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Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Superego

Que falta faz Paulo Francis!

PAULO FRANCIS
Paulo Francis: superego das elites. (Foto: Reprodução/ Roda Viva)

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Faz tempo que estou querendo falar de Paulo Francis. Da ausência dele, que era assim uma espécie de superego das elites e de farol para aqueles que aspiravam a alguma coisa que me escapa identificar. Uma glória tola, talvez? Tola como todas as glórias. Uma glória contida pelos pudores de uma santidade intuitiva. Paulo Francis que morreu há trinta anos e cujo nome não significa nada para os jornalistas de hoje. Mesmo os que ostentam o diploma cafonamente emoldurado e pendurado na sala de jantar, onde antes havia uma reprodução da Santa Ceia.

Paulo Francis que aprendi a admirar nas páginas desta Gazeta do Povo. Na época em que a gente sujava as mãos para ler e aprender. Se não me prega peça a memória, recortava a última página do Caderno G. Lia. Entendia pouco, mas fingia que entendia tudo. Guardava numa pasta que foi jogada fora quando me mudei para o Rio, em 2003. Com Paulo Francis aprendi a ler bons autores contemporâneos e a me emocionar com o balé. Com ele também aprendi rudimentos de filosofia e política. Havia um bocado de afetação naquilo, claro. Não nego isso. Mas em Paulo Francis havia um objetivo outro que não a ostentação estéril da cultura. Ou talvez eu esteja viajando na maionese, sei lá.

Cacife

Acho que, aos 48 anos de idade, dá para confessar sem passar tanta vergonha: me tornei jornalista para ser um Paulo Francis. Para provocar, compartilhar impressões, informar sem ser chato. Não, nunca consegui. Nem vou. Mas sigo tentando. Aliás, como me alertou/ofendeu alguém circa 1998, não tenho cacife para ser Paulo Francis. Sei disso. Porque me falta a vocação para a discórdia. Eu que tenho esse olhar estúpido de poeta-sem-soneto. E tem outra coisa que me impede: a elite intelectual de hoje mal sabe o que é e para que serve um superego – que não, não é personagem da Marvel. É, sr. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, a.k.a Paulo Francis. Chegamos a este ponto.

Paulo Francis que, se fosse vivo hoje em dia, se escandalizaria com a vulgaridade de tudo. Absolutamente tudo. Hahahaha. Imagine Paulo Francis falando de Alexandre de Moraes! Ele, Francis, que seria xingado de isentão e de esteta – o que de fato era. E que falta fazem os bons estetas! De petista por uns; de bolsonarista por outros. Paulo Francis que faz muita falta como intérprete de um mundo que queria mais de si. Que exigia mais de si. Que sonhava e talvez eu esteja exagerando, romantizando tudo. Eu sei. Sei também que talvez Paulo Francis tivesse se transformado num comentarista senil ou num irrelevante cronista de província. O que, pensando bem, é um consolo para o menino imberbe que, aos 18 anos, acreditava ter cacife para ser qualquer coisa diferente do que ele é hoje.

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