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A revista acadêmica Spirituality in Clinical Practice, publicada pela Associação Americana de Psicologia, publicou em fevereiro um perfil dos psicólogos brasileiros no que diz respeito à religiosidade pessoal, à percepção sobre os efeitos da fé na saúde mental, e à interação com pacientes. O artigo tem como base a tese de doutorado de Pedrita Reis Vargas, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora (Nupes-UFJF), defendida em 2019, com dados coletados entre 2016 e 2018. Dos 4,3 mil psicólogos com registro em conselho que responderam ao questionário, 83,4% acreditam em Deus e quase 80% têm alguma filiação religiosa, mas eles evitam tomar a iniciativa de conversar sobre religião com os pacientes: quase 78% dos entrevistados acham inapropriado discutir religião ou espiritualidade com os pacientes se eles mesmos não trouxerem o assunto à tona.
A religiosidade dos psicólogos foi uma das constatações que surpreenderam Pedrita. “Durante muito tempo existiu uma percepção de que a psicologia seria um campo majoritariamente distante da religião. O que os dados mostram é que a realidade é mais complexa: muitos profissionais têm crenças pessoais, mas isso não significa automaticamente que essas crenças orientem a prática clínica – e nem deveria”, afirmou ela ao Tubo de Ensaio. Além dos dados sobre crença em Deus e filiação religiosa, a pesquisa ainda identificou que um terço dos entrevistados participa de cerimônias religiosas (missa, culto etc.) ao menos uma vez por semana, e 41% reportaram altos índices de religiosidade.
Psicólogo não pergunta sobre religião, mas pacientes costumam trazer o tema
O fato de os psicólogos terem crenças religiosas ou espirituais, considerarem a fé importante em suas vidas ou frequentarem templos ou igrejas não significa que eles tenham o hábito de puxar o assunto com seus pacientes: 77,9% dizem que é inapropriado falar de religiosidade ou espiritualidade com os pacientes por iniciativa própria. Isso não significa que a fé passe longe dos consultórios: quatro em cada cinco entrevistados (80%) afirmaram que os pacientes trazem o assunto ao menos de vez em quando.
“Durante muito tempo existiu uma percepção de que a psicologia seria um campo majoritariamente distante da religião. O que os dados mostram é que a realidade é mais complexa.”
Pedrita Reis Vargas, pesquisadora do Nupes-UFJF
Se é o paciente quem traz a religião para a consulta, são 70,1% os psicólogos que acham apropriado discutir o tema, indicando que uma parcela significativa, ainda que minoritária, não acha que seja uma boa ideia conversar sobre religião com os pacientes mesmo quando são eles que tomam a iniciativa. A principal atitude descrita pelos entrevistados é a de ouvir respeitosamente; às vezes os psicólogos encorajam a prática religiosa dos pacientes, raramente compartilham as próprias experiências e quase nunca rezam junto com os pacientes – atitude considerada inapropriada por 67,5%. “A psicologia clínica é centrada no paciente. O que orienta o processo terapêutico são os valores e a experiência da pessoa atendida, não as crenças pessoais do profissional”, diz Pedrita.
Psicólogos avaliam efeitos da espiritualidade sobre a saúde mental
A maioria dos psicólogos disse considerar que a religião e a espiritualidade podem ajudar o paciente a lidar com dor, o sofrimento ou a doença, mas também que elas podem provocar culpa, ansiedade ou sentimentos negativos – 90% e 70%, respectivamente. A pesquisa encontrou algumas correlações interessantes: os psicólogos que têm fé religiosa tendem mais a acreditar em efeitos benéficos da espiritualidade sobre os pacientes; no sentido contrário, os psicólogos com maior grau acadêmico (mestrado ou doutorado), e os que seguem a linha da psicanálise, são mais propensos a destacar os efeitos negativos.
