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O Camarão e descalabro
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Olá, leitor, espero que tenha tido boas festas. As minhas foram razoáveis — alguma carne, pouco camarão, chuva e documentários. Nada de extravagante; HotWheels apenas para o presidente. Mas já que estamos aqui, é hora de abordar um ano que já começou velho. Um 2022 de poucas esperanças, muitos erros e certezas. Um ano sem data pra começar. 

Pergunto-lhe, amigo patriota que ainda nutre esperança neste governo que rumina por aqui: como reage ao pacote de maldades ao pequeno empreendedor construído por Bolsonaro, PSOL e centrão nos últimos dias? O presidente poderia alegar as agruras do camarão para evitar a sanção ao projeto socialista que burocratiza os aplicativos de entrega no Brasil. Não rolou. Meteu o dedão, usou a Bic, expulsou a Uber Eats do país. Mitou.

Na mesma tacada, chegou à sua mesa um projeto do Senado que parcelava as dívidas tributárias de micro-empresários durante a pandemia. Projeto razoável, que manteria empregos, que faria com o pequeno o que já foi feito com o grande. O amigo leitor, que aqui me acompanha, já conhece o discurso de Bolsonaro. Sua campanha política, ao longo da pandemia, foi (supostamente) em prol dos “pequenos empresários”, que não teriam como manter seus negócios em meio ao abre e fecha dos governadores. Nada mais justo que o presidente, coerente com seu discurso, estendesse a mão para estes brasileiros, certo? Pois é…

Bolsonaro vetou. Vetou sem cerimônia, discurso ou live. No seco, como dizem no interior. Nas alegações, embasado pela sua AGU, afirmou que o projeto comprometeria as contas públicas, devendo, portanto, ser vetado. E ficou por isso mesmo. A massa de milhões de pequenos empresários, pêjotas, das mais diversas atividades — pipoqueiros, designers, cozinheiros, músicos, seguranças privados, técnicos de informática, todos — foram jogados de lado pois as contas públicas do senhor Paulo Guedes (aquele lá que ganha em dólar enquanto deprecia a própria moeda) precisam ser respeitadas.

Eu rio. Como é, meu amigo? De que contas públicas estamos falando? As contas já arrebentadas, arrombadas, alvo de tentativa forçada de destruição via “flexibilização do teto de gastos”? Ou as contas do orçamento secreto multibilionário, que bancam a farra do centrão em ano eleitoral? Seriam as contas das nossas forças armadas, comedoras de picanha e cerveja, ou da nossa Polícia Federal e seus aumentos que justificam greve e mamata na elite do funcionalismo? Estou perdido. De que conta falamos, em tempos de roubo no orçamento para Bolsonaro enfiar seu “Auxílio Brasil” goela abaixo do país? Ou do perdão eleitoral do FIES, para antecipar o que fora proposto por Lula?

A desfaçatez com que este governo trai o ideário que o elegeu é tamanha que as pessoas, anestesiadas, já nem percebem. Não há reação pois não há mais esperança. Perdeu emprego? Vira Uber. Não há Uber? Fica em casa — recebe um auxílio. A ausência de esperança gera um torpor moral, que se reflete na inação contra o atual governo e na aceitação, passiva, da alternativa que surge no horizonte — Lula —, o homem da picanha e das soluções fáceis.

As “contas públicas” de Paulo Guedes, arrombadas, motivaram uma queda abruta na Bolsa nesta última quarta-feira, mas desta vez o ministro não trabalhou sozinho: contou com a importante ajuda de seu antecessor Guido Mantega, o Pós-Itália, que cometeu um artigo na Folha de São Paulo sugerindo a revogação da Reforma Trabalhista e da PEC do Teto como soluções para resolver a crise Bolsonaro durante o provável governo Lula. Nada que é tão ruim não pode piorar, sabemos, mas chega a ser fofo assistir os temores de um mercado financeiro cúmplice do cenário de desastre. Eles que lutem. A gente que perde.

Não importa o cenário aventado, a classe média e a população economicamente ativa continuará a ser esfolada até que perca sua dignidade, valores e modo de vida. De um lado, o ataque oportunista do (resto de)governo Bolsonaro, que jogará a conta de sua irresponsabilidade no seu colo em busca do populismo que o reeleja; de outro, um Lula que tentará financiar seu novo governo através destas pessoas enquanto opera, através da cultura Woke, na dissolução de seus valores e perspectivas mais profundas. 

O que vem aí não é bonito. Há solução? Dizem, por aí, que tem uma terceira via. Procurei, procurei, e nada vi. No máximo, um camarão, crustáceo faceiro que polemiza na boca de Wagner Moura e no intestino do presidente. No meio do nada, já é alguma coisa. É como diz a canção: Camarão que dorme a onda leva. Qual onda vai levar em 2022?

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