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Petróleo no Amapá

“Pirotecnia eleitoral” tem impacto limitado e campanha de Lula entra em “modo alerta”

Campanha Lula
Lula tenta resgatar slogan do pré-sal para Amapá, mas campanha vive clima de "alerta" (Foto: Isaac Fontana - EFE )

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A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrou no anúncio de petróleo na costa do Amapá uma oportunidade para driblar a legislação eleitoral — que proíbe propagandas de ações do governo no período pré-eleição — e reciclou o discurso do “passaporte para o futuro” utilizado na descoberta do pré-sal. A manobra, no entanto, teve impacto limitado e fatos novos colocaram a campanha em "modo de alerta".

Ainda será preciso determinar o tamanho da acumulação e a viabilidade comercial da descoberta. Isso, contudo, não impediu Lula de vender o sonho de uma “Dubai do Norte” no Amapá, onde a expectativa passou a ser comparada ao desenvolvimento provocado pelo petróleo na Guiana.

Analistas do setor observaram a manobra eleitoral, já que a área exploratória da Foz do Amazonas era conhecida desde 2013, quando o bloco foi leiloado. O que a Petrobras confirmou agora foi a presença de hidrocarbonetos no poço Morpho.

“Foi uma pirotecnia eleitoral do governo, pois o que foi descoberto é apenas indício de petróleo”, diz Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). “Se você não tivesse a eleição esse ano, provavelmente seria apenas um anúncio ‘fato relevante’ da Petrobras.”

Sete anos para começar a produzir

A exploração ainda dependerá de uma série de variáveis. A própria presidente da Petrobras, Magda Chambriard, estima que o Amapá poderá começar a produzir petróleo em seis ou sete anos.

Isso, segundo Pires, se tudo correr bem. Ele lembra que a área onde está o poço do Amapá foi leiloada em 2013, mas as petrolíferas estrangeiras BP e Total abandonaram a área diante da dificuldade para obter a licença ambiental.

“O licenciamento é o grande entrave a ser superado”, diz o executivo, citando o exemplo do pré-sal do poço Tupi, na Bacia de Santos, que demorou de quatro a cinco anos para ter declaração de comercialidade e dez anos para começar a jorrar.

Pires destaca ainda o embate do modelo regulatório, retomando o histórico do governo petista. “Quando foi descoberto o pré-sal em 2008, o governo resolveu mudar o modelo de concessão para partilha e o país ficou quase cinco anos sem fazer leilão”, diz.

A produção atual de 4,5 milhões de barris por dia se deve, segundo ele, à mudança que o senador José Serra (PSDB-SP) promoveu no modelo, com projeto aprovado em 2016, retirando da Petrobras a condição de operadora única do pré-sal e transformando a sua participação mínima em 30%.

O modelo vigorou nos governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL). O temor agora é que Lula repita a prioridade à estatal. “O governo do PT acha que a Petrobras tem que fazer tudo e a empresa não tem recurso para isso”, afirma Pires.

Acordo entre Lula e Alcolumbre visa isolamento de Flávio

O anúncio feito com a visita de Lula ao Amapá, na segunda-feira (17), serviu principalmente para exibir a reaproximação com o senador Davi Alcolumbre (União-AP). Além disso, também deve favorecer o palanque do presidente do Senado no estado, que apoia a reeleição do atual governador e correligionário, Clécio Luis (União-AP).

O movimento, porém, não foi suficiente para afastar a preocupação da campanha presidencial em meio à disputa acirrada com Flávio Bolsonaro (PL). Apesar da pirotecnia, o impacto da manobra tende a ser regionalizado.

Leonardo Barreto, da Think Policy, avalia que, mais do que marketing político, o movimento reflete a aglutinação de setores governistas para cercar e impedir apoio do Centrão à candidatura da oposição. “Está tudo dentro de uma estratégia maior de isolar o Flávio”, afirma Barreto.

Para o cientista político, a campanha entrou em “modo de alerta” com o receio de uma derrota nas urnas caso o processo eleitoral transcorra sem amarras e haja a amplificação dos desdobramentos do caso "Lulinha" (veja adiante).

Fontes próximas à campanha ouvidas pela Gazeta do Povo confirmaram o clima de preocupação desde a divulgação, na segunda-feira (17), da última pesquisa BTG/Nexus, que aponta empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.

O levantamento mostra Lula com 47% e Flávio com 44%. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa ouviu 2.003 eleitores por telefone, entre os dias 14 e 16 de agosto, e está registrada no TSE sob o número BR-03317/2026.

Moraes, fiador da aliança contra Flávio, defende "sobrevivência"

Para Barreto, o restabelecimento da aliança entre Lula e Alcolumbre em uma reunião promovida pelo ministro Alexandre de Moraes revela “a disposição de barrar mudanças” e de manter a própria “sobrevivência” institucional. A interação entre os presidentes da República e do Senado Federal estava estremecida desde a rejeição, pela Casa Alta, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). 

Na prática, essa engrenagem tem entre seus objetivos conter investigações sensíveis, como os casos do INSS e do Banco Master, que envolvem diretamente o entorno de Lula, Alcolumbre e ministros da Corte.