Comentando esses números, Pedrita alertou que correlação não significa causalidade, e por isso ela apenas levanta algumas hipóteses interpretativas. “Uma das possibilidades é a de que a formação acadêmica mais avançada estimule uma postura mais crítica em relação às instituições sociais, incluindo as religiosas. Esses profissionais também costumam estar mais expostos a debates sobre possíveis efeitos negativos da religiosidade, como culpa excessiva, conflitos morais ou experiências de exclusão”, diz a pesquisadora. Além disso, ela afirma que, na pós-graduação, os psicólogos tendem a se aprofundar em áreas cada vez mais específicas do conhecimento. “Esse foco mais especializado pode reduzir o contato com temas interdisciplinares, como a interface entre espiritualidade e saúde, que ainda não está amplamente presente em muitas formações”, acrescenta Pedrita.
E a psicanálise? “Algumas tradições da psicologia historicamente tiveram uma postura mais crítica em relação à religião, o que pode influenciar a forma como certos profissionais interpretam o fenômeno religioso”, diz Pedrita. Se pensarmos que o “pai da psicanálise”, Sigmund Freud, era um sujeito bastante hostil à própria ideia de Deus, e via a religião como uma forma de canalizar impulsos primitivos, de fato não surpreende que tantos de seus adeptos prefiram destacar os efeitos negativos da espiritualidade sobre os pacientes. Mas essa percepção está longe de ser movida por puro preconceito antirreligioso. “A própria literatura científica contemporânea mostra que religiosidade e espiritualidade podem ter tanto efeitos positivos quanto negativos sobre a saúde, dependendo de como são vividas. A pesquisa não toma posição sobre isso, apenas procura mapear a visão dos psicólogos”, afirma a pesquisadora do Nupes-UFJF.
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Falta treinamento para psicólogos lidarem com questões de espiritualidade e saúde
“Embora muitos profissionais reconheçam que a espiritualidade pode influenciar a saúde e o bem-estar das pessoas, apenas uma parcela menor relatou ter recebido treinamento para abordar esse tema de forma adequada na clínica”, diz Pedrita. Pouco menos de um quarto dos entrevistados (24,2%) disseram ter tido algum tipo de treinamento em temas de religião e espiritualidade – na maioria dos casos, isso ocorreu durante a faculdade, embora também tenham sido mencionados outros canais como cursos, conferências e leituras. Cerca de dois terços dos psicólogos entrevistados (68,3%) gostariam de adquirir mais conhecimento sobre o tema, com uma porcentagem ligeiramente menor (63,7%) achando que ele deveria estar presente de alguma forma no currículo dos cursos de graduação em Psicologia. Novamente, Pedrita encontrou uma correlação entre maior religiosidade dos psicólogos e maior demanda por aprofundamento em questões de religião e espiritualidade na prática clínica.
Hostilidade laicista de conselhos já era percebida
Parece paradoxal que, enquanto a ampla maioria dos psicólogos acredite em Deus e tenha filiação religiosa, os conselhos que regulam a atividade em nível estadual e federal demonstrem uma hostilidade laicista que vai além da simples laicidade. Ainda que a pesquisa não tivesse entre seus objetivos avaliar posições institucionais do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e dos conselhos regionais (CRPs), eles foram mencionados por alguns entrevistados, especialmente evangélicos: um se disse “intimidado com a rigidez com que os conselhos de psicologia lidam com o tema”; outra afirmou perceber “certa intolerância por parte da categoria quanto às premissas e perspectiva da minha religião”; para uma terceira, os conselhos “com frequência se posicionam contra a prática cristã, enquanto outros psicólogos que defendem outras religiões não sofrem tal pressão”. Um entrevistado católico disse que “temos sempre muito medo de discussões devido às inúmeras ameaças sofridas por profissionais pelo conselho de psicologia”. E isso, recordemos, foi entre 2016 e 2018, muitos anos antes da célebre Resolução 7/2023 do CFP...
“O princípio da laicidade na profissão é importante porque garante que o atendimento psicológico não seja orientado por crenças religiosas do profissional. Isso protege a diversidade de pacientes e evita práticas de proselitismo”, diz Pedrita. “Ao mesmo tempo, reconhecer a laicidade da profissão não significa ignorar que a religiosidade e a espiritualidade podem ser dimensões importantes na vida de muitos pacientes. O desafio da formação em psicologia é justamente preparar os profissionais para lidar com essa dimensão de forma ética, técnica e centrada no paciente, quando ela aparece no contexto clínico. O foco principal do estudo é contribuir para o debate sobre formação profissional e competência cultural, e não sobre disputas institucionais”, acrescenta a pesquisadora.
