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Primeira vez no estádio

Acordou inquieto aquele domingo. Estava eufórico. Era chegada a hora. Depois de tanta relutância da mulher, ela concordara em deixá-lo levar o filho ao estádio. Aos três anos de idade, o guri conheceria toda a emoção de um campo de futebol. Dali por diante, seriam parceiros de arquibancada a cada jogo.

Antes do almoço, já botou a camisa e o boné do time no guri. Na hora de partirem, deu uma bandeirinha pra ele segurar no caminho. Lá estavam os dois, devidamente paramentados para a ocasião.

Passaram antes no bar perto do estádio para o pai encontrar os amigos. Ele não bebeu nada. A rapaziada estranhou, fez cara feia. Explicou que havia feito um acordo com a mulher. Ela o fez prometer que se levasse o guri ao jogo não botaria uma gota de álcool na boca. Como era um sujeito de palavra, fez companhia ao filho na Coca-Cola. A dele com bastante gelo e limão, pra dar um ar de drinque e ludibriar os amigos e o fígado. A do menino, na garrafa, de canudinho. Tomaram o refrigerante e foram para o estádio. O pai com os bolsos forrados de balas e doces pra comerem juntos no jogo.

Sentaram-se na arquibancada exatamente no meio do campo, de onde o pai mais gostava de acompanhar as partidas. O guri numa excitação total. Pegava o papel picado da torcida e jogava para cima. Ali podia fazer bagunça à vontade. Ninguém iria reprimi-lo.

Na hora que o juiz apitou, o pai o sentou no colo e disse pra ficar quietinho, que prestasse atenção no jogo. Não via a hora de sair logo um gol para o filho extravasar toda a alegria que só a bola na rede a favor do nosso time pode proporcionar. Comprou um pacote de amendoim torrado e deixou o menino com os doces. E esperaram. Ou melhor: torceram.

Mas a sorte soprava para o outro lado. E logo aos 15 minutos do primeiro tempo, gol do adversário. Mais 15 minutos, outro gol. Virada pro intervalo: dois a zero e o guri perguntando:

– Que horas nosso time vai fazer gol, pai? Por que a gente não faz gol?

Aquilo doeu na alma. Começou a temer pela escolha que o filho faria. Tinha um conhecido no escritório cujo filho acabou torcedor da equipe adversária porque na primeira partida que fora assistir, ainda criança, como seu filho, o time levou uma goleada de quatro a zero. Não, aquilo não podia acontecer com ele. A alegria de levar o filho à primeira partida começava a se transformar em apreensão.

O técnico fizera algumas mudanças para o segundo tempo. O time voltou mais ofensivo para tentar reverter o placar. O problema é que com isso abriu-se mais espaço para o adversário. Foi o suficiente para mais três gols. Era de goleada. Um terror!

Bandeiras recolhidas, tambores silenciados e cabeças baixas na saída do estádio. Todos com nó na garganta. Ele e o guri ali, como se largados em um canto do estádio, sentados na arquibancada, tristes. O pai completamente amuado, temendo pelo pior: que o menino seguisse o exemplo do filho do colega de trabalho, cujo trauma da primeira partida o levou a torcer pelo adversário.

Neste instante, com o pai completamente inconsolável, mãos na cabeça, o guri o abraçou forte, quase sufocando seu pescoço e gritou alto o nome do time deles, fazendo eco no estádio vazio. O placar já não importava mais. A partida estava vencida.

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