
Ouça este conteúdo
Quando o filósofo Jürgen Habermas faleceu, em 14 de março, vários obituários registraram um episódio que poderíamos considerar um marco na vida intelectual alemã deste século: seu debate de janeiro de 2004 com o então cardeal Joseph Ratzinger, à época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e que depois seria eleito papa com o nome de Bento XVI. Os mais novos talvez não se lembrem, mas houve um tempo em que duas pessoas com posições antagônicas eram capazes de se sentar e discutir um tema sem interromper o outro o tempo todo levantando a voz, nem se preocupando com frases de efeito para garantir o corte no Instagram.
Eles se encontraram em Munique, na Academia Católica da Baviera, a convite de seu diretor, Florian Schuller – que depois organizaria as intervenções dos dois pensadores, publicadas (inclusive no Brasil) sob o título Dialética da Secularização. É um livrinho curtinho, que você vai demorar apenas umas poucas horas para ler – e muitos dias para absorver. O tema do debate eram as “bases morais pré-políticas de um Estado liberal”, ou seja, não era e nem foi uma conversa sobre ciência. Mas, se estamos mencionando esse debate no Tubo, é porque a ciência acabou fazendo uma breve participação especial na intervenção do cardeal Ratzinger, e de uma forma que ressoa até hoje.
Logo no início de sua fala, Ratzinger fala do desmantelamento das certezas éticas em que as sociedades (especialmente a ocidental) se fundavam, e que permaneciam sem resposta perguntas como “o que é o bem?” e “por que esse bem deve ser praticado, mesmo em prejuízo próprio?”. O cardeal cita brevemente a ideia de um “ethos mundial”, mas não se detém sobre ela; interessa-nos mais o que ele diz a seguir, que “me parece óbvio que a ciência como tal não é capaz de produzir um ethos, ou seja, uma consciência ética renovada não surgirá como fruto de debates científicos” (uma ideia, aliás, com que Habermas concordava). O desenvolvimento científico pode ter desmontado certezas, mas é incapaz de construir outras novas – ao menos não desse tipo de certezas, que respondam àquelas duas perguntas.
“A ciência como tal não é capaz de produzir um ethos, ou seja, uma consciência ética renovada não surgirá como fruto de debates científicos.”
Cardeal Joseph Ratzinger, em debate de 2004 com Jürgen Habermas
Com essa pequena frase – que nem está no centro da argumentação que Ratzinger desenvolverá sobre o tema do debate –, o cardeal busca colocar a ciência em seu lugar e recusar a pretensão cientificista. A ciência é descritiva, mostra como o mundo é e funciona, mas não é prescritiva, no sentido de ser fonte de determinações morais ou de dizer como devemos agir. E isso nos leva diretamente ao período recente da pandemia, em que ouvimos inúmeros bordões que colocavam a ciência em uma posição de quase infalibilidade. Como afirmou o então diretor do Observatório Vaticano, Guy Consolmagno, em artigo de 2022 na Civiltà Cattolica, “‘confie na ciência’ não propõe apenas a ideia de que a ciência seja um caminho confiável para a verdade, mas sugere que ela seja o único caminho confiável”.
O que vimos no período da pandemia foi justamente a aplicação da pretensão cientificista de transformar os dados científicos em preceitos morais. Lockdowns, passaportes de vacina e outras medidas eram a concretização dessa pretensão. Opor-se a elas, independentemente dos argumentos usados, era pedir para ser tratado como “negacionista” e adversário da ciência, do bom senso, da humanidade, sabe Deus mais do quê. Mas a Covid foi apenas um desses episódios, talvez o mais radical, dessa ambição que Ratzinger refuta no debate e Consolmagno critica em seu artigo – o jesuíta não economizou, por exemplo, na menção a cientistas como Neil DeGrasse Tyson, que “tem opinião sobre quase tudo e sente a irresistível necessidade de compartilhá-la nas mídias sociais, independentemente do quanto ela esteja distante do seu campo de estudo”.
VEJA TAMBÉM:
Ratzinger termina essa parte de sua intervenção traçando os limites entre a ciência e a filosofia. Com
“o desmantelamento de antigas certezas morais (...) sobrou apenas a responsabilidade da ciência pelo ser humano enquanto ser humano e, sobretudo, a responsabilidade da filosofia de acompanhar de forma crítica as ciências singulares, denunciando conclusões precipitadas e certezas aparentes sobre o que é o ser humano, de onde vem e para que existe, ou, em outras palavras, eliminando o elemento não científico dos resultados científicos com os quais não raramente se confunde, para manter aberto o olhar sobre o todo, sobre as demais dimensões da realidade humana, da qual as ciências só podem mostrar aspectos parciais.”
