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Pesquisador brasileiro esclarece estudo sobre o Sudário de Turim

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O Sudário de Turim durante exibição pública em 2015. (Foto: Alessandro di Marco/EFE/EPA)

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O pesquisador Cícero Moraes procurou o Tubo de Ensaio para enviar suas observações a respeito da coluna de duas semanas atrás, quando noticiei a publicação de um artigo em que três sindonologistas contestavam a teoria do brasileiro, segundo a qual o Sudário de Turim não seria o pano que envolveu o corpo de Jesus, mas uma obra medieval, feita por meio do contato do tecido com um baixo-relevo. O texto dele vem a seguir:

Pesquisa é replicável, transparente e não foi refutada

Primeiramente, é importante esclarecer que em nenhum momento, no meu estudo publicado na Archaeometry, classifiquei o Sudário de Turim como uma “farsa”. Indiquei que, à luz dos resultados obtidos, trata-se possivelmente de uma obra de arte cristã medieval. O título da matéria, portanto, não corresponde ao conteúdo efetivamente apresentado no artigo científico.

Embora alguns veículos tenham apresentado o comentário de Casabianca et al. como uma refutação do meu estudo, publiquei uma resposta científica detalhada, também revisada por pares, na qual abordei objetivamente cada um dos pontos levantados pelos autores.

Quanto ao escopo, é fundamental lembrar que a delimitação de um estudo pertence ao pesquisador. Meu artigo teve como foco específico a análise geométrica da deformação produzida pela projeção de um corpo tridimensional sobre um tecido, comparando esse padrão com o gerado por um baixo-relevo compatível com a arte tumular medieval. Os resultados indicaram maior compatibilidade morfológica com o modelo artístico em relevo do que com a geometria tridimensional completa de um corpo humano real.

“A demonstração da deformação geométrica independe da duplicação dorsal, e diversos trabalhos sindonológicos também analisaram apenas a porção frontal.”

Cícero Moraes

A opção por analisar exclusivamente a região frontal não constitui omissão da imagem dorsal, mas escolha metodológica coerente com o objetivo do estudo. A demonstração da deformação geométrica independe da duplicação dorsal, e diversos trabalhos sindonológicos também analisaram apenas a porção frontal quando o foco era o padrão de projeção da imagem.

Sobre críticas relacionadas ao material do tecido ou à variação de alguns centímetros na altura estimada, é importante observar que tais parâmetros não alteram o padrão geométrico central da projeção. A diferença estrutural entre um corpo tridimensional completo e um relevo superficial permanece evidente independentemente desses ajustes. Além disso, todos os arquivos tridimensionais utilizados no estudo foram disponibilizados publicamente, permitindo que qualquer pesquisador replique o experimento ou ajuste variáveis como tipo de tecido, dimensões corporais ou posicionamento, testando a robustez dos resultados dentro dos parâmetros desejados.

Em relação ao Sturp [Shroud of Turin Research Project], frequentemente se afirma que teria sido provada definitivamente a ausência de pigmentação. Contudo, os próprios pesquisadores do grupo reconheceram que a ausência de determinados compostos detectáveis não implica necessariamente que tais substâncias nunca tenham estado presentes. A interpretação posterior de certeza absoluta vai além do que foi afirmado originalmente.

Além disso, o Sturp não é interpretativamente homogêneo. Há pesquisadores associados ao grupo que defendem hipóteses de origem medieval, inclusive com propostas técnicas alternativas, o que demonstra que o debate científico permanece aberto.

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No campo histórico-artístico, demonstrei inicialmente a existência de representações compatíveis com a iconografia corporal observada no Sudário, como no caso do Epitáfio do Rei Estêvão Uroš II (Jesus), e posteriormente apresentei exemplos documentados de gravuras e arte tumular em baixo-relevo dos séculos 11 ao 14 que evidenciam domínio técnico suficiente para produzir imagens com características morfológicas semelhantes. Trata-se de uma sequência histórica coerente, e não de uma justaposição arbitrária de estilos. O fato de os exemplares preservados não representarem especificamente Jesus não invalida a possibilidade histórica de adaptação artística para fins simbólicos ou devocionais, considerando a flexibilidade iconográfica presente na arte medieval.

Quanto à datação por carbono-14, é importante destacar que o próprio artigo de Casabianca et al. (2019) reconhece explicitamente: “Our statistical results do not imply that the medieval hypothesis of the age of the tested sample should be ruled out”. Ou seja, os próprios autores afirmam que seus resultados estatísticos não implicam o descarte da hipótese medieval, mantendo o tema em aberto no campo científico.

Por fim, no que se refere à chamada tridimensionalidade da imagem, os próprios dados clássicos (Sturp) indicam variações de profundidade relativamente baixas, compatíveis com padrões gerados por relevo superficial, e não com a geometria tridimensional completa de um corpo humano.

Em síntese, meu trabalho não foi refutado. Ele apresenta uma hipótese testável, baseada em modelagem tridimensional, com dados replicáveis e metodologia transparente, contribuindo para ampliar o debate científico sobre o Sudário de Turim.

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