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BOLSOLULA é real.
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Há dois dias atrás começamos, oficialmente, um novo momento histórico. Como ocorre com frequência, a roda da fortuna gira de novo. Os que caíram sobem, os que estão embaixo tornam a ascender. É isso o que estamos vendo com o Partido dos Trabalhadores. E, se alguém pensa que exagero, convido a refletirmos juntos com esse texto.

A decisão do ministro Fachin de anular os processos envolvendo o ex-presidente Lula é um marco na trajetória do petismo. Quem se prende a formalismos jurídicos, alegando corretamente que a decisão do ministro não inocenta Lula, não percebe que o que está em jogo é uma narrativa, um discurso, um novo senso político que anima a militância da esquerda. Pouco importa os detalhes da decisão, se a nulidade dos atos jurídicos empurra o processo para ser novamente julgado. O que importa é o símbolo do retorno de um homem proscrito por seus perseguidores, de um homem que se torna de novo um líder com pleno exercício dos seus direitos políticos.

Para a sensibilidade do novo tempo, Lula é um homem inocente acossado por um sistema persecutório. O discurso da “alma mais inocente do Brasil”, aliás, foi sempre o seu, desde o princípio. No início, contudo, esse discurso era pouco crível, convincente no círculo cada vez mais estreito de uma militância fiel. Com uma operação Lava-Jato no auge da sua popularidade, reforçada pela legitimidade do incorruptível juiz Moro, Lula tinha se tornado menor. Era um presidiário vocalizando sua inocência improvável enquanto seu partido derretia nas eleições.

Três grandes fatos viraram o jogo de cabeça pra baixo. A soltura de Lula, em virtude de um novo entendimento da suprema corte, sobre a prisão em segunda instância, causou pouca revolta. Uns muxoxos aqui e ali, alguns memes, um arremedo de indignação - nada disso foi suficiente para criar a famosa “pressão popular”, que era tão forte nos anos decisivos de 2015 a 2017. Além do que, naturalmente, Bolsonaro se juntou ao bem amplo grupo dos interessados na manutenção da impunidade. Como se sabe, através de Flávio, o Willy Wonka do conservadorismo, a prisão em segunda instância se tornou bandeira de um saudável “conservadorismo de costumes”.

O segundo fato foi o vazamento de conversas privadas no Telegram, operado através de um hacker e recepcionado pelo jornalismo do Intercept. O vazamento caiu como uma bomba. Aquelas conversas sugeriam que procuradores da operação e o juiz Moro excediam suas atribuições formais de juiz e procurador. O vazamento enfraquecia a legitimidade jurídica da operação, e o questionamento da comunidade jurídica, que existia desde o princípio, se ampliou e reforçou a posição de parte dos ministros do STF que já eram contrários a Lava-Jato. Esse foi o segundo prego do martelo.

O terceiro abalo vimos agora. Com as condenações anuladas, Lula torna-se novamente elegível. Sai a público e faz um discurso poderoso, de candidato. Menciona Moro, a rede Globo e a imprensa, ataca Bolsonaro mas se mostra, não como candidato radical, mas como candidato do diálogo. O contraste é habilmente explorado. Para uma platéia que ele sabe fácil de convencer, o discurso é irresistível. Inegavelmente, Lula é bom orador e está em forma.

Bolsonaro também se regozija com a notícia. Ele supõe, de maneira ingênua, que as condições que o levaram ao poder em 2018 irão se repetir. Contra Lula ou um candidato menor do PT, Bolsonaro irá crescer e as classes médias, abandonadas diante do dilema, votarão novamente em Bolsonaro. Ele já adiantou o sentido da sua convicção: “falam mal de mim, mas vão votar em quem em 22?” Ele acredita que o antipetismo é uma força quase permanente como se fosse um dado natural: o céu azul, a gravidade, o antipetismo.

Não é bem assim. Não existe nenhuma força histórica que seja permanente. Por definição, a história é o domínio do tempo, do que é mutável, do que se transforma. As condições que criaram o antipetismo já não subsistem. Muito embora ainda seja uma força política apreciável, a memória da crise de Dilma é tardia em face do desastre do governo Bolsonaro. A incompetência patente do governo é atual, visível para quem hoje lê as notícias com um mínimo de senso crítico.

Os escândalos de corrupção do petismo, certamente, continuam cravados na história. Entretanto, há muitos senões, muitas nuances. O primeiro “senão” é a distância temporal. O tempo joga a favor do PT. Os fatos que constrangiam o militante petista não estão ocorrendo agora. O PT não é protagonista nacional de novos escândalos. Quem é o protagonista é Bolsonaro.

A crise gerada no governo Dilma também pode ser contrastada com os anos de bonança sob Lula. Não é como se a experiência do PT no poder tivesse sido uma longa trajetória de equívocos flagrantes. Afinal, eles elegeram 4 presidências seguidas. Duas de Lula, duas de Dilma. No mínimo, a percepção popular sobre o PT não era a de nenhuma tragédia. Assim, o que ocorreu sob Dilma vai ficando distante e o contraste não será esse: será entre o governo Lula e o governo Bolsonaro. Essa é a dicotomia, não Dilma e Bolsonaro.

É assim que se firma, a cada dia, uma candidatura forte do PT. O partido sabe, pois é óbvio, que ao ir para o segundo turno com Bolsonaro, ele pode explorar todos os problemas do governo. Também sabe que a imagem de Bolsonaro como um grande vilão já se firmou. Deste modo, quem for ao segundo turno com Bolsonaro fará uma eleição polarizada por Bolsonaro. Isso vai atrair como um ímã um poderoso élan, tão grande talvez quanto foi o antipetismo nos anos de 2015 a 2018: uma força política esmagadora.

Esse é o cenário que temos. Guardem essas previsões. Ou articulamos uma candidatura de terceira via agora, ou realmente estaremos condenados a ver uma eleição repetindo a polaridade de 2018, mas, dessa vez, talvez, com um resultado diferente.

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