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Tomara que não

Para você pensar antes de votar

NICK CAVE
Nick Cave: não se renda ao cinismo. (Foto: EFE/Kiko Huesca)

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A história não é nova. Mas cabe neste dia melancólico e chuvoso. Em 2022, um homem chamado Valerio escreveu a Nick Cave um bilhete simples, mas que mereceu resposta. “Nos últimos anos ando me sentindo mais vazio e cínico do que nunca. Estou perdendo a fé nas outras pessoas e temo estar transmitindo esse sentimento ao meu filho. Você ainda acredita em nós, seres humanos?”, confessou e perguntou o tal de Valerio ao cantor e compositor australiano. O que isso tem a ver com você refletindo diante da urna daqui a um mês? Não seja assim. Continue lendo. Daqui a apenas três parágrafos eu chego lá.

Nick Cave respondeu e a resposta é linda. Primeiro, ele depôs contra o cinismo, ainda visto por muitos como uma forma de “lucidez” (não é!), e expôs o caráter maléfico dessa postura diante da vida. “O cinismo não é uma postura de neutralidade – e ainda que ele não exija nada de nós, é extremamente contagiante e inacreditavelmente destrutivo. Para mim, o cinismo é a forma mais comum e fácil de maldade”, escreveu Cave. Como discordar se no próximo dia 4 de outubro milhões de pessoas se colocarão diante da urna sem nenhuma esperança, tomados por um cinismo que nem sabem nomear e decididos a votar resignadamente no candidato menos pior? (Inclusive eu!)

Tomara que não

O cinismo é coisa de gente que reage à frustração, qualquer frustração, com preguiça. De quem prefere o comodismo do para-que-vou-me-dar-ao-trabalho? a tirar a bunda da cadeira e ir lá fazer algo para melhorar o mundo. Nem que seja um tiquinho de nada – e já terá sido bastante. Coisa de quem se omite e não me refiro aqui à atividade político-partidária. Não necessariamente. Eu mesmo não gosto dela. Estou pensando mais é na omissão presente nas pequenas decisões do dia-a-dia. Deixa como está. Não faz diferença. Meu esforço não será reconhecido. Para que ler e rir e brindar à saúde dos amigos? Meu voto não conta. Esse país não tem jeito. Daqui a cem anos estaremos todos mortos. Etc.

Por fim, Nick Cave faz algo difícil em tempos de cinismo: uma apologia da esperança. Que é difícil, não dá para negar. A esperança é exigente. “[A esperança] às vezes parece o mais indefensável e solitário lugar do mundo”, escreveu. Ele tem razão. E como tem! Mas a esperança contida em cada gesto simples de amor (“ler para seu filho, mostrar a ele algo que você ama, cantar para ele ou até mesmo calçá-lo”) é a única coisa capaz de conter o mal. O mal do cinismo. “Ter esperança é dizer que o mundo e as pessoas são dignos e merecem ser defendidos. Que vale a pena acreditar nas pessoas. Com o tempo, descobrimos que é assim”, finalizou Nick Cave. E se você chegou até aqui sem entender o que tudo isso tem a ver com política, democracia e eleições é porque talvez eu tenha falhado em me expressar. Ou talvez porque o cinismo já o tenha tornado impermeável à esperança e você desistiu. Espero que não.

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