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Tubo de Ensaio

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Ciência, religião e as pontes que se pode construir entre elas

Linho indiano

DNA no Sudário de Turim sugere andanças do pano pelo mundo

dna santo sudario
Missa celebrada diante do Sudário de Turim durante exibição pública da relíquia, em 2015. (Foto: Alessandro di Marco/EFE/EPA)

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No último dia 31 de março, durante a Semana Santa, um grupo de pesquisadores liderado por Gianni Barcaccia, professor de Genética e Genômica da Universidade de Pádua, colocou na internet a versão mais recente de um artigo ainda em pre-print, como são chamados os papers em fase de análise para publicação em revistas científicas, em que os pesquisadores analisam traços de DNA no Sudário de Turim, ou Santo Sudário, e encontram indícios de uma possível origem indiana do pano, além de sugerir locais por onde ele pode ter passado ao longo de sua história – inclusive o Oriente Médio.

O leitor do Tubo de Ensaio que acompanha as publicações sobre o Sudário sabe que eu o considero um objeto “imprestável” para datações por vários fatores, que incluem todas as “aventuras” pelas quais o pano passou, como incêndios, além da manipulação pesada. Muita gente literalmente botou a mão no Sudário ao longo dos séculos, e isso deixa sua marca. Pois é justamente essa marca que os pesquisadores liderados por Barcaccia analisaram, avançando em relação a um estudo semelhante feito por eles em 2015. Desta vez, eles usaram um novo conjunto de 12 amostras, como filamentos de linho e material aspirado do Sudário em 1978, durante a grande rodada de testes do Shroud of Turin Research Project (Sturp). Alguns desses filamentos, por exemplo, foram extraídos pelo professor Pierluigi Baima Bollone, que também fazia parte do grupo de Barcaccia, mas faleceu antes da publicação deste artigo. Foi Bollone quem identificou o tipo AB nas manchas de sangue presentes no Sudário, nos anos 80.

Tecido pode ter sido fabricado na Índia e exportado para o Oriente Médio

O DNA humano examinado pela equipe de Barcaccia, no entanto, não é o do chamado “Homem do Sudário”, mas o de pessoas que, em algum momento, tiveram contato com o pano. Essa informação genética é interessante porque, pela identificação dos haplogrupos, é possível rastrear a origem geográfica dos “donos” desse DNA. No caso do Sudário, isso pode dar pistas sobre a “pré-história” do pano – afinal, depois que ele aparece em Lirey, no século 14, seu paradeiro é bem conhecido. O mistério envolve o que aconteceu antes disso, caso o Sudário não seja uma obra medieval; uma das teorias defende que o Sudário foi levado de Jerusalém para a Ásia Menor, e dali para Constantinopla; sumiu no saque da cidade durante a Quarta Cruzada, e reapareceu na França.

O DNA de haplogrupos indianos encontrado no Sudário poderia ser das pessoas que confeccionaram o pano (ou ao menos os fios), depois exportado para o Oriente Médio

Os novos resultados confirmaram o que os especialistas já tinham encontrado em 2015: mais da metade do material genético humano presente nas amostras correspondia a haplogrupos associados ao Oriente Médio – um deles, o H33, é mais raro, e frequente entre o povo druso, “uma minoria étnico-religiosa de fala árabe, atualmente presente na Terra Santa, na Jordânia, no Líbano e na Síria”. Por outro lado, a proporção de DNA de haplogrupos associados à Europa Ocidental é bem pequena: 5,6%, muito menos que os 38,7% de DNA de haplogrupos do subcontinente indiano. Mas o que os indianos estariam fazendo ali no Sudário?

A explicação possível está no intercâmbio comercial entre a Índia e o Oriente Médio. E entre os itens provenientes do subcontinente indiano estavam justamente tecidos de linho. Os autores do artigo lembram que o termo grego sindôn – do qual deriva, por exemplo, a palavra italiana para o Sudário, sindone, daí os estudiosos do Sudário de Turim serem chamados “sindonologistas” –, usado para descrever linho fino, poderia ter relação com a região indiana de Sindh, famosa pela qualidade do seu produto têxtil. Ou seja, o DNA encontrado no Sudário poderia ser o das pessoas que confeccionaram o pano (ou ao menos os fios) no subcontinente indiano, o que seria uma adição interessante à história do tecido.

dna santo sudárioDetalhe de gravura de Antonio Tempesta mostrando exibição do Sudário em 1613: será que todas aquelas mãozinhas ali segurando o Sudário estavam protegidas com luvas? (Foto: Domínio público)

Material não humano também conta histórias interessantes

A equipe de Barcaccia ainda vasculhou microrganismos e vestígios de outros seres vivos nas amostras do Sudário. Os pesquisadores encontraram muitos microrganismos presentes na pele humana, o que corrobora a ideia de muita manipulação do Sudário ao longo do tempo; também encontraram traços de coral vermelho, espécie típica do Mar Mediterrâneo, e plantas e frutas comuns no Oriente Médio (mas que não se restringem a essa região), como pistache, figo e amêndoa; elas, no entanto, são apenas parte de uma enorme lista de vegetais identificados, incluindo trigo, pimenta e vegetais originários da América, e que só chegaram ao Velho Mundo após as Grandes Navegações, como tomate, milho e amendoim. Entre as espécies animais encontradas estão vários animais de criação, como galinhas, porcos e bovinos; cães e gatos; e animais selvagens como cervos. Os cientistas encontraram, ainda, traços de ratos e camundongos, o que “sugere possível contaminação ambiental”, e de peixes – até bacalhau apareceu.

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Mas, de todo esse microbioma, o que me pareceu mais interessante foi a descoberta de organismos unicelulares (arqueias) característicos de ambientes de alta salinidade, como é a região do Mar Morto, onde o Sudário poderia ter sido guardado nos primeiros anos após a ressurreição de Cristo, para aqueles que acreditam na autenticidade do pano como o tecido que envolveu o corpo de Jesus no sepulcro. Os pesquisadores ainda afirmam que a presença de outros fungos, incluindo alguns encontrados em “águas hipersalinas”, “levanta perguntas adicionais”.

O que o estudo diz e o que ele não diz

Nas conclusões, os autores afirmam que “a idade do Sudário de Turim não pode ser determinada pela metagenômica porque esse método é incapaz de providenciar evidência robusta que apoie tanto a hipótese de origem medieval quanto uma história de dois milênios”. Por exemplo, a presença de vestígios de “espécies pós-colombianas (...) apresenta uma dificuldade adicional significativa a respeito da antiguidade do Sudário, embora não se possa descartar uma contaminação tardia”. O certo, dizem os pesquisadores, é que “a evidência genética e microbiana mostra uma história complexa do Sudário de Turim” e que “nossos achados são uma nova e significativa contribuição para a área, elucidando os traços biológicos deixados por séculos de interações sociais, culturais e ecológicas”.

O padre Rafael Pascual, diretor do Othonia, grupo que reúne especialistas no Sudário, afirmou ao Tubo de Ensaio que, dentre os achados do time liderado por Barcaccia, lhe parece especialmente interessante “a possível origem oriental (indiana) do linho, o que seria um argumento contra a hipótese do ‘falsário medieval’”. Além disso, “a abundância de elementos contaminantes trata de vários indicadores da história do Sudário e volta a questionar a confiabilidade dos resultados do teste de carbono-14”. Mas o sacerdote, que também é diretor de um curso de pós-graduação sobre o Sudário no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, em Roma, ressalta que é preciso “esperar que a comunidade científica valide os resultados dos estudos”.

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