Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Samia Marsili

Samia Marsili

Adolescência

As tecnologias e os jovens

jovens e tecnologia
Os pais não podem blindar os filhos da tecnologia para sempre, mas a partir da adolescência podem educá-los para o uso responsável da internet. (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Já falamos longamente sobre os problemas do uso das tecnologias contemporâneas, e não só aqui nesta coluna, mas o tema vem se fazendo presente em cada vez mais discussões. Não era para menos: é preciso analisar o caso com seriedade, discutir o assunto e promover atitudes verdadeiramente efetivas, para preservar a nossa saúde, em todos os seus aspectos. Já é informação de domínio público que os celulares, tablets, videogames e, especialmente, os aplicativos de rede social, tenham sobre nosso cérebro um sério efeito deletério, semelhante aos de um vício em drogas. E isso tem consequências emocionais, de relacionamento, de desenvolvimento pessoal e acadêmico, e enfim, vital e espiritual. Literalmente, perde-se a vida nas redes sociais.

E quem já leu outros artigos meus neste veículo, ou quem acompanha meu trabalho nos demais meios, sabe quanto eu me empenho em frisar a necessidade de se afastar especialmente as crianças dessas interações. Se os adultos viciam-se e se perdem com a cara enfiada em seus smartphones, que diremos das crianças, que ainda nem tiveram seu sistema nervoso inteiramente desenvolvimento, tampouco seu “sistema espiritual”, quero dizer, que ainda não têm treinada sua força de vontade, a clareza de seus valores, a força autônoma da consciência? Remeto com atenção especial a texto de quatro anos atrás, “A gula da imaginação”.

Simplesmente, esses vícios são antagônicos à educação. Não surpreende que os magnatas das empresas de tecnologia deem a seus filhos tão somente os bons e velhos livros de papel (como foi flagrado já tantas vezes), e que alguns países já estejam notando o problemão que criaram e voltando para a escola simples com papel e lápis, como a Suécia, por exemplo.

Meu tema hoje, porém, é uma necessária nuance a essa discussão. Sem rodeios, os termos são os seguintes: viveremos, então, como os amish, sem nenhum contato com as tecnologias e isolados? Além de praticamente impossível, seria igualmente tolo e empobrecedor. Escuso-me de listar as maravilhas e as facilidades das novas tecnologias, e as benesses que podemos empreender com elas – entre as quais está o meu próprio trabalho, evidentemente. Logo, nossos filhos, em algum momento, terão contato com esses aparelhos e dinâmicas; nós não os privaremos disso para sempre. É algo semelhante, digamos, ao álcool: até mesmo adultos se perdem na bebida, e ela pode configurar um vício devastador. Entretanto, é um prazer lícito aos adultos quando moderado pela razão. Às crianças, seu uso é inteiramente vetado. E quando o jovem se torna adulto, quando pode ser-lhe permitido provar uma coisa “de adultos”? Que preparo é preciso ter sido feito, que educação é preciso ter sido dada a ele para que aprecie os prazeres lícitos da maturidade com verdadeira maturidade, e sem se perder? Eis aqui nosso problema com relação também às telas.

Nossos filhos, em algum momento, terão contato com esses aparelhos e dinâmicas; nós não os privaremos disso para sempre

Os filhos crescem. A infância vai cedendo lugar à “pré-adolescência” e, pouco a pouco, à adolescência de fato. Quando atingem 14 ou 15 anos, a relação com essa problemática se altera. A tecnologia não é mais somente um elemento externo do qual se pode manter distância: ela está profundamente integrada à vida social, escolar e cultural. Então, como introduzir essas tecnologias de modo responsável? A questão não se reduz a “permitir ou proibir”. Trata-se de compreender que a adolescência traz consigo uma nova etapa da formação: a passagem gradual da proteção direta para o exercício da responsabilidade.

Quando os adolescentes começam a sair sozinhos, por exemplo, o celular passa a ter uma utilidade prática evidente. Não é um entretenimento ou distração, mas um meio de contato. Além disso, os próprios vínculos sociais passam a envolver certas ferramentas tecnológicas. Grupos de mensagens podem servir para organizar trabalhos escolares, combinar atividades ou mesmo manter contato com amigos. E há também um aspecto cultural que começa a ganhar importância: certos filmes, por exemplo, deixam de ser apenas entretenimento infantil e passam a fazer parte de um repertório comum de referências culturais. Muitas conversas entre jovens, e mesmo entre adultos, partem dessas referências compartilhadas. Nesse sentido, alguns filmes passam a ter valor formativo, desde que assistidos com critério. E esta palavra é, a bem dizer, a chave de tudo: critério.

