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Tenho poucas certezas na vida e esta é uma delas: mais do que qualquer outra paixão, a paixão política nos cega. Nos ensurdece. Enrijece nosso coração. Impede que vejamos o outro como o ser digno e livre que ele é. (Insuportavelmente livre, eu diria). Transforma amigos em inimigos. Organiza pelotões de fuzilamento imaginários. Reais também. Não raro, a paixão política nos enlouquece a ponto de fazermos o mal jurando fazer o bem. Acusamos, julgamos, sentenciamos ao degredo, quando não à morte. Empunhamos a espada porque nos vemos tomados por uma ira santa.
As provas disso estão por aí. Mas, cegos, com os olhos vazados por um gesto de auto-ódio, nos recusamos a enxergá-las. Semana passada, por exemplo, empresas e indivíduos anunciaram o fim de doações a iniciativas de caridade. Tudo por causa da vitória do Lula. Como se caridade pressupusesse alinhamento ideológico e não expressão do Mandamento Maior. Também houve uma campanha para que petistas declarados ou enrustidos fossem demitidos. Do outro lado, meu lamento encontrou reações de escárnio. Se for chorar manda áudio, disseram um, dez, cem coitados cegos pela paixão política. Pela soberba que se segue à vitória. Vitória de Pirro.
Mais inteligentes e virtuosos
É nas relações cotidianas, contudo, que a paixão política faz mais estrago. Como vou me relacionar com alguém que apoia a corrupção, o autoritarismo e a mentira?, me pergunto, sem que me passe pela cabeça a possibilidade de... São tantas as possibilidades para alguém optar por um voto diferente do meu. Mesmo que seja no Lula. Como amar (!) quem tem valores tão diferentes que parecem até contrários? Como aguentar o ar de superioridade dos vencedores? Me relacionando. Amando. Aguentando. Respeitando a liberdade alheia de dar um voto que consideramos inaceitável. Uma liberdade que não deveria desaparecer só porque estamos convencidos de nossa superioridade.
É difícil? Muito! Dói. E, se dói, é porque é paixão. Paixão política que, como toda paixão, também é um sinal de que há algo desordenado dentro da gente. De que, independentemente do lado, estamos cedendo a uma tentação. À tentação de consertar o mundo, talvez? Ao orgulho de, no fundo ou nem tão no fundo assim, se achar o dono da verdade? À recusa em tentar compreender, quanto mais se submeter!, a uma realidade que nos contraria? À inveja do poder alheio? Enfim, são várias as possibilidades. Todas muito difíceis de aceitar. Porque nos olhamos no espelho e nos sentimos melhores do que os outros. Ainda mais se eles seguem ordens do Janones. Mais inteligentes e virtuosos do que os outros. Mas não somos.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