“O terapeuta precisa estar apto a compreender e respeitar os valores, crenças e formas de dar sentido à vida que são importantes para aquela pessoa.”
Pedrita Reis Vargas, pesquisadora do Nupes-UFJF
Pedrita finaliza dizendo que a pesquisa não defende a introdução de religião na terapia. “O ponto central é compreender se os profissionais estão preparados para lidar com essa dimensão quando ela aparece na experiência do paciente. O terapeuta precisa estar apto a compreender e respeitar os valores, crenças e formas de dar sentido à vida que são importantes para aquela pessoa. Mais do que compartilhar as mesmas crenças, o fundamental é que o profissional tenha formação e preparo para acolher essa dimensão quando ela é significativa para o paciente, sem impor suas próprias convicções”, diz.
Sindonologistas respondem a pesquisador brasileiro que propôs hipótese para formação da imagem do Sudário
Os sindonologistas Tristan Casabianca, Emanuela Marinelli e Alessandro Piana tomaram conhecimento da resposta que o pesquisador brasileiro Cícero Moraes enviou ao Tubo de Ensaio, publicada na coluna anterior, e também pediram espaço para uma tréplica, reproduzida a seguir, e traduzida do italiano pelo colunista.
Moraes faz cherry-picking da literatura acadêmica sobre o Sudário
Tristan Casabianca, Emanuela Marinelli e Alessandro Piana
Para nós, a resposta de Cícero Moraes é uma boa notícia. Especialmente pela forma pacata, o que muda a situação. Desde a publicação de nosso comentário em Archaeometry Moraes não havia cessado de perseguir-nos nas mídias sociais com sua vingança e insultos. Proclamava em alto e bom som, para sua grande satisfação, ter-nos demolido, feito em pedaços, qualificando-nos como arrogantes, covardes, mal-educados, “indivíduos passivos que só compartilham as notícias favoráveis” etc. Agora, moderou o tom, e isso é positivo.
É verdade que os pesquisadores normalmente têm um ego grande, e são raros os que gostam de ver suas teorias contestadas. Mas é preciso saber impor-se um limite. Moraes, que não para de se vangloriar de ter uma inteligência fora do comum, de pertencer à Poetic Genius Society (sim, existe de verdade!), deveria compreender isso e demonstrar mais contenção.
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Esta não é a primeira vez que Moraes vê seu trabalho colocado em debate e perde o controle. Em 2024, foi severamente criticado pelo Instituto de Arqueologia da Academia Tcheca de Ciências. Ele havia tentado reconstruir o rosto de Jan Žižka de Trocnov; os cientistas afirmaram que o método usado era “cientificamente inadequado para reconstruir um rosto inteiro a partir de pequenos fragmentos”, e acrescentaram que “nos opomos ferrenhamente a ataques pessoais da parte da equipe de autores contra membros da comunidade científica que resolvam criticar publicamente o trabalho atual ou passado de Moraes e seus colegas”. No mesmo ano, Moraes procurou reproduzir o rosto do faraó Amenhotep I; o célebre egiptólogo Zahi Hawass descreveu o método como “cientificamente defeituoso”. Mas Moraes pode pensar que há gênios incompreendidos...
Infelizmente, ele repete os mesmos erros com o Sudário de Turim, um tema que ele claramente não domina. Não faltam erros de metodologia em seu artigo original; eles são evidentes e resultam principalmente de uma grande ignorância da literatura acadêmica. Como ressaltamos em nossa resposta, o fenômeno da distorção anatômica é bem conhecido por todos os especialistas e foi descrito com precisão já em 1902, pelo cientista francês Paul Vignon. Mas Moraes ignora totalmente esse aspecto, e sua resposta a nosso comentário evidencia uma tática retórica que tenta se justificar de forma enganosa.