A maturidade que começa a florescer na adolescência já permite iniciar um tipo de diálogo que não seria possível com crianças menores. O jovem começa a desenvolver capacidade de análise, discernimento e julgamento moral. Isso abre espaço para uma nova forma de educação: não apenas a proteção, mas a formação do olhar crítico. Recordo uma experiência concreta que ilustra bem essa transição. Em certa ocasião, durante uma viagem a Portugal com os meus filhos, ficamos hospedados em um hotel na Ilha da Madeira. Era uma situação um pouco diferente da rotina habitual: cada um estava em um quarto, e naquele momento fiquei apenas com o meu filho mais velho, que tinha então 12 anos, e com o bebê. Aproveitei aquela circunstância para propor algo simples: assistir juntos ao filme Shrek. Mas fiz um pedido antes de começarmos. Disse a ele que gostaria que assistisse ao filme com um olhar crítico. Era um pequeno gesto educativo, mas significativo. Naquele momento ele já não era mais uma criança pequena; estava entrando na pré-adolescência. Era hora de começar a perceber que crescer significa também aprender a julgar aquilo que se vê.

VEJA TAMBÉM:

Assistimos ao filme e, ao final, conversamos a respeito. A conclusão do meu filho foi bastante clara: embora fosse um filme divertido, havia ali elementos que não seriam adequados para crianças menores. Aquela simples conversa abriu espaço para refletirmos juntos sobre por que ele podia assistir naquele momento, e por que seus irmãos menores não deveriam assistir ainda. Esse tipo de diálogo torna-se cada vez mais viável quando os filhos crescem. Já que, nessa nova fase, já não se trata apenas de dizer “pode” ou “não pode”, mas de explicar os motivos.

E pode-se, ademais, acessar algum conteúdo ou peça de arte, como um filme, por exemplo, sabendo previamente que partes se deve pular. E isso não significa tratar os adolescentes como crianças, pois até mesmo nós, adultos, podemos e devemos ter esse cuidado: não devemos nos expor a algo que é explícito ou inapropriado. E os filhos mais velhos, nessa fase, já são capazes de compreender essa lógica. Conseguem perceber que o problema não é o filme em si, mas certos conteúdos específicos. E conseguem também entender que a decisão de pular determinadas partes não nasce de uma proibição arbitrária, mas de um critério moral.

Pois bem, a introdução da tecnologia na adolescência precisa caminhar nessa direção: não como abandono da orientação, mas como aprofundamento dela. Continuamos sendo guias e educadores daqueles nossos filhos, mas acompanhando o seu próprio crescimento, portanto levando em conta, numa nova fase, as suas novas necessidades e capacidades. Assim como lhes ensinamos gestos novos em fases novas, como comer ou escovar os dentes sozinhos, agora nós lhes ensinaremos a selecionar, moderar e filtrar as interações com a tecnologia e com os conteúdos que ela veicula. E isso é progressivo, como todo treinamento: nosso filho não deve, de um instante para o outro, ficar totalmente livre. Em minha casa, por exemplo, meus filhos passaram a ter contato com o computador por causa das aulas on-line. Mas foi sempre um acesso restrito e acompanhado: estávamos presentes para orientar, explicar, observar. Se precisavam fazer alguma pesquisa, geralmente estávamos por perto para ajudá-los. Isso permitia algo muito importante: ensinar como pesquisar. Afinal, o verdadeiro problema da internet em geral não é apenas a quantidade de informações disponíveis, mas a dificuldade de discernir o que é confiável do que não é – de novo, critério.

A questão não se reduz a “permitir ou proibir”. Trata-se de compreender que a adolescência traz consigo uma nova etapa da formação: a passagem gradual da proteção direta para o exercício da responsabilidade

O mesmo vale, mais recentemente, para a problemática atualizada da inteligência artificial. É preciso mostrar-lhes que as respostas fornecidas por essas ferramentas nem sempre são confiáveis, e que a inteligência humana – a inteligência natural – é quem precisa estar no comando, operando a inteligência artificial como uma ferramenta. Deve estar claro que essas tecnologias não são sinônimo, e jamais substituirão, a verdadeira aquisição de conhecimento, que é próprio das pessoas – das pessoas que falam, e que escrevem seus próprios livros. Nenhuma ferramenta substitui o estudo real. Para utilizar qualquer tecnologia com inteligência, é preciso já possuir um certo conhecimento prévio. Quem entra nesses ambientes de forma ingênua corre o risco de aceitar qualquer informação como verdadeira. Por isso insistimos sempre que, antes de recorrer à internet, eles buscassem primeiro os livros.

Enfim, a pergunta central, que cada pai e mãe se fará no contexto de seu próprio lar, e conhecendo cada um de seus filhos: quando é o momento adequado para introduzir certas tecnologias, especialmente o celular pessoal?

