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O segundo e último debate entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), exibido na noite desta sexta-feira (23) pela TV Globo, representou o último grande confronto dos candidatos à Presidência antes das urnas. A tensão marcou o duelo, sobretudo para Lula, que busca a reeleição e quer evitar o fim do ciclo político.
O debate derradeiro de Flávio e Lula foi marcado pelo esforço do presidente em desqualificar o rival. Na mão inversa, o candidato da direita expôs em perguntas e respostas o legado trágico da quinta gestão petista (somadas as 3 de Lula com as 2 de Dilma Rousseff).
Apesar do esforço de Lula de elencar supostos feitos e tomadas de providências para equacionar suas próprias falhas, coube a Flávio desmontar escaramuças. Contra ditos feitos e promessas, o presidenciável do PL expôs o drama cotidiano.
Filas em hospitais, prateleiras de supermercados com preços elevados, medo de circular nas ruas. O retrato pintado pelo desafiante da oposição deixou Lula sem argumentos sólidos para rebater.
Para o eleitor, mais do que a troca de posturas entre candidatos com ou sem gravata, em relação ao debate anterior, ficou o choque de discurso e prática. “A esperança virou ilusão”, resumiu Flávio.
Contenção funcionou só na superfície
A Globo montou formato de debate capaz de conter agressões e forçar a discussão de temas relacionados aos desafios do país. Foram feitos apelos prévios à participação dos candidatos, para que tivessem desempenho "de alto nível", temendo excessos. A contenção funcionou só na superfície.
Com voz rouca, Lula tentou mostrar despreparo do "jovem" Flávio e colocar-se como realizador sem precedentes. De forma assertiva, Flávio rebateu afirmações do presidente e as confrontou com dados sobre o cotidiano de cidadãos, do custo de vida, da carga tributária e da burocracia.
Lula também voltou a impingir a Flávio uma imagem de elitista e de inimigo dos benefícios sociais e das aposentadorias, movido por um suposto ajuste fiscal draconiano. Flávio criticou os questionamentos do petista calçados em "fake news" e ainda apontou ausências do governo Lula, que pretende superar se eleito.
Logo ao chegar ao estúdio, Lula deixou claro que o debate serviria para "ganhar as eleições", fazendo referência a Flávio como "miliciano", o que reiterou nos últimos dias na estratégia de desconstrução do rival. Já Flávio procurou mostrar-se com postura menos descolada com relação ao primeiro debate.
"Pergunte ao Google" se tornou "mantra" de Lula no debate
Reflexo do treinamento para o debate, Lula respondeu à maior parte das perguntas de Flávio relacionadas a dificuldades das administrações petistas com "pergunte ao Google" e "você não conhece o Brasil". Flávio descreveu esse recurso como fraqueza, além de sugerir confusão do petista.
Em diferentes momentos, ambos os candidatos procuraram comparar posturas e feitos das administrações do PT e do PL. Flávio não conseguiu deixar de provocar o rival com ironias, nem Lula abdicou da arrogância, cobrando respostas para perguntas que supostamente causariam embaraço.
Para tentar firmar uma diferença de posicionamento em relação a Flávio, Lula apelou para descrever sua origem humilde e operária como um motivo para priorizar políticas sociais. Flávio rejeitou a pecha de grã-fino e ainda sublinhou ineficácias, com aumento da violência e da população de rua.
Lula tentou culpar a independência do Banco Central (BC) pela explosão da dívida pública em seu governo, insistindo na tese de que o equilíbrio fiscal só será alcançado com desenvolvimento econômico puxado pela gastança pública. Coube a Flávio recolocar os princípios macroeconômicos.
Primeiro debate já tinha exposto a crescente tensão, que foi às ruas e redes
A volta às urnas no próximo domingo (25) escolherá não só o chefe do Executivo, mas quem enfrentará a deterioração fiscal que ameaça investimentos e serviços públicos. O risco de colapso exige respostas além dos slogans: conter a dívida, recuperar a confiança e negociar reformas em ambiente internacional instável.
A eleição definirá também quem indicará ao menos três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) até 2030, com a aprovação do Senado, projetando efeitos muito além do mandato. Da relação entre os Poderes dependerá a superação ou a piora de impasses institucionais que travam decisões e fomentam a polarização.
O confronto da TV Band, na semana passada, deixou no ar troca de acusações de corrupção, agressividade e pouco espaço para propostas. A mobilização digital ampliou cada ataque e fez do debate uma fábrica de recortes. O desafio passou a ser convencer eleitores indecisos, além de apenas inflamar os já convertidos.
A campanha de Lula apostou no medo de perder benefícios e aposentadorias para elevar a rejeição a Flávio. Também o associou ao crime. Já a campanha de Flávio intensificou o foco na segurança e os atos de rua, batizados de "Bloquinho 22", liderados pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e outros.
Os últimos dias de campanha
Para Flávio, o período serviu para mobilizar apoiadores, ocupar ruas de diferentes regiões e seguir rebatendo a desinformação do adversário. Já apoiadores de Lula procuram converter o temor da derrota em energia para a difícil virada.
O clima de tudo ou nada revela quanto a esquerda vê ameaçada sua permanência no comando do país. O desafio de abrir sigilos agregou teatro à reta final, pois autorizar acesso não equivale a divulgar documentos. Uma derrota pode acelerar a crise de sucessão do PT e expor sua dependência do líder.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




