
– Sinto muito, mas você terá de mudar de rumo.
Não sem “um nó no peito”, professor Afronsius viu-se obrigado a pôr por terra o programa de um parente distante que veio de mais distante ainda só para “conhecer o jacaré do Barigui”. Ele e a família.
Para o turista, informou que o jacaré poderia ser visto, mas não no Parque Barigui. Mudou de endereço.
– O bicho foi recolhido em janeiro e levado para o zoológico de Curitiba.
– Mas, bah tchê, que pena…
O primeiro era maior
Depois de explicar que esse era o segundo jacaré do Barigui, com 1,70 metro, 120 quilos, contou que o jacaré que deu mais fama ao parque era outro. Foi capturado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente em 2009. Tinha 3,5 metros e pesava 350 quilos.
– Mas, bah tchê…
Depois de fornecer o “mapa” para o visitante chegar ao zôo, contou o episódio para Natureza Morta e Beronha.
E sobre jacarés, Natureza discorreu sobre o jacaré do Pantanal, um “animal que, como tantos outros, é pouco conhecido e, assim, vítima de desinformação e mal-entendidos”.
Para reforçar o que disse, acionou a Seção Achados&Perdidos, exclusiva do blog, que trouxe à baila parte de uma reportagem do Caderno Turismo, da Gazeta do Povo, dezembro de 2004, sobre o Pantanal. O jacaré – nunca confundir com crocodilo! – figura com destaque.
Lendas e fantasia
Cego e surdo, o coitado do Caimam crocodilus yacare – que pode chegar a medir até três metros – literalmente se defende com o que tem, o que não é muito para um ser destituído de visão e audição. Como explica o biólogo Guto Bertagnolli, o jacaré se orienta, ou é guiado, por vibrações.
Imaginar um jacaré saindo do rio, bocarra aberta, para escolher uma presa e iniciar implacável perseguição a uma pessoa é cena de cinema. Mau cinema.
Para chamar a atenção dos jacarés, seu Jair ou outros guias utilizam uma pequena vareta. Batem com ela no chão algumas vezes e eles começam a se aproximar.
Na hora de encher a pança, o jacaré mergulha no rio e, no sentido contrário da água, “enxerga” os cardumes pelas vibrações. É só esperar de boca aberta. As presas mais comuns são as piranhas, exatamente porque mais agitadas, provocando vibrações em maior escala.
Coitado do jacaré: com as heranças da pré-história, tem o couro, na parte superior, calcificado. Parece um pneu de caminhão – nos dois sentidos. De comestível, dispõe apenas do início da cauda, na área inferior.
Ecologicamente importantes, os jacarés fazem o controle biológico de outras espécies animais ao se alimentar daqueles mais fracos, velhos e doentes, que não conseguem escapar de seus ataques. Controlam também a população de insetos e dos gastrópodos (caramujos) transmissores de doenças como a barriga d’água (esquistossomose). As fezes dos jacarés, por sua vez, servem de alimento a peixes e outros seres aquáticos.
A espécie interage de uma forma intensa com todo o meio.
O jacaré-do-pantanal já esteve quase extinto. Campanhas de proteção e educação ambiental salvaram-lhe o couro.
Hoje, a população de jacarés é normal e todo o meio está equilibrado.
– Tal negócio, bicho feio é pior do que o mordomo. Não é nem suspeito, é bandido de cara – arrematou Beronha, nosso anti-herói de plantão, que se sente um lagartão. Ensaboado, mas lagartão.
ENQUANTO ISSO…




