Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Tubo de Ensaio

Tubo de Ensaio

Ciência, religião e as pontes que se pode construir entre elas

Levitação e bilocação

Uma deliciosa história do impossível

they flew santos voadores são josé de cupertino
Detalhe de gravura de Gioan Lorenzini com uma das levitações de São José de Cupertino, diante do vice-rei da Espanha. (Foto: Domínio público)

Ouça este conteúdo

Pessoas não flutuam no ar, nem podem estar em dois lugares ao mesmo tempo, certo? CERTO? Ao menos isso é o que nos diz a “ciência, ciência, ciência” (©Mandetta). Em 1983, o historiador Carlos Eire estava visitando o convento carmelita de Ávila, na Espanha; quando o grupo chegou ao locutório, o local onde as freiras podiam conversar com os visitantes através de uma grade, a guia soltou um “foi aqui que Santa Teresa e São João da Cruz levitaram juntos pela primeira vez”, assim, com a naturalidade de quem narra um fato incontestável. A guia de fato acreditava nisso? Estava no piloto automático após já ter repetido isso inúmeras vezes? Estava só obedecendo as ordens dos chefes? Eire, professor na Universidade Yale desde 1996, ficou tão intrigado que começou a pesquisar essas histórias; entre idas e vindas, levou 40 anos até publicar o delicioso They Flew – A history of the impossible.

O subtítulo diz tudo: aquilo que os católicos afirmam sobre as levitações e bilocações de santos é... bom, é impossível. A não ser que... pois é, mas como vamos provar? São eventos que ocorreram séculos atrás. Não há fotos, muito menos vídeos, de Santa Teresa de Ávila ou São José de Cupertino voando por aí. No caso das bilocações é ainda mais complicado, pois as testemunhas nem são as mesmas (a não ser que também elas pudessem estar em dois lugares ao mesmo tempo). Então, Eire fez o que os historiadores deveriam fazer: mergulhou em todas as fontes primárias que conseguiu encontrar, ciente de que não conseguiria comprovar para além de qualquer dúvida que determinado evento de fato ocorreu – e ciente de que estava arriscando sua reputação, pois não poucos colegas historiadores o veriam com suspeição por estar pesquisando eventos que, ao menos segundo nossa mentalidade hiper-racional, jamais poderiam ter acontecido.

Os relatos sobre as levitações existem, são numerosos, detalhados, provenientes de pessoas de todos os estratos sociais, de camponeses a nobres, reis e até papas

(Uma digressão sobre essa mentalidade hiper-racional: em setembro do ano passado, estava nos Museus Vaticanos e, como comprei o ingresso de última hora, só havia a opção mais cara da visita guiada. Mas era isso ou nada, então fui lá. A guia até avisou no começo que não era obrigatório ficar com o grupo, mas resolvi dar uma chance. Grande arrependimento. Ela não nos levou a galerias importantes como a Pinacoteca e a ala egípcia; e nas Salas de Rafael, diante do afresco A Batalha de Ponte Mílvia, de Giulio Romano, que mostra Constantino tendo a visão da cruz antes de enfrentar seu rival, a guia me começa com um “diz a lenda que...” E isso que é uma funcionária do Vaticano!)

A questão (alguns diriam “o problema”) é que os relatos das levitações existem, e não são poucos, muito pelo contrário: são numerosos, detalhados, provenientes de pessoas de todos os estratos sociais, de camponeses a nobres, reis e até papas – Urbano VIII viu São José de Cupertino voar sobre ele. Os fenômenos descritos ocorreram tanto em ambientes fechados quanto abertos – e, neste último caso, fica praticamente impossível armar algum tipo de fraude. As levitações são breves ou demoradas, os místicos se elevam a apenas alguns centímetros do chão ou a muitos metros, as levitações costumam ser disparadas por gatilhos como receber a comunhão, mas podem ocorrer também sem pretexto algum. As testemunhas oculares incluem pessoas já propensas a acreditar na sobrenaturalidade do fenômeno, mas outros bem que gostariam de não ter visto o que viram – caso do duque alemão luterano que acabou se convertendo ao catolicismo após presenciar duas levitações de São José de Cupertino em Assis; um assessor, também luterano, se expressou nesses termos: “Maldito o dia em que botei os pés neste país, pois em casa minha mente estava em paz, mas agora sou sacudido pelas fúrias e pelos escrúpulos de consciência”.

Em They Flew, Eire se detém especialmente sobre os casos de Santa Teresa de Ávila e de São José de Cupertino, que ficou conhecido por “frade voador” por ter levado o fenômeno da levitação a um patamar ainda mais alto, com o perdão do trocadilho. Nenhum deles realmente gostava disso – Santa Teresa conta, em suas memórias, que só parou de levitar depois de pedir muito a Deus; São José, por mais que tenha pedido o mesmo, não foi atendido. Se por um lado o fenômeno podia ser sinal de predileção divina, por outro causou vários transtornos aos santos, investigados pela Inquisição e, no caso de São José de Cupertino, ora tratado como atração, ora jogado de um convento a outro e escondido da vista de todos até sua morte.

