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A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno frustrou o xadrez político desenhado por Jair Bolsonaro para o pleito de 2026. Com o novo mandato do petista, tornam-se praticamente inviáveis as duas principais metas da direita para reconfigurar o tabuleiro do poder em Brasília: a abertura do processo de impeachment do ministro Alexandre de Moraes e a reversão das condenações do 8 de Janeiro.
Ainda que a direita venha a formar maioria suficiente para eleger o presidente do Senado em 2027 e, com isso, tentar abrir processos de impeachment contra ministros do STF, a viabilidade real desse movimento dependia de uma virada no Palácio do Planalto. Afinal, ao lado de lideranças estratégicas do Congresso, como Davi Alcolumbre, é a própria permanência de Lula na Presidência que assegura o escudo e a sobrevivência política de Moraes em meio às pressões sobre a Corte.
A influência do Executivo sobre o Senado apoia-se no cardápio tradicional do presidencialismo de coalizão. Para pavimentar maiorias na Casa, o governo dosa a liberação de emendas parlamentares, oferta cargos com orçamentos bilionários e dispõe de indicações cruciais para órgãos de controle, como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Trata-se de um cacife robusto para desmobilizar congressistas propensos a apoiar o afastamento de magistrados.
Em paralelo, a continuidade de Lula garante a manutenção de Andrei Rodrigues na chefia da Polícia Federal. À frente da corporação, o diretor-geral detém prerrogativas administrativas decisivas para determinar o ritmo e o foco das investigações mais sensíveis da República. Essa sinergia entre Executivo, Polícia Federal e STF opera como uma engrenagem contínua de contenção e blindagem mútua.
A convergência entre o Planalto e Moraes, longe de ser conjuntural, consolidou-se como um pilar de governabilidade. Exemplo disso ocorreu em 2025, quando o governo mobilizou a diplomacia para cancelar a sanção da Lei Magnitsky aplicada ao ministro pelos Estados Unidos. O Planalto compreende a centralidade da atuação de Moraes na desarticulação da força orgânica da oposição.
No Supremo, a maioria dos pares enxerga no colega o principal anteparo contra as investidas à imagem da instituição — garantindo-lhe um elevado capital interno, ativo valioso nas negociações do governo com a Corte diante de um Congresso adverso.
A ascensão de Moraes à presidência do STF, prevista para o segundo semestre de 2027, amplificará esse poder institucional. Sob seu comando regimental, o ministro poderá ditar o ritmo de julgamentos sensíveis ao Executivo, liderar debates estruturais sobre reformas do Judiciário e exercer influência determinante nas indicações para os tribunais superiores, incluindo as quatro cadeiras a serem preenchidas na própria Corte.
O fortalecimento dessa aliança é a pior notícia para a família Bolsonaro. A imediata determinação para a entrega do passaporte de Flávio Bolsonaro sinalizou a continuidade do cerco judicial. Fosse o senador o vitorioso na disputa presidencial, a dinâmica seria oposta: Moraes veria sua margem de manobra drasticamente reduzida e ficaria compelido a ceder na ofensiva contra a família para preservar o próprio mandato, abrindo brecha para a anulação de penas ou para uma revisão criminal no plenário do STF.
Sem a perspectiva de um perdão amplo ou da reconquista do poder central, a direita de Bolsonaro dependerá, no máximo, de reavaliações pontuais na dosimetria das penas dos condenados do 8 de Janeiro — processo rigorosamente controlado por Moraes, que detém o poder de calibrar a aplicação das novas regras a cada um dos réus. A aposta de alto risco feita ao lançar uma candidatura familiar resultou em um revés decisivo, selando o isolamento do grupo por tempo indeterminado.

Jornalista de política especializado na cobertura de Justiça. Desde 2009 em Brasília, observa de perto como se move o poder, o direito e a imprensa. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




