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Bolsonaro precisa de ajuda
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O momento é de união!” era a frase favorita dos militantes de internet nos tempos de luta contra o PT. Representava a vontade inequívoca de aproximar todas as forças de oposição — não importava quem fosse — num bloco coeso, que fizesse frente ao governo Dilma e o apeasse do poder.

A frase ecoava um sentimento de solidariedade mútua, de compromisso patriótico para além dos interesses pessoais. Servia de guia nos momentos em que os muitos conflitos entre os agentes envolvidos — MBL, Vem Pra Rua, PSDB, Olavo de Carvalho, dentre outros — se convertiam em chagas expostas nas redes sociais.

A queda da presidente dispersou parcialmente a massa que se aglutinou ao redor do impeachment; ainda assim, o temor pelo retorno do petismo, vinculado à figura de Lula, mesclou-se à ascendente campanha do então deputado Jair Bolsonaro. Patriotismo e compromisso com a nação confundiram-se com apoio irrestrito à sua candidatura. Vinculava-se, então, o sentimento de dever à persona política de um candidato. Assim elegeu-se Jair.

O processo, no entanto, era multifacetado. Diversas lideranças adquiriam proeminência no andar da carruagem, destacando-se conforme suas visões de mundo e atuação política. De apresentadores de televisão como Danilo Gentili a movimentos políticos como MBL, havia um arco heterogêneo de figuras que se legitimaram como agentes relevantes perante o grande público.

Um deles — Sérgio Moro — enquanto figura pública, permanecia maior que Jair. E mesmo ele juntou-se ao governo do presidente recém eleito, apenas quatro dias após o fechamento das urnas. Com Moro e Guedes, o capitão reformado pretendia-se unificador das forças que colocaram abaixo o velho consenso político brasileiro.

O sucesso da empreitada, entretanto, subiu à cabeça dos vencedores. Os filhos de Jair — especialmente Carlos e Eduardo — confundiram seu papel na campanha do pai com a emergência de um fenômeno político que compreendiam parcialmente. Foi o fenômeno que gestou Jair, não o contrário. Envaidecidos pelo culto à família, preferiram ignorar seus pressupostos.

Assim, o “momento é de união” tornou-se “o momento é de submissão”. Uma rede de apoiadores se acotovelava por espaço próximo ao rei; reforçavam sua lealdade com demonstrações públicas de fidelidade ao chefe, enquanto atacavam implacavelmente os demais agentes que não se submetiam ao beija-mão.

A própria lógica de culto provocava tal comportamento. Temerosos da punição destemperada dos líderes, os agentes exercitavam a paranóia como política, perseguindo-se mutuamente e denunciando heresias no campo da direita.

Em pouco mais de 6 meses de mandato, tornaram-se traidores Kim Kataguiri, Janaína Paschoal, o partido Novo, Deltan Dallagnol, Nando Moura, Gustavo Bebbiano, Danilo Gentili, a Jovem Pan, o Antagonista, o Vem Pra Rua, o MBL, o próprio partido e —Ufa! — grande parte dos oportunistas que se agarraram à sua candidatura, agora deputados federais.

O bom senso diz: não há como prosperar com tal estratégia.

Ainda mais diante de um escândalo que consumiu a coerência interna do governo. As acusações contra Flávio Bolsonaro demonstraram que a família real não era exatamente um poço de virtudes; viviam muito bem às custas do erário e faziam uso — muito provavelmente — de manobras ilegais para reforçar seus ganhos, como rachadinhas e funcionários fantasmas.

Submetidos ao espanto da incoerência — exposto pelos mesmos agentes do fenômeno que os alçou ao poder —, os Bolsonaro dobraram a aposta. Partiram para o ataque contra a direita enquanto abraçavam promiscuamente as forças que juravam destruir.

Toffoli e o centrão comemoravam seus avanços sobre o COAF, a Polícia Federal e a Lava Jato; Augusto Aras era alçado à PGR enquanto se estuprava o pacote anti-crime no Congresso. As manifestações, outrora principal ferramenta de pressão da direita, murcharam e perderam importância. Tornaram-se, em grande parte, pequenos cultos abertos ao governo, atos de demonstração pública de fidelidade canina.

Tal clima de derrocada — impensável para um governo recém-eleito num momento de recuperação econômica — aproxima-se de seu clímax às vésperas da denúncia do Ministério Público contra Flávio Bolsonaro. Este fato, determinante para os próximos passos de muitos agentes políticos, vem sendo acompanhado com atenção por parte do governo.

Temendo o esfacelamento da aura de “mito" do presidente, seu grupo palaciano percebe, com certa razão, a ascensão do ministro Sérgio Moro como liderança íntegra, intacta, que paira altivamente em meio a um clã político que insistiu em errar.

Moro não engoliu o juiz de garantias; não aceitou ser preterido por André Mendonça e Jorge Oliveira — ou ver seu legado da Lava Jato sendo esfacelado por Augusto Aras. Permaneceu em silêncio, leal, por tempo demais. Mas decidiu agir.

A recente polêmica envolvendo o presidente e seu maior ministro é parte ilustrativa do embate que envolve o lavajatismo e o bolsonarismo. Maculado pelas acusações contra seu filho, Bolsonaro não tem como vencer. É refém — antes de Moro — do próprio discurso. Só lhe resta, como abordei em artigo anterior, alardear os avanços econômicos de seu governo. Mas mesmos estes encontram-se ameaçados.

Desprovido da chama do apoio popular, Bolsonaro é apenas um governante afobado. O centro político, que controla o congresso, sabe disso. Ávido por ressurgir na candidatura de Huck, dosará — ou tomará para si — qualquer reforma, qualquer avanço institucional que passe pelo legislativo. Terá o governo como refém — quiçá hospedeiro — caso Bolsonaro precise de sua parceria. Não é uma boa notícia.

Moro, dentro ou fora, poderá aglutinar as forças políticas que nos trouxeram até aqui. Dependerá de uma capacidade de diálogo e articulação até agora não vistas no tabuleiro. O histórico recente nos mostra, porém, que o ministro sabe jogar. Tendo a paciência como virtude, cedo ou tarde tomará suas posições.

Mas e o governo, como fica? A despeito dos erros de Bolsonaro, o Brasil tem que andar. Com menos de 30 deputados e apoio decrescente nas redes, seria lógico imaginar que o presidente daria um freio de arrumação. E por que não? Poderia iniciar conversas — calcadas na humildade — com agentes do campo da direita que tanto atacou, mas que hoje o derrota em campo aberto. Não apenas por ser o certo a se fazer — mas porque ele já perdeu esta guerra.

Diante do conflito com Moro, não lhe faria mal abandonar os conselhos dos filhos e calçar as sandálias da humildade. Serão mais 3 anos de mandato. Ninguém em sã consciência torce por seu insucesso — nem mesmo Lula, ao menos em discurso... —, e  seria imprudente não batalhar por temas importantes como as reformas administrativa e tributária.

Mas não se ajuda quem não quer se ajudar. Bolsonaro precisa mudar. Não só para o bem do seu governo, mas de um país que, definitivamente, não tem mais o direito de errar.

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