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Simão chegou em casa para ouvir a mulher reclamar. Isso são horas?! E cadê o pão que pedi pra você comprar? Ele não disse nada. Apenas se virou, afastou a túnica e mostrou à mulher o vergão nas costas. Por um instante, ao ver a túnica novinha rasgada e a pele do marido cortada, ela pensou em chiar novamente. Vai dar tanto trabalho costurar aquilo. Mas algo a impediu de insistir na megerice. Ela esperou por uma explicação e ele: você não vai acreditar no que me aconteceu hoje. Simão sorria.
Aí ele contou que estava a caminho da padaria quando viu uma confusão. Aí, sabe como é que é. Eu tive que ir lá ver. Estavam crucificando um homem e o obrigando a carregar a própria cruz. A mulher não acreditou muito e ainda bem que Simão não lhe falou da coroa de espinhos, porque senão ela diria que ele estava exagerando. Aí, do nada, um romano filhoda. Shhh. Os vizinhos. Simão retomou: Um romano filho de uma romana (melhor?) me deu uma chicotada. Assim, do nada! Me puxou pelo braço e me obrigou a carregar aquela cruz pesadona. E você ajudou?
Aquela parte do Evangelho
Lá em Cirene uma vez..., começou a mulher, sem que Simão tivesse chance de falar que sim, ajudou. Ela era assim. Sempre tinha uma história para contar. Simão, porém, não ouviu. Primeiro porque a vergão nas costas começou a arder e a latejar. Depois porque se lembrou do pobre homem a quem fora obrigado a ajudar. Um tal de Jesus. ...e isso tudo por causa de um peixe, concluiu ela o que quer que estivesse concluindo. O que foi, Si? Simão chorava. Jesus. Açoitado. A coroa. Tanto sangue. As pessoas xingando. Como é que pode tanta maldade?, tentava dizer e perguntar Simão, como se recontasse aos soluços aquela parte do Evangelho que um dia seria escrito.
Mas você chegou em casa sorrindo, disse a mulher. Não que ela duvidasse do marido; ela só gostava de implicar com ele. Tem razão. Simão levantou a cabeça. Enxugou as lágrimas. Sorriu de novo. A dor havia desaparecido. E Simão poderia jurar que a túnica não estava mais rasgada. Ele pensou em dizer à mulher que por um lado estava triste, mas por outro estava feliz, inexplicavelmente feliz por ter ajudado aquele homem. O tal de Jesus. Mas achou melhor deixar quieto. Que dia! Tanto que acabei esquecendo de comprar o pão, disse Simão. Já volto.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



