

Delegado Luiz Alberto Cartaxo
Lembremos o começo da história: um casal de estudantes é atacado por um homem armado durante um passeio no Morro do Boi, em Matinhos, em janeiro deste ano. Aos bombeiros, primeiros a fazer o atendimento do crime, Monik Pegorari de Lima teria contado que, no meio da trilha, um homem os abordou e teria tentado abusar sexualmente dela. Osíris Del Corso tentou defender a namorada e morreu após levar um tiro no peito. A moça foi atingida por um tiro nas costas e ficou caída no local, enquanto o agressor fugiu. Depois de um tempo, segundo relatos da própria vítima aos bombeiros, o agressor voltou até o local do crime e a violentou. A jovem esperou por 18 horas na mata até ser resgatada. O criminoso não teria roubado nada.
Dois meses antes, Rachel Maria Lobo de Oliveira, 9 anos, foi encontrada morta dentro de uma mala deixada na Rodoferroviária de Curitiba. O assassino nunca foi encontrado. A impressa cobrava o assunto diariamente, principalmente após uma patuscada da polícia ao anunciar um suspeito que, logo depois de preso, foi solto por não ter DNA compatível. Informações que não chegaram a ser divulgadas, e que não são necessariamente verdadeiras, davam conta de pessoas conhecidas da menina, mesmo tendo semelhanças físicas com o retrato-falado, que nem sequer foram procuradas durante a investigação.
Pressionada, a polícia tinha dois grandes crimes para resolver. E nenhum suspeito preso. Este era o ambiente quando Luiz Alberto Cartaxo Moura assumiu o comando das investigação do crime do Morro do Boi. Ao contrário de como foi conduzido o processo da morte de Rachel, quando o Cope deixou de passar informações para a imprensa, Cartaxo achou por bem fazer uma série de coletivas para informar o andamento do processo. Bom para a sociedade, que poderia acompanhar mais de perto as investigações. Bom se não ficasse evidenciado uma série de desmentidos que jogou suspeita sobre a qualidade dos trabalhos da Polícia Civil do Paraná.
Nas entrevistas começaram a aparecer as contradições. Enquanto o hospital que prestava atendimento afirmava que Monik levou um tiro, a polícia dizia que foram vários. Dias depois, prende-se o primeiro suspeito de ter estuprado a estudante. O exame de DNA não batia, não foi encontrada a arma e nenhum objeto das vítimas. Mas Monik reconheceu de pronto o algoz. Mudou-se então a versão dos fatos. A estudante não teria sido mais estuprada, foi molestada (o que explicaria o motivo pelo qual não teria sido contaminada por HIV, Hepatite B ou C, doenças que supostamente porta o atual acusado). Uma camiseta manchada com sangue foi encontrada no local. Monik não tinha dúvidas de ter visto o criminoso com as vestes. Depois de o resultado do DNA dar negativo, não se tinha mais certezas nem sobre a roupa, a menina pode ter se confundido por causa do alto estresse. Entende-se perfeitamente.
A eficiência da polícia também foi posta à prova pelo pedaço de tecido. Imagens da TV mostraram toda a técnica empregada: com um canivete corta-se um pedaço da camiseta e esfrega-se na cara do cão farejador (este fez um bom trabalho). Todo aquele procedimento de saquinhos e luvas para não contaminar as provas que vemos no cinema parecia ser coisa de ficção. Exímio trabalho desnecessário, pois já não se tinha mais certeza se o bandido realmente usava a tal roupa no momento do homicídio.
Outra novidade: houve latrocínio. Sim, mesmo o delegado afirmando com todas as letras que nada havia sido roubado. Agora, lembrou-se, R$ 90 foram levados do estudante morto. Os mais céticos começaram a duvidar se as provas não estavam sendo descartadas justamente para que o suspeito se enquadrasse no crime. Quando o certo, supõe-se, deveria ser o oposto. A imprensa foi proibida de falar com o acusado.
A polícia concluiu o inquérito. O Ministério Público ofereceu denúncia, prontamente aceita pela Justiça. O que não se esperava era que um outro homem, que morava nas proximidades do Morro do Boi e foi preso por um outro estupro, confessasse o homicídio, ou latrocínio, de Del Corso. Para piorar, foi encontrada a arma que foi usada para fazer os disparos contra o casal, garante a perícia. E a semelhança física com o retrato-falado é quase inegável.
Cartaxo continua afirmando que não houve erro. Que não houve lambança. Espera-se que seja verdade. Espera-se que, no final, a Justiça condene o verdadeiro assassino. Que o governo indenize as pessoas presas por equívocos, se assim provado. Espera-se que a polícia tenha feito um trabalho científico primoroso e que a prisão do outro criminoso, que matou a menina Rachel, seja apenas uma questão de tempo e não uma questão de despreparo policial.
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