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Queria saber se ele se olha no espelho e pensa: “Eu sou Renan Calheiros”. Se ele se lembra com saudade mal-disfarçada de Mônica Veloso.
Queria saber se ele se olha no espelho e pensa: “Eu sou Renan Calheiros”. Se ele se lembra com saudade mal-disfarçada de Mônica Veloso.| Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Lembro-me de Renan Calheiros ao lado de Collor, ainda novinho, aquela cara de assistente administrativo da repartição em peça de Nelson Rodrigues. Lembro-me de Renan Calheiros conquistador de donzelas indefesas. Lembro-me de Renan Calheiros falando rezistro com orgulho regionalista e provocando um caloroso e ébrio debate no Belmonte. Por fim, lembro-me de um Renan Calheiros neopetista, neolulista, neodilmista, sempre nas manchetes com um processo a prescrever no STF.

E agora Renan Calheiros (quem diria?!) está de volta ao palco principal da política brasileira, como nobre relator da igualmente nobre CPI da Covid, que pretende investigar por que a Covid-19 matou tantos brasileiros, quando poderiam ter sido tantos menos. Ou coisa assim.

Mais à direita do que à esquerda (que adora um aliado oportunista, por mais abjeto que ele seja), todo mundo está apontando a ironia óbvia e triste que é ter o senador alagoano na equipe que investigará um crime inventado pelo STF. Já eu fico olhando para aqueles oclinhos de aro fino, o cabelo prateado finamente implantado, o sorriso que me lembra o do David Letterman e me pergunto como alguém poderia esperar de Renan Calheiros, a essa altura da vida, qualquer postura diferente da que ele está assumindo.

As explicações óbvias estão por aí. Dinheiro. Poder. Influência. O problema é que, na minha cabeça oca, não entra algo que acredito ser uma obviedade para todo mundo: o político brasileiro não está nem aí para essa coisa de legado e posteridade. Não entendo como alguém pode ser capaz de contornar tantas virtudes apenas para manter certo padrão de vida. Não capto o momento em que o homem se entrega ao personagem. Teimosa e algo estupidamente, continuo tentando enxergar o ser humano onde há apenas o político oportunista.

Serve para políticos como Renan Calheiros, Bolsonaro, Lula e [INSIRA AQUI O NOME DO POLÍTICO DE SUA PREFERÊNCIA]. Serve para artistas – e quanto maior a fama, maior a submissão ao personagem. Serve até para juízes – até porque não dá para supor que Gilmar Mendes chegue em casa e fale naquele tom com a esposa. Serve, por que não?, para jornalistas que passam o dia brigando nas redes sociais.

Não vou dizer que é assim um sonho. Seria exagero. É no máximo um delírio de um lamentável cronista que aqui e ali comete suas pseudoliteraturas. Mas gostaria, sim, de conhecer o homem obrigado a conviver com um personagem tão repugnante. De saber quem é Renan Calheiros quando ninguém está olhando – a não ser eu.

Gostaria de acompanhar em silêncio o cotidiano dessa pessoa que abre o jornal e invariavelmente vê sua foto associada à palavra “corrupto”. De observar com cuidado como ele encara ameaçadoramente seus adversários, com aquele olhar de quem sabe que todos guardam esqueletos no armário. Queria saber se ele se olha no espelho e pensa: “Eu sou Renan Calheiros. Eu sou f&#$@”. Se ele se lembra com saudade mal disfarçada de Mônica Veloso.

Porque algo de curioso acontece com essas megacelebridades políticas – e Renan Calheiros é, além de senador e relator da CPI da Covid, uma celebridade. Elas têm todos os passos acompanhados de perto, e não raro com má vontade, por jornalistas, acadêmicos e diletantes sempre muito atentos ao jogo político, ao xadrez 4D e às fofocas do cafezinho, mas que ignoram a fascinante verdade que se esconde nos detalhes do cotidiano.

Talvez seja excesso de otimismo de minha parte, mas o Renan Calheiros que insiste em nos irritar com sua simples e de alguma forma imoral presença no Senado deve ainda guardar alguns aspectos humanos sob a fantasia de parlamentar impoluto, muito preocupado com o póvo sófrido, com a democracia, com Lula e com tudo o mais que seu radar político identificar. Se e por que ele quer ou precisa esconder esse lado humano e vulnerável é motivo de debate antropológico, psicanalítico, jurídico e até teológico.

Veja as notícias recentes sobre Renan Calheiros relatando a CPI que supostamente derrubará Bolsonaro. Nas fotos ele aparece sempre com um semissorriso de escárnio, como se fosse mesmo predestinado a jamais cair de seu pedestal. Não se vê ali qualquer princípio ou ideologia dos quais discordar. É só um primitivíssimo instinto de preservação disfarçado de civilidade política.

Ao chegar em casa depois de um dia de “trabalho”, ao botar seu implante capilar no travesseiro, imagina Renan Calheiros que está contribuindo de alguma forma para a Verdade? Será que ele acha que suas palavras e atos o aproximam da glória? Ah, queria ser um camundonguinho no Congresso para saber o que Renan Calheiros, ser humano e não figura pública, pensou na solidão do gabinete, ao encarar o espelho e a inevitável velhice, decadência, morte.

Queria saber no que o homem pensa ao escovar os dentes, ao calçar o sapato, ao encarar o repórter que provavelmente conversa com ele já tendo uma manchete em mente. Será que ele usa fio-dental? Será que às vezes abre o sorrisão para perguntar a um assessor se está com alface entre os dentes? Será que, no íntimo, às vezes ele não tem vontade de trocar o conflito político por um filminho tipo “Curtindo a Vida Adoidado” na Sessão da Tarde?

Se pudesse, ficaria ali, só observando e fazendo anotações mentais, até que Renan Calheiros adentrasse o reino de Morfeu. Nesse instante, ao me virar para compor o perfil daquela pessoa, me depararia com a figura elegante de Mefistófeles. Sem demonstrar nenhum ressentimento por eu ter recusado as muitas ofertas que me fez nos verões passados, ele daria um passo em minha direção e, com seu tradicional bafo de enxofre, diria: “Se você gostou desse, espere só até ver o próximo”.

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