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Em 1938, o poeta Murilo Mendes, revoltado com a anexação da Áustria por Hitler, fez o que estava a seu alcance: mandou um telegrama ao tirano.
Em 1938, o poeta Murilo Mendes, revoltado com a anexação da Áustria por Hitler, fez o que estava a seu alcance: mandou um telegrama ao tirano.| Foto: Reprodução

Isso foi antes. Bem antes. Antes de Anitta cogitar musicar os funkáveis versos de um Bráulio Bessa. Antes de as Macabéas se derreterem pela poesia de Carpinejar. Antes mesmo dos diminutivos de Quintana e dos trocadalhos de Leminski. Também foi antes do esteticismo vazio do concretinismo. Enfim, antes. Na época em que tínhamos poetas.

Ou, para ser mais preciso, em 1938. Adolf Hitler, já se vendo na missão de dominar o mundo, havia anexado a Áustria. Revoltado com o que via como um ato de agressão à terra de seu ídolo musical, o poeta Murilo Mendes não hesitou: entrou na agência dos Correios mais próxima e de lá enviou um telegrama para Hitler. No qual se lia: “Em nome de Wolfgang Amadeus Mozart, protesto contra a ocupação de Salzburg”.

Mas, como disse no primeiro parágrafo, isso foi antes. Antes de os poetas se vulgarizarem e atravessarem a noite mendigando uns trocados por seus versos livres de talento. Antes de o cinismo, maquiavelismo, cientificismo e materialismo, tudo junto e misturado, criarem hordas de não-leitores que só de verem um livro em versos sentem ânsia de vômito. Antes de as editoras terem departamentos de publicidade especializados em sinalização da virtude aplicada ao marketing de guerrilha.

O que teria se passado na cabeça do poeta? Impossível dizer. Adaptado ao mundo de hoje, o gesto de Murilo Mendes é visto como uma estupidez inútil. Que é, aliás, como o mundo de hoje vê a própria poesia. Eu, que tento não me render ao utilitarismo que me cerca, porém, prefiro ver o gesto do poeta como o sacrifício cristão de quem faz a sua parte, faz o que pode, faz o que considera certo porque é certo, não porque é útil ou vai impedir uma guerra mundial.

Vou, porém, insistir no mesmo ponto pela terceira vez: isso foi antes. Antes de tudo ser relativo, cheio de nuances e de não-é-bem-assim. Antes de chapéu de papel alumínio virar moda. Antes de as redes sociais transformarem pessoas inteligentes, que bem poderiam estar escrevendo versos, em dementes sociais viciados em ter razão. Antes de os leitores de poesia trocarem as Obras Completas de Murilo Mendes por tediosos ensaios de cientistas políticos.

Entende agora por que uso como epígrafe deste espaço a frase de T. S Eliot segundo a qual “Para nós, há apenas o tentar. O resto não é da nossa conta”? Nem tudo é pragmatismo e, em minha pequenez, reconheço minha incapacidade de antever todas as consequências de meus textos (e atos). Acordo todos os dias na esperança de fazer o meu melhor e de não causar mal a ninguém. Mas causo e, por vezes, meu melhor é no máximo medíocre.

Em minha mediocridade humana e esforçada, gosto de pensar que há por aí uns tantos poetas dignos nas filas das agências dos Correios. Quando chega a vez dele, o poeta diz à atendente entediada que quer mandar um telegrama. A demanda causa certo furor na agência. Tem um moço aqui querendo mandar um telegrama. Alguém sabe como se faz isso? Depois do que a atendente pergunta ao poeta qual vai ser a mensagem, ao que ele responde lhe entregando um papelzinho no qual se lê: “От имени Петра Ильича Чайковского протест против оккупации Украины”.

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