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Candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao seu sétimo e último pleito presidencial sob condições adversas inéditas. Aos 81 anos na data da votação, o petista enfrenta o desgaste de um terceiro mandato sem marca positiva clara e alvejado por novos e ruidosos casos de corrupção.
Mas a tradicional vantagem do incumbente está também sendo relativizada pela combinação de outros fatores. Entre eles estão: desaprovação recorde da gestão, percepção de promessas não entregues, alta da violência urbana e desconforto geral com a carestia e o endividamento histórico das famílias.
Lula ainda sucumbiu à armadilha que ele próprio armou ao investir em uma polarização permanente com a direita, liderada pelo seu antecessor Jair Bolsonaro (PL). Com o ambiente mais polarizado que o de 2022, ele afastou potenciais apoios de centro e ajudou a fulminar os planos de terceira via.
Assim que Gilberto Kassab, presidente do PSD, definiu que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, seria o candidato da legenda, houve uma enxurrada de análises sobre o desaparecimento de opções ao duelo entre direita e esquerda. O eleitor tende a antecipar apostas e desconfia de meio-termo.
Caiado entrou na disputa mirando o eleitorado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolhido pelo pai para representar a direita. Nos últimos dias, o governador Caiado reforçou essa intenção ao firmar acordo com os Estados Unidos sobre terras raras e defender anistia irrestrita aos presos do 8 de Janeiro.
Com o tabuleiro armado, Lula já se preocupa com um cenário de segundo turno formado pela maior frente antipetista da história, engrossada pelos candidatos de direita que vão combatê-lo na campanha do primeiro turno. Nomes ditos de terceira via, como Simone Tebet em 2022, sumiram de vez.
Essa ampla coalisão que se desenha já na pré-campanha vinha se nutrindo do movimento de gradual afastamento do centrão do Palácio do Planalto e da repulsa do mercado financeiro com a possibilidade do Lula 4, alimentada pelo colapso das contas públicas previsto para 2027 em razão da farra fiscal.
Para completar, o sentimento moralizante despertado na Operação Lava Jato voltou nos últimos meses, no embalo do escândalo financeiro e institucional do Banco Master, que atingiu em cheio as cúpulas de Executivo e Legislativo e carimbou descrédito sobre o Supremo Tribunal Federal (STF).
Além de ver a imagem sofrer com o desgaste do Judiciário, com o qual o público vê parceria, Lula enfrenta a fadiga de material político do petismo, agravada por ruídos na relação com setores relevantes, como evangélicos. Nem a tentativa de sanar danos com expansão de gastos populistas ajudou.
Do outro lado, Flávio emerge como desafiante de Lula mais competitivo do que o cálculo político do centro e da esquerda apontavam, operando como herdeiro político direto de Jair Bolsonaro. A transferência de capital eleitoral rápida e eficaz fez a disputa ser a revanche indireta do confronto de 2022.
Mesmo sem ter o carisma do pai, Flávio avança amparado por uma base conservadora organizada e reinante nas redes. O estilo moderado ampliou o diálogo com grupos políticos, armou palanques e atraiu quem antes girava em torno do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Neste fim de semana, esvaziam-se de vez especulações de divisão na família Bolsonaro, estimuladas por setores do centrão e do mercado com alguma esperança de ainda viabilizar Tarcísio. Com a largada dada, atenções se voltam para a definição do vice na chapa de Flávio e os ataques da esquerda.
A tendência de crescimento da direita e centro-direita havia se manifestado nas eleições municipais de 2024, mas o pleito nacional submete a dinâmica à polarização. Com isso, a fragmentação se reduz com o pragmatismo do eleitor, empurrando candidaturas para a convergência tácita contra Lula.
Na concertação contra o PT, seja por afinidade programática ou por mero desejo de poder, nomes como o ex-governador e presidenciável Romeu Zema (Novo) e outros poucos postulantes que orbitam a direita, tendem ao alinhamento no momento decisivo, algo já declarado em público por todos.
Há sinais de pacto de cavalheiros para que críticas duras se concentrem no presidente, preservando pontes para o segundo turno. Ainda assim, Caiado busca se diferenciar de Flávio, alegando ter mais experiência e ser o arauto da pacificação nacional, em contraste tanto com Lula quanto Bolsonaro.
A tentativa de construção da terceira via, liderada por figuras como Kassab, fracassou diante da força gravitacional da polarização. O próprio humor dos eleitores mostrado em pesquisas tirou espaço para alternativas de centro. O resultado é um campo de batalha mais binário, entre polos já conhecidos.
Nesse cenário, a esquerda amarga o peso da escassez de líderes. A excessiva dependência desse campo político com a figura de Lula impediu surgimento de sucessores viáveis. A direita do país, por sua vez, mesmo com conflitos internos expostos em público, segue a tendência mundial de crescimento.
A configuração aponta para eleição dominada menos pela convicção e mais pela rejeição. Vencerá não necessariamente quem mobiliza mais apoio, mas quem enfrenta menor resistência. Lula, pela primeira vez, vai encarar uma frente adversária ampla, coesa e estrategicamente orientada contra o PT.
Curiosamente, Caiado e Lula se reencontram na mesma arena eleitoral 37 anos após a primeira eleição presidencial pós-redemocratização. Naquele momento, ambos inauguravam uma era política. Agora, ao voltarem a se enfrentar, podem também encerrar juntos os respectivos ciclos políticos.









