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Comecei a trabalhar em uma época em que todo mundo fumava. Não havia qualquer restrição ao cigarro. Fumar já tinha sido considerado um hábito saudável e ainda era visto como um sinal de sofisticação.
Restaurantes e aviões tinham uma seção de fumantes. Como não havia nenhuma separação física entre essa área e o resto do avião, a fumaça se espalhava. Todos fumávamos. A primeira vez que fui aos EUA, minha poltrona era na primeira fileira da área de não-fumantes. Diante de mim, dezenas de cigarros ficaram acesos durante a viagem. Cheguei em solo americano sentindo tontura e enjoo de tanto fumar de segunda mão.
Nos escritórios, em geral, nem área de fumantes havia – o fumo era totalmente liberado. Devido à arquitetura peculiar do edifício-sede da Petrobrás, onde comecei a trabalhar em 1985, era comum que reuniões fossem realizadas em pequenas salas sem janelas e sem qualquer ventilação. Sempre havia fumantes. No final das reuniões, a roupa ficava impregnada de fumaça.
Para mim, as décadas de 1970 e 1980 cheiram a cigarro.
Quando começaram as proibições contra o fumo, achei ótimo. A liberdade de fumar foi ficando cada vez mais restrita: primeiro a áreas de fumantes, depois ao lado de fora dos prédios. O fumo sumiu dos aviões e sumiram também as propagandas de cigarro (eram excelentes; os anúncios do cigarro Hollywood eram os melhores).
Em poucos anos, por decisão estatal, o cigarro ficou estigmatizado.
Nascidos a partir do ano 2030 não poderão mais comprar carros e deverão caminhar um mínimo de dez quilômetros por dia. Quem pode adivinhar que decisões maravilhosas o Estado vai tomar em nosso benefício?
Essa semana, o governo britânico anunciou que vai proibir a venda de cigarros a pessoas nascidas a partir de 2009. Essas pessoas hoje têm 17 anos, mas a proibição valerá por toda a sua vida.
Por toda a vida.
Eu abomino o cheiro da fumaça de cigarro, mas detesto ainda mais os ataques à liberdade. A medida do Reino Unido é um ataque grave, de caráter totalitário. Não é difícil entender por quê.
Primeiro, ela criará duas classes de pessoas: as que podem ter acesso a cigarros e as que não podem. Imaginem o aparato estatal que será necessário para controlar uma restrição como essa. Depois, trata-se de uma óbvia violação da liberdade. Não cabe ao Estado decidir pela pessoa se ela deve fumar ou não.
É fácil enxergar quais serão as próximas decisões do Estado: pessoas nascidas no futuro serão proibidas de comer comidas salgadas, ou gordurosas, ou doces, ou de beber refrigerantes, ou de ler determinados livros ou de usar redes sociais.
Nascidos a partir do ano 2030 não poderão mais comprar carros e deverão caminhar um mínimo de dez quilômetros por dia. Quem pode adivinhar que decisões maravilhosas o Estado vai tomar em nosso benefício?
VEJA TAMBÉM:
O Reino Unido criou um precedente que poderá ser aplicado de qualquer forma que aqueles que controlam o Estado desejarem.
Há muito tempo o Reino Unido começou a transferir a responsabilidade das pessoas para o Estado, um processo denunciado pelo pensador e médico Theodore Dalrymple, especialmente em seu livro A Vida na Sarjeta. Há várias gerações de famílias britânicas que vivem dependendo inteiramente do Estado para comer, morar, se aquecer e se vestir. São pessoas cujas existências perderam o sentido e que procuram o significado perdido em promiscuidade, na bebida, no uso de drogas, no jogo ou na adesão a grupos terroristas.
A outra face do paternalismo estatal é o controle totalitário. A supervisão constante acompanha o cidadão em todos os seus momentos. Aqui no Brasil, o Senado aprovou o Cadastro Nacional de Animais Domésticos. Se você tiver um cão, gato ou periquito, será necessário cadastrá-lo, informando os dados do animal e seus dados também. Um anúncio dessa semana informa que o check-in em hotéis deverá ser feito, a partir de agora, usando-se a conta “GOV.BR”, que todo cidadão é obrigado a ter.
Ou seja: no dia em que você cair em desfavor com o governo, nem alimentar o seu pet ou se hospedar em um hotel você conseguirá.
Se o Reino Unido, terra da Magna Carta e da Revolução Gloriosa, está se tornando uma distopia totalitária – como George Orwell descreveu nos romances distópicos 1984 e A Revolução dos Bichos – que otimismo podemos ter em relação ao futuro?
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








