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A ideologia de gênero se tornou uma máquina de criar pessoas infelizes.
A ideologia de gênero se tornou uma máquina de criar pessoas infelizes.| Foto: Divulgação

A história é simples e é esta: um travesti (que aqui chamarei de Rogéria, em homenagem à própria) vivia sua vidinha pequena, mas não lá muito pacata, sonhando em ser transformista e em aparecer naquele concurso do Sílvio Santos. Mas daí apareceu um transgênero (que aqui chamarei de Alcione, só porque é um nome unissex) que fez de tudo para convencer Rogéria de que ela era uma vítima da sociedade cis-heteronormativa. Resultado: Rogéria parou de ouvir Gloria Gaynor, passou a empunhar cartazes com palavras de ordem e, para o seu João, que até ontem batia palmas para os transformistas, se transformou num traveco. O que, para a alegria de Alcione, só alimentou ainda mais o ressentimento recém-descoberto da outrora pacífica (e talentosa) Rogéria.

Contei essa historinha boba, digna apenas de peça do Plínio Marcos, para mostrar que as palavras têm pesos diferentes. E, dependendo do uso para fins políticos, uma palavra à toa, dessas bem vadias mesmo, pode se tornar pejorativa. Tudo à revelia desses conflitos identitários estúpidos travados nos últimos tempos.

Pegue a palavra “travesti”, por exemplo. A relação dos brasileiros com os travestis (palavra e homens) nem sempre foi tão conflituosa assim. Claro que os travestis que viviam do meretrício sofriam e cometiam muita violência – mas isso tem mais a ver com o conjunto de valores da chamada “boca do lixo” do que com o fato de um homem aplicar silicone e se vestir como mulher. Tá aí Roberta Close que não me deixa mentir. Há 40 anos, Roberta Close era exaltada como “uma das mulheres mais lindas do Brasil”. E não precisava de decisão do STF para que Close fosse vista como uma legítima representante do sexo feminino.

Antes de Roberta Close o país se acostumou a ver Rogéria – cujo nome de batismo ela gostava de repetir às gargalhadas: Astolfo. Rogéria sempre foi um travesti à vontade nesse papel. Não que não deva ter sofrido horrores, mas o sofrimento pessoal e intransferível era um preço que ela parecia disposta a pagar pela liberdade de viver plenamente sua disforia de gênero. Em “Tieta”, novela de 1989, Rogéria aparece no papel da travesti-com-t-maiúsculo Ninete. Que, numa cena marcante, resiste às investidas dos homens da cidade com um soco na cara de Amintas e uma fala marcante da teledramaturgia brasileira: “Meu nome é Valdemar”.

E havia os transformistas de todos os domingos à noite: travestis que dançavam (mal) e cantavam (mal) no programa de Silvio Santos. Todas iam lá voluntariamente expor seus figurinos espalhafatosos e seus corpos esculpidos com silicone. Não me consta que nenhum transformista tenha se sentido humilhado pelos comentários de um Pedro de Lara ou do próprio Silvio Santos. E, no mais, para o travesti o transformismo (uma pouca vergonha!, na opinião inócua da minha avó) era uma saída muito mais digna do que o meretrício.

Mas daí apareceram os transgêneros. E os travestis ganharam importância para além do simples fato de serem pessoas que, por algum motivo que não me cabe julgar, transgrediam a norma. Sim, a tão atacada cis-heteronormatividade. Os transgêneros são produto de uma mentalidade tão tão tão arrogante que considera que as pessoas têm o direito, quando não o dever perverso, de renegar a Criação. Ou de apontar no próprio corpo um erro de Deus.

No encalço desse problema teológico básico, há toda a sorte de desvios morais que podem ser mais ou menos condensados num termo: narcisismo. A ruína de Narciso, vale lembrar, foi se afogar na própria imagem. O que parece não significar absolutamente nada para aqueles que exaltam o transgenerismo como uma espécie de ápice da Humanidade. Até porque trata-se de um mito escrito por um homem cis branco que só ecoou através dos tempos por causa do patriarcado. Ou algo do tipo.

E aqui chegamos ao traveco, que nada mais é do que o travesti desumanizado. É a anti-Rogéria e anti-Roberta Close. É o antitransformista. É a massa de manobra. É a pessoa que perdeu seu caráter singular e não consegue mais viver fora de uma ideia diabólica de coletividade. É o ser que rejeita qualquer tipo de misericórdia porque perdeu a alegria do transformista e está embriagado da arrogância transgênera de se achar melhor do que Deus. Ele acredita que a “transfobia” está na aversão que sua sexualidade desperta, quando na verdade essa aversão existe como reação a um senso de superioridade que agride o entorno.

O traveco – isto é, o travesti desumanizado, infeliz e mutilado – é a consequência extrema de um conflito artificial, fomentado nas universidades, que se espalhou pelo mundo ocidental feito um vírus de insensatez. O resultado desse embate, porém, está longe de ser imprevisível. Afinal, a artificialidade da causa trans não é páreo para a força da Lei Natural. Nem mesmo com todo o ativismo jurídico.

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