VEJA TAMBÉM:

Uma segunda parte do livro trata de casos de bilocação, com destaque para a espanhola María de Ágreda, no século 17, que também levitava, mas se destacou por dizer ter sido transportada por Deus até o que é hoje o Novo México, para evangelizar os indígenas – que confirmaram ter visto uma Senhora de Azul (a cor do manto da congregação de María). Sua amizade com reis da Espanha não impediu que a Inquisição também fosse bastante rigorosa com ela, depois de uma cordialidade inicial. María de Ágreda, ao contrário de Teresa e José, nunca foi canonizada, mas não porque os inquisidores a considerassem uma fraude – eles consideraram as bilocações autênticas –, e sim por causa de uma longa biografia da Virgem Maria que ela escreveu e que lhe teria sido ditada pela própria Mãe do Senhor.

Tanta dureza por parte dos inquisidores ao investigar casos de levitação e bilocação tinha explicação; afinal, poderíamos estar diante de uma fraude, ou de um fenômeno genuíno, mas não necessariamente divino, tendo uma outra origem bem diferente. Era o que pensavam, por exemplo, os primeiros protestantes, para quem os prodígios tinham acabado na época dos apóstolos, e qualquer evento extraordinário que ocorresse depois disso, ainda mais entre os católicos, só podia ser obra do demônio. Aliás, também os católicos (inclusive os inquisidores) acreditavam que o diabo era capaz de fazer gente voar, ainda que essa crença não fosse unânime – a diferença era que, enquanto casos como os de Santa Teresa e São José de Cupertino eram milagres que comprovavam a verdade da fé católica, outras levitações, como as de bruxas, eram coisa do demônio; para os protestantes, era tudo obra do coisa-ruim. A terceira parte de They Flew trata justamente disso: depois de narrar casos de três freiras que depois confessariam ou seriam acusadas de fraudes ou pactos com o diabo (uma delas seria postumamente reabilitada), Eire descreve a demonologia cristã – uma área em que católicos e protestantes concordavam substancialmente –, toda a literatura escrita à época sobre bruxaria, e episódios de caça às bruxas.

Se José de Cupertino e Teresa de Ávila realmente levantaram voo (independentemente da causa), isso não mudaria tudo o que sabemos sobre a realidade?

Curiosamente (ou providencialmente), a “era de ouro” das levitações e bilocações de santos se deu na época em que o catolicismo teve de lidar com dois grandes desafios: o surgimento do protestantismo e do Iluminismo racionalista e cético. Seria uma tentativa (da parte de quem? Ou de Quem?) de comprovar a veracidade da fé católica quando os debates e as discussões já não davam conta da tarefa? Seja como for, esses fenômenos extremos diminuíram em frequência depois, mas nunca cessaram completamente – um caso moderno é o do padre Pio de Pietrelcina. A Igreja acabou incorporando o racionalismo na investigação de milagres, e desenvolveu regras muito rígidas para avaliar o caráter sobrenatural de uma cura ou algum outro episódio incomum envolvendo um candidato à beatificação ou canonização.

A essa altura, você deve estar se perguntando: mas e aí, tudo isso aconteceu mesmo? Eire tenta uma resposta no epílogo e no capítulo final da primeira parte, sobre São José de Cupertino. O fato é que os relatos (muitos deles feitos sob juramento e sob pena de excomunhão em caso de mentira) existem, em grande quantidade, espalhados no tempo e no espaço, vindos de diversas fontes, algumas delas acima de qualquer suspeita, e descrevem levitações de todo tipo, inclusive ao ar livre; isso torna muito remota, quando não impossível, a possibilidade de fraude ou ilusão em massa. Qualquer historiador honesto vai ter de lidar com isso. E, por mais que vivamos em “uma era em que homens razoáveis consideram sua obrigação tratar com desprezo e zombaria os relatos de fenômenos sobrenaturais”, nas palavras de Robert Boyle, simplesmente descartar esses relatos porque, afinal, pessoas não voam é sinal do mesmo dogmatismo que os racionalistas adoram criticar.

“Relatos de levitação e bilocação são tão difíceis de descartar quanto de comprovar”, diz Eire no epílogo. Pode ser uma conclusão meio frustrante depois de 370 páginas – atenuada, talvez, pelo fato de o título do livro não ter nenhum ponto de interrogação. Mas é até onde se pode ir, e acredite: só isso já é uma evolução gigantesca em comparação com a mentalidade atual que simplesmente empurra tudo isso para baixo do tapete. O historiador cita um colega, Jeffrey Kripal, que já ouviu gente dizendo que no fim não faz diferença se São José de Cupertino ou Santa Teresa de Ávila realmente levitaram ou não, importa apenas que as pessoas acreditavam que eles voaram – mais ou menos como Rudolf Bultmann tratava a ressurreição de Cristo. Mas isso é insano, como diz Kripal: se o frade e a freira realmente levantaram voo (ainda que a causa não seja ação divina, mas, sei lá, algum poder desconhecido da mente humana), isso não mudaria tudo o que sabemos sobre a realidade? Faz diferença, sim – faz toda a diferença. E é por isso que They Flew é uma leitura tão incrível.

Se o assunto deixou você curioso, confira aqui essa conversa entre Carlos Eire e o substacker (existe isso?) inglês Gavin Ashenden, em que o historiador comenta suas descobertas e conta mais detalhes sobre o livro:

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.