Esse trecho da confusão entre “resultados científicos” e o “elemento não científico” ainda me recorda um trechinho do “testamento espiritual” de Bento XVI, redigido em 2006 e divulgado pelo Vaticano após o falecimento do papa emérito, em 2022. No texto, o pontífice escreveu: “Vi as transformações das ciências naturais desde tempos remotos e pude constatar como, ao contrário, tenham desaparecido aparentes certezas contra a fé, demonstrando-se ser não ciência, mas interpretações filosóficas somente aparentemente incumbentes à ciência” (destaque meu). Essa confusão é bastante conveniente para os cientificistas, mas daninha para todo o resto da sociedade.
Sudário: Pesquisador brasileiro responde a sindonologistas
Na coluna passada, publicamos uma réplica dos sindonologistas Tristan Casabianca, Emanuela Marinelli e Alessandro Piana ao brasileiro Cícero Moraes, autor de um estudo que sugere a hipótese de contato com um baixo-relevo para a formação da imagem do Sudário de Turim e que havia escrito uma resposta à publicação que eu havia feito tempos atrás. Moraes procurou a coluna para uma tréplica, que publico a seguir.
O que Casabianca e Marinelli não disseram em sua resposta
Cícero Moraes
É curioso que Casabianca e Marinelli se apresentem como vítimas perseguidas, quando foram eles que se mostraram mal-educados, desonestos intelectualmente e desinformados sobre meu trabalho e métodos. A dra. Marinelli, por exemplo, afirmou que a solução que utilizo “não era científica ou séria”, ignorando que desenvolvo tecnologia de simulação cirúrgica digital usada em 34 países.
O tom respeitoso que adotei deve-se, acima de tudo, à gratidão à Gazeta do Povo – jornal no qual meu trabalho já esteve em duas capas quando ainda era impresso.
Sobre a questão ligada à inteligência, sou grato por ser neurodivergente e assumo abertamente; não sou nem mais, nem menos do que ninguém. Nenhum shaming de um grupo de religiosos, do qual espera-se respeito, mudará isso.
Sobre a Academia de Ciências da República Tcheca, os autores omitiram que refutei a instituição com um artigo revisado por pares, demonstrando detalhadamente o método empregado. Mostrei ainda que participei de 92% das reconstruções faciais realizadas por membros daquela academia, ou seja, eles nem sequer tinham autoridade no assunto ao qual tentaram me criticar. A vergonha deles foi tamanha que nunca mais falaram uma palavra sobre o meu trabalho e eu continuei a publicar, inclusive com a participação de um alto funcionário do Executivo daquele país, o que denota que minha reputação não foi comprometida.
VEJA TAMBÉM:
Quanto ao dr. Hawass, também omitiram que refutei tanto a ele quanto à dra. Saleem. Meu trabalho foi elogiado em publicação dela (ela não se recordava disso); revisei um artigo dela, inclusive (ela não sabia disso). Depois do confronto segui publicando reconstruções egípcias, e os dois nunca mais falaram uma palavra sobre o meu trabalho, tamanha foi a vergonha frente ao descuido deles ao me atacarem.
É sintomático que Casabianca e Marinelli insistam em apontar “erros” em meu estudo, que passou por rigorosa revisão por pares. Aliás, eles nem entenderam o que escrevi sobre Heller & Adler. Nunca mencionei “pigmentos de tinta” – isso é invenção deles. Usei apenas o termo “pigmentação” (“conceder cor a”) e destaquei exatamente o que os próprios autores disseram: a ausência de certos elementos não prova que eles nunca estiveram presentes.
No artigo de 2019 deles, a frase é clara e pública: não afirmaram ter refutado a datação medieval. Não adianta distorcer os fatos.
“A ausência de certos elementos [no Sudário] não prova que eles nunca estiveram presentes.”
Cícero Moraes
Quanto ao suposto cherry-picking, citei amplamente autores favoráveis à origem divina do Sudário – inclusive aqueles que refutam uma das críticas que Casabianca e Marinelli me fizeram, pois, quando eles próprios (autores pró-origem divina) utilizam apenas a parte frontal do corpo, isso não os incomoda. Falta coerência.
Sobre história da arte, apresentei exemplos concretos que comprovam a presença daqueles elementos no Sudário e demonstrei que a arte realista é dominada pelo ser humano há milênios. A tese do “gênio medieval anônimo” não procede: o próprio Sudário contém incoerências anatômicas e problemas de simetria, exatamente como apontei no artigo principal. As efígies tumulares que mostrei estão consistentemente alinhadas com sua estrutura.
Meu trabalho não fracassou. Ao contrário: incomodou tanto que provocou uma rara nota oficial de preocupação da Arquidiocese de Turim e se tornou o artigo mais influente da história da Archaeometry, com total transparência. Recomendo à dra. Marinelli e ao dr. Casabianca que baixem os arquivos, refaçam ou melhorem os testes – ou simplesmente aceitem que o estudo prosperou a ponto de tirar o sono dos sindonologistas.