A preocupação extrapola a disputa presidencial e alcança o próprio Congresso, já que a eleição de um Senado mais conservador sinaliza o avanço da pauta do impeachment.

“É por isso que o encontro entre eles é patrocinado pelo Alexandre de Moraes, porque o Alexandre de Moraes é o fiador disso”, afirma. “Ali, você junta os interesses do Judiciário, do Legislativo e do Executivo no sentido de abortar uma investigação.”

Como desdobramento, a ideia é promover um clima de vitória antecipada de Lula, que transmitiria a parlamentares e governadores a mensagem de que “apoiar a oposição significará ficar fora da futura composição do poder”, sinaliza Barreto. 

“Eles querem criar um clima de que tudo vai ser resolvido rápida e decisivamente, reforçando o desgaste da candidatura de oposição”, avalia.

Lulinha e economia entram no radar da campanha

A estratégia, porém, encontra obstáculos em frentes que podem alterar o cenário até a eleição. A principal delas é o caso envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que recoloca o passivo da corrupção petista no caminho da campanha.

Três inquéritos da Polícia Federal investigam a relação de Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger e o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.

Mensagens divulgadas na segunda-feira (17) mostram que Roberta afirmava falar em nome de Lulinha. Em uma das tratativas, ela negocia uma comissão de 20% em uma tentativa de venda ao Ministério da Saúde de medicamentos à base de canabidiol. Luchsinger também enviou a Marcola uma minuta de contrato que previa dispensa de licitação.

A investigação também analisa mensagens entre Lulinha e Roberta sobre “negócios” e relatos de que ele frequentava uma mansão dela em Brasília. Além disso, as apurações envolvem a atuação de Roberta com o empresário conhecido como “Careca do INSS”.

Para o estrategista eleitoral Roberto Reis, o caso é um calcanhar de Aquiles da campanha do governo. “Vai ser um problemão, a disputa está muito emparelhada”, diz. “Qualquer oscilação de 1% nos votos já é muito significativa, pode definir o resultado.”

Outro fator é a piora do quadro econômico. Os sinais de pressão aparecem principalmente no orçamento das famílias, com peso da inflação. Dados do IBGE mostram o IPCA de julho em 0,07%, ante 0,16% em junho, acumulando 3,44% no ano e 4,44% em 12 meses, acima do centro da meta.

Para Adriano Gianturco, cientista político do Ibmec, os números da economia têm sido supervalorizados pelo governo, por conta de indicadores positivos, como o baixo desemprego. "Mas o fato é que a economia não está indo”, diz. “Porque as pessoas estão sentindo na pele a inflação. Não é apenas sensação. Estão endividadas”, explica. 

Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho — maior percentual da série histórica — enquanto 29,8% tinham contas em atraso. Segundo a Serasa Experian, 51% da população adulta estava inadimplente no período. Isso significa 83,7 milhões de consumidores, com comprometimento da renda com dívidas de cerca de 30%.

Nas empresas, o crédito caro e a dificuldade de rolagem das dívidas se traduzem no avanço das recuperações judiciais, que cresceram 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026. A inadimplência chegou a 9,1 milhões de empresas no período.

“A economia está fazendo água e o governo vai precisar gastar todas as fichas para criar notícia positiva”, diz Barreto.

A ameaça Trump também preocupa

O terceiro sinal de alerta que tem orientado a campanha do governo é a possibilidade de interferência dos Estados Unidos na eleição, diante da proximidade de apoiadores e do próprio Flávio com Donald Trump.

Uma fonte ouvida pela Gazeta do Povo diz que o "maior" temor do governo é o cenário em que Trump questione o resultado da eleição.

Lula vem elevando o tom sobre o tema. Depois de admitir, em julho, que Trump poderia tentar interferir para favorecer Flávio, voltou a falar sobre o assunto no mês seguinte para dizer que não aceitará ingerência externa.

Na última segunda-feira (17), durante visita ao navio-sonda da Petrobras no Amapá, afirmou que tenta falar diretamente com Trump para pedir que “não se meta nas coisas do Brasil” e disse que estrangeiros não devem influenciar a escolha dos brasileiros.

Antes, o governo já tinha desautorizado a visita de representantes do Departamento de Estado ao Brasil para tratar da integridade do processo eleitoral. Lula também condicionou a análise do novo embaixador americano, Daniel Perez, ao fim das eleições.

Para Barreto, a estratégia da campanha de isolamento de Flávio é também “um sinal para desencorajar Trump na tentativa de interferência”, uma vez que analistas costumam dizer que o presidente americano "não se alia a perdedores".

O estrategista Roberto Reis, por sua vez, afirma que a possibilidade de o presidente dos Estados Unidos não reconhecer uma eventual vitória de Lula é absolutamente concreta. “Trump não aceita Lula ser o próximo presidente”, afirma.

Segundo ele, a raiz do conflito está na exigência de alinhamento de Washington contra a China. "Trump já deixou claro que não vai aceitar na América um país ligado à China”. O conflito geopolítico, portanto, “será pesado”.

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