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Bolsonaro: não há defesa possível
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Confesso que tentei. Fiz voto de silêncio após reclamação de amigos. “Você força a mão demais, Renan, o presidente nem é tão ruim assim”. Gole de cerveja. Andei a pé mais de mil quilômetros pra tirar a Dilma do poder. Fui dormir sonhando com um Brasil melhor, acordei com Artur Lira presidente da Câmara. Com TV Brasil comprando novela da TV Record. Com Paulo Guedes cavando aumento de imposto.

Seria caricato não fosse trágico. A brincadeira Bolsonaro, o meme Bolsonaro, a piada Bolsonaro — aquilo que você preferir chamar — gerou morte como filme de terror. Os relatos de Manaus espantam. É, possívelmente, o caso mais trágico do mundo até o momento. Houve locais com mais mortes? Certamente. Mas nenhum tão agoniante, desumano, desesperador.

Pacientes com grande probabilidade de sobrevivência pereceram por falta de ar. A crise de suprimento de oxigênio — insumo básico em hospitais — negou-lhes o mais básico impulsos humanos, respirar. Asfixiados, sabedores da própria morte, eram sedados, tomavam morfina, e apagavam para nunca mais acordar. 

Desesperados, amigos e familiares corriam contra o tempo a procura de cilindros de oxigênio. Compravam de fábricas, caldeirarias, serralheiros. Alguns falhavam. Não chegavam a tempo. Seu ente querido morreu.

Os já costumeiros seguidores do presidente dirão: “É culpa do governador! Bolsonaro fez sua parte!”. Mas não. Bolsonaro não fez sua parte. 

Dia 27 de dezembro marcou uma ampla manifestação pelo fim do isolamento social em Manaus. Foi organizada por comerciantes, influenciadores locais e deputados federais bolsonaristas. Eduardo Bolsonaro e Bia Kicis foram alguns dos responsáveis. Comemoravam a rebelião em meio à disparada do número de casos.

Após a virada de ano, no dia 6, o governador do Estado pediu socorro ao governo Federal. Era situação calamitosa. As mortes se avolumavam, os leitos acabavam e os insumos desapareciam. Era momento de planejamento, coordenação,inteligência. Pazuello, ministro da saúde e — não riam — especialista em logística do exército, poderia então brilhar. Brilhou?

No dia 12 de Janeiro, Bolsonaro ignorou o apelo por ajuda e sugeriu o uso de cloroquina no tratamento da COVID. Seus influenciadores lançaram uma música ridícula — emulando campanha maluca do ministério da Saúde — louvando os benefícios de um suposto “tratamento precoce” à base de vermífugo e do remédio milagroso. NADA, REPITO, NADA FOI FEITO para amenizar a questão manauara. Jogo que segue.

Dois dias depois as mortes por asfixiamento se iniciaram. Desesperados, deputados e influenciadores bolsonaristas lançaram mão de um “protesto silencioso” em homenagem a Donald Trump. Ficariam o dia todo em silêncio — estratégia conveniente para não tratar da crise sanitária. Foram retirados do “protesto” por Carluxo, que assustado com a perda de popularidade de seu pai, postava um pênis de borracha batucando uma panela em seu Twitter. 

O foco do presidente não era a solução do problema. Era sua luta contra João Doria. No mesmo dia, as ações mais enfáticas do governo federal foram a tentativa frustrada de compra de vacinas na Índia — com direito a avião adesivado pra fazer propaganda — e o confisco da Coronavac do Butantan, a mesma que desdenhou e jurou ser ineficaz. 

Pergunto aos muitos fãs deste senhor sentado na cadeira presidencial: vocês realmente acham que houve governança — governo, cuidado, gestão — na crise de Manaus? Não me venham com o papo de “o STF tirou os poderes do mito”. É mentira. A decisão da suprema corte não proibiu o governo federal de traçar estratégias para contenção da pandemia, coordenar ações com estados e municípios, articular logística e fornecimento de insumos e equipamentos ( como oxigênio), adquirir e desenvolver vacinas. Ele foi proibido de REVOGAR as medidas de isolamento social — ideia fixa do presidente no começo da pandemia.

Nenhuma resposta que não esbarre no terraplanismo médico será possível nesse caso. Os fatos estão na mesa. O presidente e seu ministro não fizeram ABSOLUTAMENTE NADA para impedir o asfixiamento em massa de Manaus — isso quando não participaram do problema, ao sabotar o isolamento. Tal postura, amigos, seria motivo de impeachment em qualquer país sério. No Brasil, é motivo de like em rede social; é fato gerador de verba da Secom. 

Eu sabia que Bolsonaro era tosco, burro, patrimonialista. Mas não que era perverso a ponto de usar a morte como palanque, de ignorar o sofrimento alheio quando indesejável para sua narrativa eleitoral. Eu não fico feliz reconhecendo isso. Eu sofro. É uma derrota para minha geração.

Eu gostaria que o Bolsonaro fosse um tiozão tosco com um grande coração, humilde e acolhedor, severo porém caridoso. Um sujeito brucutu cercado de gente capaz, “traduzindo” pro povo os conceitos complexos de uma gestão comprometida. É essa a imagem que ele ainda vende por aí.

Bolsonaro, porém, não é nada disso. Ele não passa de um homem pequeno e cruel, eivado de ligações com a milícia carioca — leia-se crime organizado —, dono de carreira política inútil, filhos limitados e aproveitadores, e uma tara desavergonhada por poder. Não fosse o bastante, é também vingativo e cruel. Não liga para a dor alheia e não se compadece com o sofrimento de outrem. Mais: acha bonito escarnecer de adversários, servindo como “avatar” que naturaliza o comportamento sádico de quem o segue.

Percebo Bolsonaro como salvo-conduto para que o sujeito de classe média expresse livremente algumas de suas perversidades naturais — que todos temos — , que devem contidas no convívio em sociedade. É um totem da impostura, um rancor encarnado que se destacou por viver a traição como princípio. Ele não é um “Joaquim Teixeira”, ou “representação do homem comum”, como dizem seus prosélitos. Largou cada uma de suas esposas por uma mais nova. Trocou elas como troca de ministro, de partido, de causa a se defender. É infiel, egocêntrico, narcisista. Mas jura ser cristão, conservador e defensor da família. 

Diz-se também anti-petista, mas votava com o PT quando deputado; diz-se liberal mas não propõe reformas; é “pró-vida” mas defendeu aborto e controle populacional durante toda sua carreira. Prometeu acabar com o toma-lá-dá-cá enquanto compra voto com emenda. Voto pra Artur Lira, não para reforma. Combate a corrupção acabando com a Lava-Jato; enfrenta o sistema dando aumentos para o funcionalismo; acaba com a mamata torrando cartão corporativo; dá fim ao aparelhamento usando a Abin para proteger seu filho. Diz amar a Deus enquanto prega o ódio contra seus adversários. 

O homem comum — se é que essa ficção cabe aqui — não é como Bolsonaro. Ele não abandona os seus. Ele não cultiva seus ódios como virtude. Bolsonaro é um mal que existe em todos nós. Ele é um mostrinho escondido no brasileiro. Até por isso, permanece popular.

Cessar essa monstruosidade é exercício de civilidade. Um duro exercício num país de canceladores, BBB 's e funcionários públicos recheados de supersalários. Viver no Brasil é beber veneno que alimenta seu Bolsonaro interno. Não sei se haverá solução. Estamos longe dela. Estamos longe de uma resposta. É sufocante, no mínimo.

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