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Na nem tão longínqua terra de Asinínia, todos são sérios. Muito sérios e circunspectos. Lá, mostrar os dentes é falta de respeito. Um verdadeiro atentado ao pudor. E em algumas regiões o simples ato de curvar ligeiramente os lábios para cima é motivo de repressão. Brilho no olhar? Não há e se houver é garantia de ostracismo. O último palhaço foi enforcado nas tripas do penúltimo. É, lá é assim.
E, no entanto, talvez você se surpreenda ao saber que não, não é proibido achar graça em Asinínia. Ao menos nunca ninguém escreveu que não pode. As coisas simplesmente aconteceram. Ao longo de décadas, os homens trocaram as histórias que arrancavam vulgares gargalhadas de seus antepassados por tediosas tabelas de Excel. A ironia fina, antes sinal de inegável sofisticação intelectual, passou a ser desprezada. E os assuntos mais ridículos do cotidiano eram tratados com uma seriedade antes considerada também ridícula, até que não mais.
Liberação involuntária de gases
Assim, os meninos e meninas de Asinínia foram aprendendo desde cedo a ostentar o ar grave dos idiotas que não sabem que são idiotas. Mas são. Mesmo nas situações mais cômicas do cotidiano. O pum, por exemplo, virou apenas uma liberação involuntária de gases. O tropeço que quase leva ao chão passou a ser expresso por meio de equações matemáticas. Um frango de borracha virou só um frango de borracha. Tudo o mais que tivesse potencial cômico era evitado. Até que a vida fosse reduzida a uma sequência de gestos mecânicos e palavras contidas.
Em Asinínia, as pessoas mais admiráveis da sociedade são aquelas que falam obviedades sem qualquer risco de parecerem patéticas. Tanto que do repertório asinino simplesmente desapareceram as metáforas, as comparações, as hipérboles e principalmente as generalizações. E, no entanto, é boa a vida por lá. Dizem. Pelo menos os problemas são resolvidos um a um, à medida que aparecem. Nasce-se e se morre. Sobretudo se morre. E ninguém perde tempo com blábláblás como um texto destes.