Moraes faz cherry-picking, ou seja, destaca uma frase de um artigo para fazê-lo dizer seu exato oposto, contextualizando-a de forma que lhe seja vantajosa. Ele fez isso com uma publicação de J.H. Heller e A.D. Adler, do Shroud of Turin Research Project (Sturp), como se eles estivessem falando de pigmentos de tinta. Moraes escreve: “Afirma-se com frequência que a ausência de pigmentos foi demonstrada definitivamente. No entanto, os mesmos pesquisadores reconheceram que a ausência de certos compostos detectáveis não significa necessariamente que tais substâncias nunca tenham estado presentes”. Mas Heller e Adler não buscavam pigmentos de um artista; eles se referiam a a gordura, óleos e sabões, pois estavam checando a hipótese de que a imagem do Sudário tivesse sido feita pelo suor do corpo e pelos perfumes em solução oleosa com os quais tanto o cadáver quanto o pano pudessem ter sido tratados.
Moraes também tenta fazer com que digamos o contrário do que dissemos em nosso artigo de 2019 publicado por Archaeometry. Ele destaca a seguinte frase: “Nossos resultados estatísticos não implicam que a hipótese medieval para a idade da amostra analisada deva ser excluída”. E a comenta assim: “os próprios autores afirmam que seus resultados estatísticos não implicam o descarte da hipótese medieval, mantendo o tema em aberto no campo científico”. Mas nós nos referíamos àquela amostra de apenas três centímetros, que é medieval, com uma margem de erro de 150 anos.
“O fenômeno da distorção anatômica é bem conhecido por todos os especialistas e foi descrito com precisão já em 1902, pelo cientista francês Paul Vignon. Mas Moraes ignora totalmente esse aspecto.”
Tristan Casabianca, Emanuela Marinelli e Alessandro Piana
Que fique claro: a heterogeneidade das medições é tanta que não temos nenhuma garantia de que elas reflitam a idade exata da amostra analisada, e nem que essa amostra seja representativa do pano todo, devido às inúmeras contaminações constatadas. Pior ainda: como afirmamos em nosso comentário, a existência de um gradiente dentro da amostra torna absurdo cravar qualquer intervalo de tempo, porque bastaria que a medição fosse feita poucos centímetros para dentro do pano para que a idade resultante fosse bem diferente. Concluímos que “não é possível afirmar que a datação por carbono-14 de 1988 oferece ‘evidência conclusiva’ de que o intervalo temporal é preciso e representativo de todo o tecido”.
O fato é que Moraes faz cherry-picking de toda a literatura acadêmica sobre o Sudário de Turim. Todos os estudos que não se encaixam em seu quadro interpretativo pré-definido são descartados a priori. Quando se multiplicam as confirmações independentes da presença de sangue no tecido, quando ninguém mais coloca em dúvida a superficialidade da imagem, quando se sabe que não há imagem sob as manchas de sangue, nada disso conta para ele: só o que conta é uma velha teoria interpretativa já descartada nos anos 1980, a de um enorme baixo-relevo, único do gênero e impossível de realizar na Idade Média.
Os elementos históricos laboriosamente apresentados por Moraes contradizem sua tese e, mais uma vez, resultam de uma enorme incompreensão da história da arte. Não apenas os exemplos dados por ele não têm – como ele próprio admite – qualquer ligação com uma representação de Jesus crucificado, como também Moraes parece crer que um gênio medieval anônimo, desconhecido dos historiadores, surgiu do nada, sem se beneficiar da transmissão técnica, não deixou vestígio algum de si mesmo e tampouco reuniu um grupo de discípulos capazes de transmitir seu conhecimento. Nenhum gênio, em toda a história da arte ocidental, surgiu dessa forma, de Fra Angelico a Picasso, passando por Leonardo da Vinci. Isso não só nunca existiu, como nunca poderia ter existido!
A tentativa de Cícero Moraes falhou porque ela não apoia – como ele afirma desajeitadamente – a hipótese do um baixo-relevo medieval, muito pelo contrário. Seu fracasso tem raízes mais profundas: uma abordagem metodologicamente falha para realizar reconstruções arqueológicas. Profeta involuntário, Moraes acaba de anunciar, de forma ruidosa, confusa e contra a sua vontade, uma boa notícia: a autenticidade do Sudário de Turim.















