
Para quem chegou agora, o pano de fundo: 1964, golpe civil-militar. Na visão do jurista René Ariel Dotti, instituiu-se no país “um direito penal do terror e dos processos utilizados contra os dissidentes ideológicos e todos quantos passariam a merecer o labéu de subversivo”.
Está na apresentação do livro Resistência Democrática – A Repressão no Paraná, de Milton Ivan Heller, 1988.
Em decorrência disso, entre 1964 e 1969 foram realizadas 2.726 detenções e 975 prisões no Paraná. Além de interrogatórios, invasões de domicílio, apreensão de objetos pessoais e repressão a manifestações públicas, segundo levantamento de Marion Brepohl de Magalhães, em A Lógica da Suspeição: Sobre os Aparelhos Repressivos de Estado à Época da Ditadura Militar, Revista Brasileira de História, São Paulo, número 34, 1997.
Um herói às avessas
Foi nesse campo altamente minado que, de repente, surgiu um líder sindical que não fugia à luta. Ou a entrevistas, sem temer os riscos. Volta e meia, lá estava ele, nas páginas do jornal O Estado do Paraná, defendendo os trabalhadores e descendo a lenha nos poderosos de plantão. Botando o dedo na ferida. Não se limitava, é claro, à questão dos sindicatos, o direito a paralisações de advertência e greves. Virou, como se dizia na época, uma pedrinha no sapato. “Elemento subversivo, nocivo ao bem estar comum”…
Ao mesmo tempo, ele era uma fonte repleta de informações de “cocheira”, como também se dizia na época, além de – inquestionável – ser uma pessoa bem humorada. Aliás, dá para medir o senso de humor pelo nome, que, bem pensado, já antecipava tudo: Antônio Arthur Arteiro.
Pois é, por conta do Arteiro, as chefias de redação sofreram um bocado.
AAE estava sempre à disposição até para o famoso “repercute”, tão necessário para a imprensa. Não raras vezes, as chefias foram “convidadas” a prestar esclarecimentos na Polícia Federal. Mas ninguém entregou o jogo. Pelo que consta. E o arteiro Antônio Arthur continuou na luta.
– Caçado pela polícia, amado pelas mulheres, eis dom Antônio Arthur Arteiro, o rei do taco – brincava ele, nas raras conversas com os amigos.
Levantando o véu (um pouco)
Mas, afinal, quem foi AAA? Ele não foi. Foi, ou era, pura invenção. Invenção de um certo jornalista que, com apoio de alguns (poucos) colegas do reportariado, ganhou corpo, voz e presença. Incomodou muito. Imbatível na informação e contra-informação. É, guerra é guerra. Como se tornou um “atuante e bem informado líder sindical”? Recebia informações, dicas e sugestões de vários advogados, principalmente trabalhistas. Tudo na surdina, evidentemente.
Até hoje, entre os que restaram do aparelho da repressão institucionalizada, e já são poucos, permanece no ar o desafio: quem era, que rosto tinha, o tal Antônio Arthur Arteiro? Silêncio. Respeita-se um pacto.
AAA simplesmente surgiu, cumpriu seu papel, não caiu e saiu de cena. Desapareceu sem deixar rastros ou vestígios.
Como diria Natureza Morta, recorrendo ao título de um filme:
– Sinais Particulares: Nenhum.
No original, Rysopis. Diretor, Jerzy Skolimowski. Polônia, 1964.
Pelo menos nisso foi um bom ano.
ENQUANTO ISSO…








