraem. Elas me contam como chegaram à solução x para o problema y ou z e eu só consigo pensar na obviedade tediosa da aritmética. A inteligência da organização é outra que me escapa. Assim como a inteligência do poder – que graça tem se sentar numa cadeira que lhe dá o direito de apertar um botão e destruir o mundo?

Quero dizer, sei que essas inteligências todas existem e são necessárias e em muitos casos admiráveis. Mas, para mim, o jogo do poder ou a capacidade de resolver equações complexas ou ainda de organizar uma operação logística intercontinental são talentos inalcançáveis e inambicionáveis (gostou? acabei de inventar). Quem sabe na outra vida – aquela em que não acredito.

Hoje em dia...

Nos últimos tempos, o tipo de inteligência que admiro vem passando por uma mudança significativa. Ela continua quase restrita ao uso hábil da linguagem, mas, por algum motivo, talvez por causa dos meus cabelos brancos ou do cansaço natural de um idoso precoce, ultimamente tenho sido mais exigente com a inteligência que admiro. Não adianta nada ser inteligente e amoral, por exemplo. Não adianta nada ser inteligente e perverso. Não adianta nada ser inteligente para assim se mostrar aos outros.

Aliás, não adianta nada ser inteligente e abstrato demais. Por isso urge rechear este texto com alguns exemplos. Na literatura, para que você tenha uma ideia, já admirei a inteligência perversa de um Michel Houellebecq. No cinema, admirei a crítica ferina e o humor esclarecido de um Woody Allen. No humor, admirei a agressividade de um George Carlin. No jornalismo, admirei o espírito combativo e antagônico de uns tantos nomes. Nas conversas cotidianas, admirei interlocutores capazes dos comentários mais cáusticos, sem ligar muito para a perfídia. Hoje em dia...

Hoje em dia a única inteligência realmente admirável para mim é aquela que me chega com um propósito transcendente muito claro. Na literatura, admiro a inteligência de escritores que foram burros a ponto de almejarem a imortalidade. No cinema, admiro a inteligência de roteiristas e diretores que fazem filmes simplesinhos, mas “com os sentimentos nos lugares certos”. No humor, admiro a banalidade extraordinária de um Demitri Martin. No jornalismo, admiro a ambição patética de permanência. E nas conversas cotidianas admiro a presença sutil da caridade – da preocupação genuína com o outro.

Admiro sobretudo a inteligência discreta e serena daqueles que têm certeza, mas não muita, da própria inteligência. E que não precisam esfregá-la na cara dos demais só para, num futuro hipotético, dizer “eu tinha razão”. Me refiro a uma inteligência sem certificado do MEC e sem a pretensão de mudar o mundo. Uma inteligência esquisita, inconstante, talvez até incoerente, mas guiada por uma honestidade obsessiva. A inteligência, enfim, que se percebe limitada e finita, e que é corajosa justamente por se saber falha e perecível.

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