É Kim contra a rapa
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Kim Kataguiri lavou a alma. Diria também que “lavou a égua”, mas ofender equinos talvez soe rude para os ruminantes. Então permaneço etéreo: de alma lavada, o brasileiro que rejeita bolsonaristas e petistas encontrou um discurso. E isso pode mudar tudo para 2022.

É fato consumado que o presidente da república conta com uma das oposições mais frouxas já vistas. O maior dos partidos — o dos trabalhadores — não é capaz de aglutinar o bloco da esquerda. Verdade seja dita, tornou-se problema para os progressistas. E se desgraça pouca não é bobagem (pra eles), seus concorrentes no setor, de Boulos a Ciro, não conseguem compor alternativa. Melhor pro Brasil.

Não podemos falar que Rodrigo Maia foi para Bolsonaro o pior dos presidentes da Câmara. O DEM, durante sua presidência, votou consistentemente com o governo. O então presidente da casa teve também atuação decisiva na aprovação da previdência. É certo que Bolsonaro saiu queimando o democrata, chamando-lhe de traidor, mas pergunto: quem o presidente não tratou com similar deferência? De Maia a Santos Cruz, de Moro a Bebianno, são todos traidores. O expurgo é a natureza da seita.

Seus oponentes mais óbvios no campo antipetista (não consigo chamá-los de direita) tampouco exercem o bom combate. Dória acerta na vacina mas erra na condução dos lockdowns; soa falso quando emocionado, desperdiça momentos importantes. É manequim perfeito para a caricatura governista. Moro, em processo de desconstrução, tem mais a se preocupar com o hacker lulista do que com uma candidatura cada vez mais incerta. E o Huck? É, tem o Huck também. Pois é.

A situação de Bolsonaro é tão única que seus poucos acertos são construídos por seus próprios opositores. O auxílio-emergencial que lhe turbinou a popularidade foi fruto de um acordo de Maia com a esquerda. Auxílio que retornará — novamente patrocinado pela oposição. A vacina, que ameniza a pandemia, avança a passos largos, mas é produzida pelo Butantan que Bolsonaro sabotou. E a luta pela impunidade de Calheiros e Lewandowskis — salvaguarda para o filho corrupto — termina por jogar lama em todo sistema político, como Bolsonaro gosta. O mito escreve certo por linhas tortas, dirão seus fiéis. Põe torta nisso. 

Por mais que seu governo não entregue, a continuidade desse equilíbrio sui generis é importante para o presidente. Mantendo-se as atuais premissas, o capitão de artilharia estará no segundo turno. Contra o PT, possível adversário, tem chances reais de vitória. É nessa esperança que se fia. E nessa estratégia que trabalha. Até por isso, topou bancar Lira — descaradamente — em manobra política tão vergonhosa quanto certeira.

Com Lira e auxílio, Bolsonaro volta seus olhos, novamente, para o nordeste maravilha que premiou o PT. Eleitor bom é aquele que recebe o benefício e fecha boca na hora de criticar. E não importa aqui se é boi angus da Faria Lima, fazendo fortuna na bolsa, ou boi magro e seco da caatinga, ávido por consumir. O que Bolsonaro não quer é o eleitor pentelho, que apeou Dilma do poder e lá o colocou, como protesto e esperança. 

Desarticular metade do Brasil, retirando-lhe discurso e alternativa, é ideia fixa do presidente. Tão logo Lira foi eleito, Bolsonaro veio a público acenar com a agenda de reformas que não virão e a pauta de costumes que tergiversa. São migalhas narrativas, mero entretenimento político. Bolsonaro quer iludir seu antigo eleitor até que o tempo seja exíguo, e as alternativas, nulas. É jogo inteligente, não nego. Mas perigoso até a medula.

Perigoso pois conta que o próprio setor ao qual fez parte — e traiu — nada faria diante de sua infâmia. Mas que faz, com cada vez mais contundência, mesmo diante da desarticulação tocada por Bolsonaro. São muitos os opositores dentre aqueles que lideraram o enfrentamento ao PT nos últimos anos. Destes, Bolsonaro roubou discurso, mas não a voz. E a voz que articula a insatisfação, quando acerta, faz estrago.

O discurso de Kim Kataguiri, antecedendo a eleição de Lira, ecoou em todo o país por articular os sentimentos desse Brasil que Bolsonaro quer ver calado. Hábil com as palavras, o japonês brilhou mais pela indignação sincera do que pelos (bons) argumentos apresentados. Fez-se grande por realizar o objetivo maior do bom orador: catalisar num discurso o momento de um povo, o espírito de um tempo. 

Kataguiri levou ao microfone os sentimentos desordenados de um eleitor que foi às urnas tomado de esperança em 2018. A série de frustrações decorrentes deste ato — enumeradas pacientemente pelo parlamentar — não foi perfeitamente digerida e compreendida pela massa de brasileiros que empenhou apoio ao capitão de artilharia. É como filhote de cachorro, que se afeiçoa pelo dono, para ser largado aos chutes, na rua, por aquele que prometeu amor eterno. É dor e raiva misturados. Que uma hora viram força política.

O discurso não se encerra na fala, mas se torna conduta. Por ser marcante, tem consequências. A oposição que realmente fere Bolsonaro não é a do petismo, que patrocina a impunidade, ou de um Felipe Neto, chorando cancelamento. É a do próprio eleitor. Cedo ou tarde, o discurso de Kataguiri será manifesto em lideranças, movimentos e alternativas. E delas, o presidente tem medo. 

As lideranças que compreenderem o discurso do japonês encontrarão caminho reto ao coração do eleitor. E a parcela da população traída por Bolsonaro passará a ter alternativa, esperança, horizonte. Eis aí o grande desafio para 2022. Espero pouco dos nomes já listados. Mas a bandeira está aí, pronta para ser erguida. Aguardemos então. Até lá, deixemos Kim contra a rapa. 

Jovem pra ser candidato, é veterano o suficiente pra constranger os covardes do governismo. Seja no parlamento, seja na imprensa adesista.

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