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Bolsonaro quer vírus contra vacina
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O presidente Bolsonaro precisa do vírus para governar. Mais do que o Centrão, mais do que Artur Lira, mas que Wassef, o que Jair realmente quer consigo é um belo amontoado de RNA retirado de um pangolim, embalado na China e espalhado pelo mundo em velocidade recorde. É sua ideia fixa.

Este não é um texto alegórico. Falo aqui concretamente. Bolsonaro tem o vírus como aliado, e com ele trabalhou ao longo do último ano buscando duas coisas: crise — institucional, econômica, sanitária — e popularidade, mediante o conflito e ações populistas. Olhando em perspectiva, vemos que obteve sucesso; atingiu, ao final do último ano, seu melhor momento em todo o mandato. Por que haveria de ser outra a  causa de seu comportamento?

Entendo que alguns leitores poderão dizer que “não é nada disso, o Bolsonaro é incompetente”, algo que concordamos e não faço objeção. Os adeptos do capitão dirão que “está tudo bem”, que “o presidente só não faz mais pois o STF não deixa” e que “essas pessoas morreriam de qualquer forma”, tese sugerida também pelos microfones de aluguel imprensa afora. Destes porém, discordo nas premissas: negar o impacto da pandemia é negar cadáveres, ignorar caixões. Não à toa são teses proferidas, invariavelmente, por fanáticos políticos ou oportunistas irrecuperáveis. Jogo que segue.

É importante pontuar estas posições, caro leitor, posto que em tempos de pós-verdade, os fatos já não são tão fáticos assim. Trato o caso brasileiro como um dos piores do mundo — respeitando as quotas de responsabilidade de prefeitos e governadores. Trato o presidente da república, e seu combate sistemático ao combate à pandemia, como responsável maior no processo. E não ignoro que o atraso na obtenção e distribuição da vacina se tornou óbvio e patente quando comparado com vizinhos e nações desenvolvidas.

Bolsonaro está há um ano fazendo uso do vírus para bagunçar um xadrez onde, via de regra, ele perderia. As coincidências com Collor são muitas — ingovernabilidade, irascibilidade, falta de tato. Falta-lhe projeto, perspectiva de país. Em condições normais seria domado e entregue ao centrão — como acontece, em paralelo —, para uma lenta e gradual reabsorção pelo sistema.

O vírus, porém, surgiu como aliado. Primeiro para Paulo Guedes, o inoperante, que culpou o Covid pelo crescimento que não veio. Depois para Bolsonaro e sua ala ideológica, que perdiam discurso após um 2019 cheio de desilusões. Este grupo, crente na tese da “antifragilidade” de Bolsonaro, via na crise capacidade para crescer. Fizeram nela todas as apostas possíveis — negação do vírus, cloroquina, manifestações contra os demais poderes, sabotagem de ministros, briga com governadores —, obtendo saldo negativo em praticamente todas as disputas. Mas mantiveram uma parte significativa da população crente em todos seus absurdos. Obtiveram aí sua primeira vitória.

O Sucesso

O brasileiro minimizou a crise. Desconfiou do conhecimento validado. Tomou cloroquina, acreditou em conspirações, culpou a China, a Globo, a maçonaria. Bolsonaro instigou o vírus da desconfiança, reduzindo o tecido social a retalhos. Corrompeu a elite, comprou jornalistas, abriu o cofre pra financiar opiniões. Foi assim que manteve parte de seu eleitorado original; foi assim que enganou a combalida classe média. E ajudado pelo auxílio-emergencial — turbinado pelo congresso — descobriu a mina de ouro outrora administrada pelo PT: o estômago do brasileiro mais pobre. 

A fórmula entregue parecia alvissareira. “Tá tudo dominado!” já dizia um bolsojurista alçado a ministro. Nacos da Lava-Jato foram transformados em braço armado do presidente. Adversários foram atacados, governadores foram derrubados. Aparelhou-se a PF, a Abin, a PGR e o STF. Era proteção para Flávio e presente entregue aos aliados do Centrão. Ministérios e cargos choveram nas mãos do baixo clero; Bolsonaro se fazia de rebelde enquanto falava mansinho com as ditas “raposas”. E a aprovação disparou, propiciando turnê pelo nordeste e uma razão de ser para o presidente.

Jair finalmente alcançou o “povo”, como almejava Olavo. Não por uma “proximidade espiritual com o homem do Brasil profundo”, conforme imaginava o guru; mas sim pelo consumo artificial e sem controle via auxílio emergencial. Fez-se ali a tese eleitoral para embalar sua campanha: Bolsonaro traria dinheiro — e obras — para este homem-voto. Tal eleitor é coincidentemente controlado por seus aliados do Centrão, que se beneficiariam com cargos, estatais e emendas que contemplariam — alguém duvidava? — seus respectivos currais eleitorais. Eureca! Algum gênio encontrou a fórmula petista nas gavetas do Planalto. 

Não espanta que num cenário destes a vacina surja como empecilho. Implacável, dissolve narrativas, estabelece prazos, gera previsibilidade. E previsibilidade, amigos, é inimiga de Bolsonaro. Nota-se que o presidente, diante de alerta da Pfizer, de pesquisas científicas, de estimativas e cronogramas, nada fez de concreto para preparar a imunização dos brasileiros. Resumiu-se a desdenhar (leia-se sabotar) a Coronavac do Butantan; colocar Pazuello no ministério para distribuir cloroquina; incentivar aglomerações para entreter seu eleitorado. O presidente optou por um caminho, e isso devo salientar: FOI TUDO ESCOLHA CONSCIENTE DE BOLSONARO. Não há como falar em “erro” quando suas ações foram flagrantes, registradas em políticas governamentais e discursos nas redes. 

A luta contra a vacinação prosseguiu neste ano que se inicia, tendo no embate com João Doria seu momento mais ridículo. Mas não parou aí, cara pálida. O governo federal optou por brigar publicamente com a Pfizer, enquanto desdenha da Coronavac e torce para a chegada de insumos indianos. Israel — outrora “farol político” para Bolsonaro — já imunizou 40% da sua população. Não chegaremos nem perto disso ao final do ano. O presidente da república terá o país em crise que tanto desejou.

Com crise ele pilota a eleição de Artur Lira. Com Lira, rompe-se o teto — Guedes sabe disso — e voltamos com o auxílio. Bolsonaro turbina investimentos, ideia fixa de Tarcísio e do grupo militar. Também inaugura obras e cativa aliados do calibre de um Ciro Nogueira E o Brasil se arrasta, com dinheiro (de mentira) no bolso. 

Não faço suposições, caro leitor; tudo aqui já foi dito por aliados, planejado por ministros e publicado na imprensa. É (triste) fato consumado. O alfa e o ômega de suas ações e seu estratagema é a permanência do vírus, a vigência de uma crise que beneficia um administrador de caos.

Quando dizemos “Fora Bolsonaro”, nos posicionamos frontalmente contra um tipo de política que tem como premissa a aposta na morte, na doença e na desgraça. É arriscar a vida de um povo pra tentar reeleição. Não há como se calar diante disso. Ou se combate, como defendo, ou se nega, embalado por premissas exóticas. O muro vem se tornando cada vez mais difícil. É hora dos homens da república fazerem escolhas. Mesmo as piores possíveis.

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