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Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)
Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)| Foto:

Já está no ar a íntegra, em português e diversos outros idiomas, da encíclica Laudato Si’, a primeira escrita integralmente pelo papa Francisco (lembremo-nos de que Lumen Fidei foi um trabalho a quatro mãos, iniciado por Bento XVI), e que trata da questão ambiental, que aparece nos discursos do papa argentino praticamente desde o início do seu pontificado.

Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)

Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)

Há quem questione a escolha do tema. Por que um papa escreveria sobre o meio ambiente? Respondo com outra pergunta: por que não? Uma das primeiras coisas que, no relato da criação, Deus pede ao homem é que cuide daquilo que Deus criou. Francisco faz a diferenciação entre a postura correta, do homem como “guardião” da criação, daquela de “proprietário dominador” (2, 66 e 67 – os números sempre serão referência aos parágrafos da encíclica), e defende a tradição judaico-cristã da acusação surgida nos anos 60 do século passado, de que as religiões monoteístas justificariam a degradação ambiental em contraste com outras religiões que, ao divinizar os elementos da natureza, favoreceriam sua preservação (67). Além disso, escrever sobre o meio ambiente é importante porque, na tradição cristã, a criação revela o criador (12, 85 a 87), outro motivo pelo qual se deve preservá-la.

Não li ainda muitas análises sobre a encíclica, mas minha impressão é a de que elas vão se concentrar no capítulo 1, que faz um diagnóstico dos problemas ambientais, recorrendo ao consenso (ou, em alguns casos, não tão consenso assim) científico sobre temas como mudanças climáticas; ou vão priorizar os capítulos finais, que trazem as prescrições do papa em diversos níveis. Ainda não vi manchetes do tipo “Papa manda desligar o ar condicionado”, mas não descartaria algo assim… (ou, pior, “Papa diz que usar ar condicionado é pecado”). Meu objetivo aqui não é tanto fazer uma análise linear da encíclica, de cabo a rabo, mas destacar algumas ideias que a norteiam.

O cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz

O cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, ajudou a escrever a encíclica e esteve na entrevista coletiva de lançamento. (Foto: Max Rossi/Reuters)

O centro da encíclica é, sem dúvida, o capítulo 3, justamente aquele que, creio eu, receberá menos destaque na cobertura jornalística. Ali o papa defenderá que a crise ecológica é, antes de mais nada, resultado de uma crise moral que se manifesta em vários aspectos. Um deles é a “confiança cega nas soluções técnicas”, o primado da tecnologia. Desde o início da encíclica Francisco já vinha tocando no tema (14, 19, 60, 78), mas o desenvolverá melhor neste capítulo (102 a 114), inclusive denunciando a mentalidade do might makes right, a noção de que o fato de algo ser tecnicamente viável também o torna moralmente lícito (105). O antropocentrismo desordenado (115 a 121) e o relativismo moral e ético, que, ironicamente, absolutiza as vontades e convicções individuais desprezando a busca pela verdade objetiva (6, 75, 122, 123), também são alvo das críticas do papa.

Mas, se o antropocentrismo desordenado é um erro, também o é reduzir o papel do ser humano a ponto de fazer do meio ambiente um fim em si mesmo (118). Francisco, em continuidade com o pensamento de Bento XVI, recorda em vários pontos que o homem tem uma dignidade especial (43, 65, 69, 81 – aqui com um aceno simpático à teoria da evolução), e já posso ouvir gente chamando o papa de “especista” por isso. O mesmo ser humano cujo comportamento é causa de problemas ambientais também é o responsável por buscar as soluções (53, 58, 60, 118), e o papa não defende uma noção de que o planeta deve permanecer intocado; pelo contrário, valoriza o trabalho humano que transforma a natureza (124 a 129) e lembra que a pesquisa biotecnológica, se bem conduzida, beneficia a humanidade (130 a 135).

