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Histórias para contar e músicas para lembrar

O músico conheceu meio mundo e voltou para Curitiba há dez anos. Entre um acorde e outro, reclama da não valorização de sua obra por parte dos paranaenses

  • Cristiano Castilho
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Histórias para contar e músicas para lembrar

Talvez o único descompasso na vida de Waltel Branco tenha sido nascer prematuro. “Se atravessou”, como se diz, em dois meses. E veio ao mundo sob o mormaço de Paranaguá, para onde sua família viajou, a bordo de um fordinho 1929, ano traumático para a economia dos Estados Unidos e emblemático para o Brasil. Nascia, em um 22 de novembro – não por coincidência o Dia do Músico –, um dos maiores violonistas do país.

Conversar com Waltel Branco é como jogar para cima uma pilha de papéis com anotações tanto significativas quanto reveladoras e pinçá-las ao acaso. Os nomes de Bento Mossurunga, João Gilberto, Dizzy Gillespie, Roberto Marinho e Fidel Castro estariam escritos nos papeizinhos, entre outros tantos, de músicos, personalidades e políticos.

Waltel recebeu a reportagem na casa de seu irmão Ivo, no bairro do Batel, em Curitiba. Demorou para se apresentar porque quis se aprumar: vestiu um paletó quase branco por sobre uma camisa cinza aberta nos últimos dois botões. Tendo o complemento da calça de listras finas em preto e branco, o visual sóbrio contrastava com os tênis alvos e novos, que emprestavam um ar jovial àquela pessoa já tão experiente, mas nem por isso cansada. “Não paro, não posso parar. E ainda tenho muito o que fazer”, disse Waltel, com toda a serenidade que poderia ter um senhor de 81 anos.

Com pai maestro, a profissão que seguiu veio de lambuja. Bateria, violão e cavaquinho eram seu abecê. As palavras “música” e “Waltel” se confundem quando se tenta voltar ao cerne de toda essa história. “Via meu pai tocar violão, acompanhava os concertos. Era isso”, disse Waltel, sujeito de frases curtas, que hoje briga com uma surdez crescente e com sintomas de uma idade avançada que chega meio sem avisar.

Dois paranaenses também foram fundamentais lá nos tempos idos. Waltel Branco teve aulas com o maestro e compositor Bento Mossurunga (1879–1970), com o pianista e arranjador Alceo Bocchino, que trabalhou com os cantores boêmios Orlando Silva e Nelson Gonçalves, e com outros grandes nomes, inclusive estrangeiros. É o caso do trompetista norte-americano Stanley Wilson (1915–1970), criador de trilhas sonoras que marcaram época, área em que Waltel Branco também é referência.

A música não saiu de sua vida nem mesmo quando frequentou o seminário por uma década, entre 1939 e 49. Desistiu de vestir a batina na última semana antes de ser ordenado, muito por conta dos papos com o chileno Joaquín Zamacois. É que conversavam mais sobre música e menos sobre teologia. “Eu só queria saber de tocar”, lembra o violonista, já naquela época um profissional exigente e disciplinado.

Pelo mundo

Suas andanças começaram no Rio de Janeiro, para onde se mudou aos 20 anos. Era a trajetória natural de alguém que não nasceu à toa. Naquele mesmo 1949, embarcou para Cuba. A música da ilha florescia ao som de Perez Prado e Mongo Santamaria, que davam notas latinas a um jazz caretão. Confirmando seu talento, Waltel foi convidado para ser o diretor musical e violonista do grupo que formou com a cantora Lia Ray. E até Fidel entrou na história. “Ele era meu amigo, foi ele quem me convidou”, conta, já dedilhando o violão, agora em um bar de Curitiba.

A ponte se fez e o parnanguara atravessou o Mar do Caribe até os Estados Unidos. Entre 1953 e 1955, talvez, integrou um trio comandado pelo baterista Chico Hamilton – era sua primeira vez no país ianque, no qual o inglês não foi um problema porque a música, diz Waltel, é sua única língua. Espanha, Índia e Itália também tiveram o gostinho de ouvir seu violão.

Na pensão com João

No fim da década de 1950, no Rio de Janeiro, Waltel Branco dividiu um quartinho com João Gilberto, tido por muitos como o mentor da bossa nova. A parceria dos dois foi constante – “João era muito tranquilo e muito meu amigo”, diz Waltel –, e culminou com o álbum antológico Chega de Saudade, lançado em 1959, coarranjado pelo paranaense. Ambos conversam com frequência até hoje. Teria sido um dos maiores nomes da MPB – instrumentista ele foi –, mas resolveu mudar de rumos.

Waltel voltou aos EUA para estudar composição de trilha sonora. Não demorou muito e lá estava ele ao lado do maestro Henry Mancini, responsável pelo “taram-taram” da trilha sonora do filme A Pantera Cor de Rosa, de Blake Edwards. “Foi normal, música é música”, conta o maestro, resoluto.

Nesse meio tempo, com o violão debaixo do braço, tocava com Sal Salvador. Formou um grupo com Nat King Cole e arrumou um affair com a cantora Lede Saint-Clair, irmã de Quincy Jones. Waltel estava em todas e era requisitado por muitos. Até que voltou para o Rio de Janeiro e recebeu um convite irrecusável de Roberto Marinho. Isso entre uma aula e outra que dava para ninguém menos do que Baden Powell.

A ideia era de que Waltel Branco comandasse a genial equipe musical da Rede Globo. Formada por Radamés Gnatalli, Guerra-Peixe e Guido de Moraes, não foi difícil para o grupo compor trilhas de novelas como Roque Santeiro (a primeira versão, censurada), A Gata Comeu, A Moreninha e A Escrava Isaura – se lembra do “Ê, lerê...?”.

Foram 20 anos trabalhando na emissora, assinando seu trabalho com vários pseudônimos. Dava para se virar, admitiu, mas Walteu sempre foi um sujeito meio desligado das coisas materiais. Chegava até a esquecer seus violões em shows por aí. “Hoje vivo que recebo do Ecad [entidade responsável pela arrecadação de direitos autorais no país] e do que ganho com o cargo na tevê”, diz o músico, recentemente contratado pelo presidente da E-Paraná, Paulo Vítola, como espécie de consultor musical da emissora estatal.

Mágoa

Waltel Branco voltou para Curitiba há dez anos. Tem duas filhas – a empresária Jael e a delegada Soraia –, que moram no Rio, e uma legião de fãs, notadamente instrumentistas. Sempre é visto por aí, zanzando em apresentações musicais. Mas faria tudo diferente se pudesse. “Eu não fui reconhecido porque fiquei longe da mídia. Achava que iria me virar sozinho, mas não é assim. O João [Gilberto], por exemplo, soube aproveitar isso melhor”, diz. “Ele tinha jornalistas a seu lado”. O discurso contra a cidade, contra o Estado, também é vigoroso. “O Paraná não te reconhece. Curitiba muito menos. Não sei porque, mas aqui é assim”, diz o músico aumentando a voz e voltando a fazer um arpejo envolvente em seu Takamine rodado, mas afinadíssimo.

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