A adolescência será então – como sempre foi – uma fase de conquista gradual de autonomia. Desde muito cedo, a vida da criança é marcada por pequenos ritos de passagem que simbolizam esse crescimento. Quando deixam a fralda e passam a usar roupa de baixo, fazemos uma festa: “Agora você cresceu!” Quando começam a comer sozinhos, compramos talheres novos. Quando trocam o prato de plástico pelo prato de louça, quando deixam a mamadeira e passam a beber no copo, quando saem da banheira para tomar banho no chuveiro... – cada uma dessas etapas é celebrada como um sinal de maturidade. Mais tarde, vêm outros marcos: sair do berço para dormir na cama, começar a usar uniforme escolar, carregar a própria mochila, fazer o dever de casa. Há uma satisfação visível nesses momentos: a criança percebe que está crescendo, que novas responsabilidades lhe são confiadas. Na escola também existem esses sinais de progresso: deixar o lápis e começar a usar a caneta; passar da educação infantil para o ensino fundamental, depois para o ensino médio, com mudanças de ambiente. Todos esses gestos, aparentemente simples, têm um valor simbólico profundo: mostram à criança que a sua liberdade está crescendo.

Em algum momento surgem também as primeiras saídas sem os pais. Dependendo da cidade, isso acontece mais cedo ou mais tarde. Em lugares como o Rio de Janeiro essa autonomia costuma ser limitada pela própria vida urbana, que desencoraja longos deslocamentos a pé. Mas chega o momento em que os filhos começam a fazer pequenas coisas sozinhos: chamar um carro por aplicativo, ir à missa por conta própria, deslocar-se para a escola sem acompanhamento direto. São passos graduais de autonomia. E, dentro da realidade contemporânea, o celular acaba se tornando, não há saída, um símbolo material dessa nova etapa. Em outras épocas, esse símbolo poderia ser outro: receber a chave de casa, começar a andar de ônibus, ter uma pequena quantia de dinheiro próprio. Mas hoje, muitas vezes, é o celular quem cumpre essas funções. Ele permite chamar um transporte, pagar algo com cartão digital, entrar em contato com os pais, resolver pequenas necessidades do dia a dia.

VEJA TAMBÉM:

No nosso caso, o primeiro celular chegou quando meu filho mais velho tinha 15 anos. A decisão não surgiu de uma pressão insistente da parte dele, como muitas vezes se imagina, mas de uma situação prática. Ele havia começado a frequentar um treino de futebol em que ficava algum tempo sem a nossa presença direta. Meu marido o deixava lá e depois voltava para buscá-lo. Conversando sobre isso, pensamos que talvez fosse prudente que ele tivesse um celular para emergências. Se algo acontecesse, ele poderia entrar em contato conosco ou pedir ajuda a algum adulto conhecido que estivesse por perto. Mas este é o ponto principal: quando entregamos o celular a ele, fizemos questão de apresentar o gesto da maneira correta, como um voto de confiança acompanhado de responsabilidade. Afinal, a educação não tem como objetivo manter os filhos eternamente sob proteção absoluta. A finalidade é prepará-los para a vida real. E a adolescência é justamente o momento em que começa a surgir uma nova exigência: a exigência da liberdade acompanhada pela responsabilidade. Enquanto são pequenos, os filhos dependem quase inteiramente das decisões dos pais; somos nós que escolhemos por eles, que delimitamos seus passos, que protegemos seus caminhos. Mas chega um tempo em que isso precisa começar a mudar. Aos poucos, a liberdade se alarga, e, com ela, deve crescer proporcionalmente também o peso da responsabilidade pessoal.

Somos a primeira geração de pais que precisa educar os filhos em um mundo dominado pelas telas. Os nossos próprios pais não tiveram de enfrentar esse problema, e, por isso, não puderam nos preparar para ele. Muitos de nós crescemos em casas onde a televisão ficava ligada sem grande critério, sem filtros muito claros sobre o que assistir ou não assistir. Aquela era a tecnologia dominante, e parecia relativamente inofensiva. Hoje vemos que não era, e sabemos também que a situação atual é diferente e mais grave. Mas a tecnologia faz parte do mundo em que vivemos, e não faria sentido tentar isolar os filhos dela completamente. Sejamos nós a ensinar isso a eles, inclusive sendo antes bons exemplos de autocontrole e discernimento, modelando o tempo e a modo dessa primeira interação.

Quando chega esse momento, é importante explicar claramente ao filho: “Até aqui, nós fizemos o possível para educá-lo e ajudá-lo a crescer com responsabilidade. Agora essa responsabilidade começa a ser testada. Vamos confiar em você”. Essa confiança precisa ser explícita. O filho precisa perceber que aquele novo grau de liberdade não é um presente gratuito, mas uma aposta no seu amadurecimento. Ao mesmo tempo, também é necessário deixar claro que a autonomia cresce junto com a responsabilidade. Quanto mais ele demonstrar maturidade, mais liberdade receberá. Mas, se a confiança for quebrada, talvez seja necessário recuar alguns passos. Quando essa conversa é feita com serenidade e clareza, ela costuma provocar um efeito muito bonito: o desejo de corresponder à confiança recebida.

Ars longa, vita brevis, ainda haveria muito a dizer. Se possível, retomarei o assunto na próxima oportunidade, para aprofundá-lo, como uma abordagem positiva e educativa do problema das tecnologias.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.