É por causa desse papel especial do ser humano dentro da criação que Francisco faz questão de apontar a hipocrisia daqueles que se dizem defensores do meio ambiente, mas tratam o ser humano como criatura de segunda categoria (91), favorecendo o antinatalismo (50), o aborto (120, 123) e a pesquisa com embriões humanos (117, 136). Lembram do que eu escrevi ontem aqui no blog, sobre a animação dos cientistas por ter uma “aprovação moral” do papa para os alertas ambientais? Pois bem, vejamos se essa parte será recebida da mesma maneira por esses mesmos cientistas…

E é só à luz do capítulo 3 da encíclica que será possível compreender os capítulos seguintes, em que o papa oferece prescrições práticas nos mais diversos níveis: no capítulo 4, tratará da dimensão comunitária, com ênfase no planejamento urbano; no capítulo 5, aborda o âmbito político-institucional, incluindo tratados e conferências internacionais; e, no capítulo 6, faz um apelo à consciência de cada indivíduo para que repense comportamentos e pequenas ações diárias que contribuem com a degradação ambiental. Sem essa base oferecida pelo capítulo 3, os pedidos do papa soarão como ingênuos ou utópicos.

Desde o início do seu pontificado, Francisco falou diversas vezes sobre o cuidado com o meio ambiente.

Desde o início do seu pontificado, Francisco falou diversas vezes sobre o cuidado com o meio ambiente. (Foto: Max Rossi/Reuters)

É no capítulo 5 que Francisco dedica três parágrafos à relação entre ciência e religião. Esses vão transcritos abaixo:

199. Não se pode sustentar que as ciências empíricas expliquem completamente a vida, a essência íntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. Isto seria ultrapassar indevidamente os seus confins metodológicos limitados. Se se reflete dentro deste quadro restrito, desaparecem a sensibilidade estética, a poesia e ainda a capacidade da razão perceber o sentido e a finalidade das coisas. Quero lembrar que “os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre novos horizontes (…). Será razoável e inteligente relegá-los para a obscuridade, só porque nasceram no contexto duma crença religiosa?” Realmente, é ingênuo pensar que os princípios éticos possam ser apresentados de modo puramente abstrato, desligados de todo o contexto, e o fato de aparecerem com uma linguagem religiosa não lhes tira valor algum no debate público. Os princípios éticos que a razão é capaz de perceber sempre podem reaparecer sob distintas roupagens e expressos com linguagens diferentes, incluindo a religiosa.

200. Além disso, qualquer solução técnica que as ciências pretendam oferecer será impotente para resolver os graves problemas do mundo se a humanidade perde o seu rumo, se esquece as grandes motivações que tornam possível a convivência social, o sacrifício, a bondade. Em todo caso, será preciso fazer apelo aos crentes para que sejam coerentes com a sua própria fé e não a contradigam com as suas ações; será necessário insistir para que se abram novamente à graça de Deus e se nutram profundamente das próprias convicções sobre o amor, a justiça e a paz. Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos guardar. Muitas vezes os limites culturais de distintas épocas condicionaram esta consciência do próprio patrimônio ético e espiritual, mas é precisamente o regresso às respectivas fontes que permite às religiões responder melhor às necessidades atuais.

201. A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade. De igual modo é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua própria linguagem, e a especialização tende a converter-se em isolamento e absolutização do próprio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente. Torna-se necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas. A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia”.

Como sempre, recomendo a leitura integral do texto do papa Francisco. Não apenas para os católicos, que, por compartilhar da mesma fé que guia o papa, encontrarão muito material para reflexão, mas também para todos os que se preocupam com o meio ambiente, independentemente de religião, pois os conselhos do papa transcendem filiações religiosas.

Um detalhe que passou despercebido: um dos cientistas apontados como consultores do papa para a redação da encíclica, Hans Schellnhuber, foi indicado por Francisco para integrar a Pontifícia Academia de Ciências. A nomeação saiu ontem.

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