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Mercado editorial

Esfinge indecifrável

A indústria do livro é um segmento em expansão, com números positivos, apesar de as grandes empresas fazerem mistério sobre o setor

  • Marcio Renato dos Santos
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Esfinge indecifrável

Decifrar o mercado editorial brasileiro não é tarefa das mais simples. Mas fácil seria aprender japonês em braile ou entrar, e sair ileso, do labirinto grego que era defendido pelo mitológico minotauro. Afinal, os números são misteriosos. Todo dia, incluindo sábados e domingos, são publicados 40 títulos novos, o que representa 1,2 mil por mês. Há público para tantos lançamentos?

O brasileiro lê 1,8 livros por ano e, se incluir na lista os didáticos, a média sobe para 4,7. No entanto, não há como afirmar se o livro lido é comprado ou emprestado, de amiga, namorado ou em biblioteca pública. Fato consumado é que o governo federal compra, e muito, livros. Há quem, pedindo anonimato, defenda a tese de que é o governo quem sustenta o mercado. Dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) quase corroboram a afirmação: em 2008, apenas o governo, por meio de seus variados programas, adquiriu 121.722.061 exemplares. O custo disso? R$ 869,35 milhões.

E qual o efeito desse investimento federal?

A presidente da CBL, Rosely Boschini, tem a resposta na ponta da língua: “O efeito desses programas (aquisição de livros pelo governo federal) é que milhões de alunos das escolas públicas recebem livros didáticos, paradidáticos e de literatura em geral, sendo ungidos pelo direito inalienável à cultura e ao conhecimento, inerente à condição de cidadania”. Rosely, que atua na Editora Gente, é uma crente nas ações governamentais: “A democratização da leitura é essencial para nivelar oportunidades e contribuir para o desenvolvimento do Brasil.”

Mas há quem desconfie dessa “ajuda” oficial. O escritor e editor Roberto Gomes, colunista da Gazeta do Povo, critica o apoio do governo para o setor do livro.

Esse labirinto ziguezagueante chamado mercado editorial não é um nó fácil de ser desatado, talvez nem por Santo Expedito.

A Gazeta do Povo entrou em contato com algumas das maiores editoras do país para esclarecer dúvidas. Há mercado para tantos títulos publicados? Qual a tiragem e a vendagem médias de um livro no país? De que maneira, de fato, o governo fomenta o mercado? Com­­panhia das Letras, Rocco, Objetiva, Nova Fronteira e L&PM, por motivos variados, se recusaram a responder. Apenas a Record, uma das maiores, se pronunciou.

O que esse silêncio, ou essa recusa em dialogar, por parte de cinco grupos editorais quer dizer? No mínimo, há algo de “podre” no reino dos livros brasileiros.

Um mercado fértil

Dados da CBL dão conta de que o mercado editorial brasileiro vai bem. Em 2008, o faturamente foi de R$ 3,3 bilhões. Foram publicados 51.129 títulos (crescimento de 19,52% em relação a 2007), produzidos 340.274.195 exemplares e vendidos 333.264.519 unidades.

Essa bonança pode ser medida pelo interesse de estrangeiros pelas empresas brasileiras. A Obje­­tiva, que edita Luis Fernando Veris­­simo, entre outros, desde 2005 pertence ao grupo espanhol San­­tillana/Prisa. A Record foi sondada por diversos investidores, mas permanece made in Brazil. Os motivos para a empresa carioca ser cobiçada são muitos, e a presença de Luciana Villas-Boas é um dos trunfos da casa.

Desde 1995 no grupo, a diretora editorial acompanhou, nestes 15 anos, a evolução do mercado. O terceiro volume da série Diários do Vampiro chega ao mercado com tiragem de 100 mil. Está bom? “Ótimo”, responde Luciana.

Mas nem todos os títulos saem da incrível máquina de impressão (Sistema Cameron) da Record com 100 mil cópias. Há tiragens menores, de três e cinco mil exemplares. E o que vinga? Luciana conta que, na Record, 25% dos livros dão muito certo, 60% deixam pequena margem e 15% não funcionam. “Se fazemos uma tiragem de 3 mil exemplares, é possível que um livro esteja pago com 600 vendidos. Mas se fazemos uma tiragem de 15 mil e aplicamos verba de marketing significativa no lançamento, talvez o livro tenha de vender 4,5 mil para começar a render”, explica.

Estratégia, planejamento, um “bom produto”, tudo isso conta, mas há mais mistérios no mundo editorial do que supõe qualquer filosofia. O caso de Cristovão Tezza, colunista da Gazeta do Povo, é um exemplo. Ele publicava pela Rocco e, em 2006, conversou com Luciana e migrou para Record prometendo um inédito, que seria O Filho Eterno, o romance mais premiado em tempos recentes, que já vendeu mais de 30 mil exemplares e começa a ser traduzido para outros idiomas.

Se o livro digital vai emplacar no Brasil, é uma questão de tempo descobrir. Por hora, Luciana comemora a boa maré, fruto de várias variáveis, seja a aquisição de livros pelo governo, seja a qualidade da prosa dos autores brasileiros, e da maturidade da indústria do livro que, de acordo com ela, é do bem, e fundamental para o país.

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